Quer salvar as florestas? Salve as aves!

Florestas tropicais são um dos ambientes mais biodiversos da Terra, são ecossistemas que evoluíram ao longo de milhões de anos – na verdade, na última década -, estudos científicos como o artigo publicado por Thomas LP Couvreur em 2013, na revista BioMedCentral Biology, já comprovaram que essas florestas estão entre os biomas mais antigos do planeta.

Biomas como a Mata Atlântica brasileira se originaram muito antes do final do período Cretáceo, há cerca de 65 milhões de anos. Apenas como referência, os primeiros Homo sapiens, ancestrais da humanidade, surgiriam apenas entre 100 mil e 300 mil anos atrás.

Ao longo de séculos, a evolução moldou espécies, em todas as suas formas, hábitos, parcerias, e milhares de estratégias de sobrevivência foram testadas, possibilitando a algumas espécies sobreviverem até os dias de hoje, passando a protagonizar processos ecológicos complexos, muitos dos quais tornaram-se fundamentais para a manutenção do equilíbrio do ecossistema.

Alguns animais, plantas ou até microrganismos transformaram-se naquilo que os cientistas classificam como espécies-chave ou, em inglês, keystone species. Esse conceito foi criado em 1966 pelo pesquisador Robert Paine a partir de um estudo sobre teias alimentares publicado na revista The American Naturalist. Desde então, foi ampliado, atualizado e uma revisão completa do tema realizada em 2012 pela dupla de cientistas Cottee-Jones e Whittaker no artigo The keystone species concept: a critical appraisal.

Eden Cottee-Jones enfatizou que um dos maiores desafios dos cientistas que se dedicam à pesquisa acadêmica na área da ecologia é quantificar matematicamente a importância de cada uma das espécies em um ecossistema tão complexo.

Curiosamente, apenas dois anos depois, a pesquisadora Elise Filotas, publicou artigo na revista Ecosphere, apontando que esse foi o desafio que impulsionou a aplicação de novas ferramentas já empregadas na física e na ciência computacional ao estudo da ecologia, dando início a uma nova era onde ecólogos passaram a enxergar as florestas por meio das lentes da ciência de sistemas complexos.

Outra nova era teve início na ecologia com a publicação de livros como Redes Mutualísticas, ou em inglês Mutualistic Networks, publicado em 2013 por Jordi Bascompte e Pedro Jordano. Trata-se de uma obra com ferramentas inovadoras que possibilitaram identificar e entender como plantas e animais se tornam espécies-chavesem uma gigantesca teia de interações como a das florestas tropicais.

Hoje, já se sabe que a dieta especializada dos animais é uma das forças mais poderosas da natureza para determinar se uma espécie se tornará – ou não – uma espécie-chave em um ambiente.

Segundo o artigo Keystone species in seed dispersal networks are mainly determined by dietary specialization, publicado em 2014, na revista Oikos pelo genial cientista brasileiro Marco Aurélio Mello, investigar e quantificar todos os fatores relacionados a dieta das espécies é fundamental para entender o que as pode definir sua importância. Animais especializados em consumir frutos desempenham um papel essencial para a manutenção do funcionamento dos ecossistemas, o que tem implicações profundas em ações de conservação e restauração.

Se animais que consomem frutos são peças fundamentais para o funcionamento das florestas, o que dizer da importância de animais, tão hábeis que, ingerem seu alimento enquanto voam pelo ambiente? Somente na Mata Atlântica, vivem 891 espécies de aves, cerca de 45% de todas as espécies encontradas no Brasil que, somam-se as aves da Amazônia que comporta aproximadamente 1.300 espécies. Qual seria o papel das milhares de aves que habitam as florestas para sua conservação?

Alguns dos primeiros cientistas a realizarem esta mesma pergunta foram Henry Howe e Judith Smallwood, em 1982, no artigo “Ecology of seed dispersal“, publicado na revista Annual Review of Ecology and Systematics. Na época a comunidade acadêmica começava a testar hipóteses e explorar o papel da dispersão de sementes na regeneração natural dos ambientes.

Décadas mais tarde, cientistas, como a equipe do renomado pesquisador Mauro Galetti, realizariam descobertas que alterariam as bases de ações voltadas a conservação das florestas, inclusive que aves como as da família dos tucanos e arapongas, considerados grandes frugívoros, são essenciais para a sobrevivência das florestas.

