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Quem é o panga? Amigo da aquicultura ou inimigo da biodiversidade?

Quem é o panga? Amigo da aquicultura ou inimigo da biodiversidade?

As recentes discussões e os incentivos legislativos ao cultivo de espécies exóticas no Brasil nos levam a uma pergunta, que aparentemente parece tola, mas é inevitavelmente necessária: Por que o país com a maior biodiversidade de peixes no mundo ainda insiste em cultivar peixes de outros países? O mais novo candidato a queridinho ou “mister” da aquicultura, e também da aquariofilia, é o bagre asiático Pangasianodon hypophthalmus, conhecido popularmente como panga. Em inglês, é conhecido como striped catfish.

Em três estados brasileiros, Rio Grande do Norte, Sergipe e São Paulo, seu cultivo em cativeiro já é autorizado. Agora um projeto de lei apresentado em Tocantins quer liberar a psicultura do panga também por lá (leia mais aqui).

Quem é o panga?

Nativo nos rios Mekong, ChaoPhraya e Maeklong (China, Vietnã e Tailândia), o panga despertou interesse dos piscicultores brasileiros por suas reconhecidas características no que se refere à alta resistência ou rusticidade e crescimento rápido. O panga tolera grandes variações de temperatura, apresenta dieta generalista e comportamento migratório para a reprodução.

De maneira geral, essa espécie de peixe suporta intempéries, come de tudo um pouco e naturalmente ocupa com facilidade qualquer trecho de rio. A exemplo disso, na Ásia é comum encontrar o panga em meio às plantações de arroz, o que claramente demonstra sua resistência e rusticidade. Além disso, desde 2006 o panga também tem ganhado cada vez mais destaque na aquariofilia por dois motivos: é uma espécie relativamente fácil de ser mantida em aquários e também por sua aparência lembrar um tubarão, sendo também conhecido como tubarão de água doce.

Vale destacar que este é um peixe muito ativo no aquário e vendido principalmente quando ainda é jovem e de pequeno tamanho. Porém, pode atingir um tamanho que não seja apropriado para esse espaço confinado, o que incentiva a sua soltura em ambiente natural pelo aquarista. Pangas podem atingir até 130 cm de comprimento e 44 kg, por isso são apreciados na modalidade chamada de “aquarismo jumbo”, que se caracteriza pela escolha de espécies de peixes de média a grande porte.

Mas por que devemos nos preocupar com o panga?

Agora que já conhecemos melhor este peixe, uma mente empreendedora certamente está vendo apenas vantagens com a criação desse “simpático” peixe de sabor duvidoso, especialmente se compararmos com outras espécies nativas do Brasil. Ora e não é à toa! Porque não criar um peixe que é resistente, fácil de alimentar e que possui um suposto interesse tanto no mercado alimentício quanto na aquariofilia?

Primeiramente, pois é muito mais fácil se comprar um pacote de tecnologia zootécnica importada do que investir em pesquisa para trabalhar com peixes nativos. Neste sentido, cabe destacar o fato de que em termos de peixes o Brasil é o país com maior número de espécies de bragres do planeta.

O grande perigo da criação de panga no Brasil é também ligado à possibilidade do escape acidental para o ambiente natural. Imagine uma determinada região onde o cultivo de panga ganhou bastante espaço e a maioria dos aquicultores estão cultivando esta espécie, tanto para a venda de carne quanto para aquariofilia. Vamos imaginar ainda que nessa região exista uma piscicultura que chamaremos convenientemente de “Fazenda Santo Panga”.

A Fazenda Santo Panga possui uma grande quantidade de tanques escavados para a criação do panga, e parte destes tanques, como é comumente observado na prática, estão localizados muito próximos a um riacho. Esse riacho inevitavelmente recebe o escoamento de água dos tanques utilizados para a criação de panga. No dia-a-dia em Santo Panga, os peixes são alimentados para crescerem e engordarem até atingirem o peso ideal para a venda. Quando isso acontece, os tanques são parcialmente escoados e os peixes retirados e encaminhados ao frigorífico para serem processados, embalados e vendidos. Então, um novo ciclo se começa na Fazenda Santo Panga, e assim sucessivamente ao longo dos anos.

Mas como nem tudo é perfeito, temos alguns riscos ambientais preocupantes no modelo de produção da Fazenda Santo Panga. O primeiro deles e o mais comum é a contaminação do riacho pelo escoamento dos tanques escavados. Essa água apresenta características extremamente diferentes daquela do riacho. Isso porque os tanques recebem diariamente a ração que alimenta os peixes, que por sua vez produzem seus dejetos, o que altera os parâmetros físico-químicos da água.

O segundo risco ambiental grave são os patógenos (i.e. fungos, vírus e bactérias) e parasitos comumente encontrados em peixes de pisciculturas, principalmente os peixes exóticos, que se dispersam para o riacho através do escoamento. O terceiro problema, e talvez o mais grave, é que eventualmente alguns desses peixes exóticos produzidos na Fazenda Santo Panga podem escapar dos tanques de cultivo, configurando assim uma poluição biológica.

As razões mais comuns desses escapes são sistemas de escoamento inadequados (escapes constantes) e eventuais rompimentos dos tanques escavados devido a fortes chuvas (escape pontual, mas em grande quantidade). É muito importante destacar que, mesmo o cultivo mais cuidadoso de todos o planeta, não pode garantir um risco nulo, ou seja, mesmo cultivos bem planejados e executados, com espécies exóticas como o panga, não são completamente seguros e portanto podem causar impactos negativos graves, durante eventos naturais que atualmente em tempos de mudanças climáticas não são muito raros, como trombas d’ água, ou rompimento de barragens por falhas geomorfológicas ou mesmo erros humanos no planejamento da engenharia dos tanques.