Ao escolherem majoritariamente os maiores frutos para se alimentar, estas aves acabam por escolher também as maiores sementes para serem ingeridas e dispersadas, muitas vezes à quilômetros de distância, influenciando diretamente as características das futuras gerações de árvores e palmeiras do bioma.

Em um mundo onde tamanho é documento, uma semente maior tem mais chances de germinar e atingir a idade adulta, tornando-se um indivíduo saudável e apto a produzir milhares de frutos, pois as sementes maiores possuem reservas nutricionais significativamente melhores que auxiliam as plantas a se desenvolver.

O time de pesquisadores publicou em 2010, o artigo Functional Extinction of Birds Drives Rapid Evolutionary Changes in Seed Size na revista científica Science, demonstrando que a perda de aves frugívoras de grandes porte afeta drasticamente o processo de regeneração natural da Mata Atlântica, ou seja, impacta as futuras gerações de plantas como, o palmito Juçara (Euterpe edulis).

Quando as aves de grande porte – com bicos grandes o suficiente para ingerirem os maiores frutos – desaparecem, as populações de palmito, considerado uma espécie-chave por produzir alimento para milhares de espécies, sofrem rápida redução do tamanho de suas sementes. Esta mudança afeta toda a dinâmica reprodutiva da espécie, assim como a sobrevivência, saúde e produtividade das novas palmeiras.

Mas o papel das aves na natureza vai muito além: enquanto as aves frugívoras semeiam as florestas, as aves insetívoras constituem um verdadeiro exército de vigilantes prontos para devorar qualquer potencial ameaça à saúde e bem estar das plantas.

Dezenas de estudos apontam que as aves insetívoras desempenham papel vital no controle de insetos herbívoros, impulsionando o crescimento, reprodução e a sobrevivência das plantas, além de promover a longo prazo a regeneração de tecidos vegetais.

A pesquisadora Franziska Peter, após anos de investigação nas matas da Reserva Natural Oribi Gorge Nature Reserve, em KwaZulu-Natal, na África do Sul, publicou em 2015, na revista científica Biotropica, o estudo “Forest Fragmentation Drives the Loss of Insectivorous Birds and an Associated Increase in Herbivory”, demonstrando que a exclusão de aves insetívoras de um habitat, tem influência direta sobre o tamanho das áreas das folhas consumidas por insetos herbívoros.

Resultados alinhados com os dados publicados na revista Science, já em 2001, pelo biólogo John Terborgh, no artigo “Ecological Meltdown in Predator-Free Forest Fragments”, onde foram encontradas evidências em ilhas formadas pela construção de uma hidrelétrica na Venezuela que, na ausência de predadores como as aves, as populações de consumidores de folhas como insetos herbívoros, explodem.

No mesmo ano, Juraj Halaj, especialista em insetos da Universidade de Kentucky, publicou uma revisão sobre o tema em 2001, intitulada “Terrestrial Trophic Cascades: How Much Do They Trickle?”, após uma extensa revisão sobre o tema e uma meta-análise incluindo de dezenas de estudos, afirmou que a perda de predadores como aves insetívoras pode ter consequências desastrosas para as plantas, já que livra os insetos herbívoros de seus piores pesadelos, as gigantescas e vorazes aves insetívoras.

O cientista Sunshine A. Van Bael, após percorrer as montanhas das florestas tropicais do Panamá, publicou, em 2004, na revista PNAS, o estudo “Birds defend trees from herbivores in a Neotropical forest canopy”. Van Bael observou a forma como a comunidade de artrópodes de uma floresta responde à ausência de pressão por parte de aves predadoras, os resultados demonstraram como as aves insetívoras que habitam o topo destas florestas acabam defendendo as folhas e galhos das árvores do ataque de insetos herbívoros.

Então os cientistas já comprovaram que, aves que se alimentam de frutos e insetos são peças essenciais no gigantesco quebra-cabeça das florestas tropicais, os verdadeiros jardineiros alados da natureza, enquanto algumas espécies selecionam os melhores frutos e distribuem suas sementes por todo o ambiente, outras, mantém populações de insetos herbívoros mas, além disso as florestas tropicais ainda contam com ajuda de um grupo muito especial de aves, as polinizadoras.

Claro, as abelhas são as “rainhas” da polinização, mas em ambientes tão diversos como as florestas tropicais nem todas as plantas teceram parcerias com este insetos, algumas “preferiram” se “associar” a algumas das mais belas aves neotropicais, os beija-flores.

Trabalhos como o do pesquisador Adam S. Hadley, na Estação Biológica de Las Cruces na Costa Rica, já geraram descobertas superinteressantes no campo da ecologia. Hadley publicou em 2014, na revista Ecology, o artigo “Tropical forest fragmentation limits pollination of a keystone understory herb” em que, os resultados demonstraram que para plantas como a Heliconia tortuosa a polinização por beija-flores é insubstituível, literalmente. Sem estas aves para polinizar as flores da Heliconia, a produção de sementes pela planta diminui drasticamente comprometendo a reprodução e estabilidade das populações da espécie nas florestas.

A cientista Sandra H. Anderson, investigando os processos ecológicos nas ilhas da Nova Zelândia, descobriu que em algumas localidades onde as aves polinizadoras de arbustos da espécie Rhabdothamnus solandri (Gesneriaceae) desapareceram, a produção de sementes por flor foi reduzida a impressionantes 84%, afetando a própria existência desta planta. Os resultados de suas observações foram publicados no artigo “Cascading Effects of Bird Functional Extinction Reduce Pollination and Plant Density”, na revista Science em 2012.

Os pesquisadores Jeferson Vizentin-Bugoni, Pietro Kiyoshi Maruyama e Marlies Sazima, estudando as interações entre beija-flores e plantas nas montanhas Estação de Campo Santa Virgínia, no Parque Estadual da Serra do Mar, no estado de São Paulo, identificaram uma rede de interações de nada menos que 47 espécies de plantas sendo polinizadas por 9 espécies de beija-flores. Os resultados foram publicados no artigo “Processes entangling interactions in communities: forbidden links are more important than abundance in a hummingbird–plant network”, em 2014.

O professor da Universidade de Stanford, Cagan H. Sekercioglu, em seu artigo “Functional Extinctions of Bird Pollinators Cause Plant Declines” para a revista Science, em 2011, apontou que no mundo de hoje aproximadamente 10,000 espécies de aves são peças chave na maioria dos ecossistemas, incluindo desde as florestas tropicais até os oceanos profundos da Antártida. As aves são responsáveis por serviços ecossistêmicos cruciais, como a dispersão de sementes, a polinização das flores, a predação e controle de pragas, a decomposição de animais mortos, fixação de nutrientes, e incontáveis espécies de plantas dependem da relação de mútuo benefício com as aves para sobreviver.

Muitos de nós, humanos, podemos em um primeiro momento imaginar que muitas das magnificas espécies de aves brasileiras jamais sobreviveriam sem as florestas, mas a avassaladora verdade é que nossas florestas jamais sobreviveriam sem os inestimáveis serviços prestados pelas aves.

Sendo totalmente, cientificamente, sincero, com base nas descobertas científicas mais recentes que enfatizam dados como os obtidos pela pesquisa liderada pela brasileira Carolina Bello em colaboração com pesquisadores como Mauro Galetti e Pedro Jordano, cujos resultados publicados em 2015, no artigo “Defaunation affects carbon storage in tropical forests”, esclarecem que sem as grandes aves frugívoras que habitam nossas florestas, as mesmas que atuam como jardineiros alados, dispersando sementes de uma vasta gama de espécies de árvores, sem elas muitas das árvores responsáveis pela fixação de carbono no ecossistema não são mais capazes de se reproduzir com eficiência e, as florestas perdem uma de suas características mais importantes para a sobrevivência da humanidade, a capacidade de impedir as mudanças climáticas que ameaçam a existência da civilização moderna.

Da próxima vez que você observar uma ave em uma gaiola ou, descobrir que aves foram mortas por caçadores ilegais, lembre-se, só as aves salvam, salvam o equilíbrio dos ecossistemas, salvam o planeta das mudanças climáticas então, por que não salvá-las de nós mesmos?

Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

2 comentários em “Quer salvar as florestas? Salve as aves!

  • 24 de março de 2017 em 1:30 PM
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    A ganância do ser humano não tem fim.

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  • 25 de março de 2017 em 12:11 PM
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    Sou moradora em São Vicente, São Paulo, e costumo deixar um prato de frutas para os passarinhos da região que sempre me brindam com suas visitas, mas ultimamente tenho notado uma diminuição de frequentadores e desaparecimento das maritacas que chegam sempre fazendo uma grande algazarra! Alguém poderia me informar o que está havendo? O prato de frutas fica em uma varandinha no nono andar de um edifício e a varanda está repleta de alecrins, manjericão , lágrima de Cristo , anis e macassas( patchuli ).

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