Quando os pangas criados na Fazenda Santo Panga conseguem chegar ao riacho, a ameaça de impacto ambiental generalizado e em grande escala aumenta consideravelmente. Isto porque esse peixe asiático pode suportar diversos ambientes e condições de temperatura por se tratar de uma espécie resistente e a chance dele se espalhar rapidamente por rios e riachos é grande, visto que apresenta comportamento migratório. Como se não bastasse, o panga ainda possui dieta generalista e é difícil prever do que ele vai se alimentar, podendo ter, por exemplo, preferência por espécies nativas ameaçadas, raras ou endêmicas.

De fato, o panga já foi introduzido por diversos locais do mundo por meio da aquicultura, aquariofilia e até mesmo, da pesca esportiva. Por isso devemos estar em alerta quanto à criação desta espécie em águas brasileiras. Visto as autorizações estaduais que permitem e incentivam a criação da espécie, parece questão de tempo para esses peixes começarem a escapar e serem introduzidos por todo o país.

Os atuais modelos de aquicultura no Brasil geram impactos ambientais devido à falta de planejamento e legislação adequados usando dominantemente organismos exóticos com elevado potencial e risco de invasão de ecossistemas naturais. Além disso, a comunidade científica, o governo e as partes interessadas estão em conflito constante em relação às políticas de piscicultura que afetam negativamente a integridade ecológica natural e a sustentabilidade.

Potenciais riscos para biota aquática nativa, assim como a introdução de patógenos, são um problema eminente no atual modo de aquicutura usando cada vez mais novas e arriscadas espécies como o panga. Também é importante enfatizar que, para uma discussão transparente e ampla sobre o cultivo e liberações desse peixe no Brasil, uma divulgação completa dos riscos e dos interesses conflitantes deve ser feita com urgência.

Nós não temos dúvidas de que para nossa sociedade e para as futuras gerações, ao invés de questionar as evidências científicas e os catálogos de informações sobre impactos e riscos do panga e outras exóticas, seja melhor somar esforços para estudar e desenvolver tecnologias para a criação de espécies de peixes nativas do Brasil.

De maneira geral, o cultivo ou criação de qualquer espécie exótica, ou seja, que não ocorre naturalmente na região onde está sendo cultivada/criada, já oferece riscos ao ecossistema. Isto é um consenso entre cientistas do mundo todo e não uma mera opinião.

No Brasil, a criação de espécies exóticas é uma prática comum de grandes impactos e sem sombra de dúvidas uma atividade de alto risco para a rica fauna nativa dos rios brasileiros. Caso se persista em incentivar e manter esse tipo de indústria, na contramão da sustentabilidade, o resultado será um só: estaremos fadados a comer, pescar e criar em aquários apenas algumas espécies de peixes exóticos. 

*Texto elaborado em parceria com os biólogos Jean Vitule, professor de Ecologia do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e Diego Azevedo Zoccal Garcia, doutor em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL)

Leia também:
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Foto: Vassil/Wikimedia Commons

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MARIA APARECIDA SALLES FRANCO
MARIA APARECIDA SALLES FRANCO
2 anos atrás

Sou Zootecnista e colaboradora voluntária da bacia do Rio Doce, concordo plenamente com o risco que a introduçao de especies exóticas trás para nossa biodiversidade aquática. Outro grande problema é a prática da nossa profissão por outros profissionais sem os conhecimentos específicos sobre cada tipo de criação. Formei em 1983 e poucas vezes senti nossa profissão valorizada em um pais tão carente de pesquisas.

Paula Maria Gênova de Castro Campanha
Paula Maria Gênova de Castro Campanha
2 anos atrás

Sou totalmente contra a criação de espécies exóticas em nossas águas brasileiras, à despeito de nossa rica biodiversidade ictiíca. Um absurdo total levarem em conta somente os aspectos econômicos de criação. A aquicultura brasileira merece coisa melhor, tá indo por um caminho altamente perigoso e nocivo as espécies nativas, a nossa rica fauna e e a própria sustentabilidade aquícola. Muito triste esse caminho, precisamos mudar essa lógica perversa!

JOSENILDO S SILVA
JOSENILDO S SILVA
1 ano atrás

Frescura. Temos que introduzir sim espécie que tenham grande potencial para fornecer alimento a um prazo curto e baixo custo. Se estamos importante esses peixes é porque tem um maior custo benefício do que os nativos. A natureza se adapta. Até mesmo porque ela mesmo muitas vezes se encarrega de executar essas migrações, de forma natural. Então vamos deixar de drama e se preocupar em matar a forma do povo. Não é o panga que vai destruir os rios e sim os esgotos que escoam nessas águas. Se preocupem com o que realmente interessa.

Silvia
Silvia
7 meses atrás

que resposta mesquinha e narcisista…

Vitule
Vitule
7 meses atrás

Panga e outras exóticas são poluição biológica que é muito pior que a química, pois ao invés de diluir e diminuir no espaço é tempo pode se amplificar. As populações de exóticas invasoras crescendo no espaço e tempo e competitivas e consomem recursos locais. Sugiro os leitores assistir o filme “O pesadelo de Darwin” filme ganhador do Oscar de 2004. Um pouco sobre impactos. Não há drama. Há realidade de impactos e há pessoas limitadas que só pensam no lucro de curto prazo.

ALBERTO JOSE TARDIANI
ALBERTO JOSE TARDIANI
1 ano atrás

Isso já aconteceu no Pantana,l no Rio Piquiri. Fazendas próximas ao rio tinham criações de tucunaré, houve uma grande enchente ( uns 25 anos atrás) e eles foram para o rio e chegaram ao Pantanal. O tucunaré é uma máquina de comer e estão dizimando peixes nativos. Uma lástima.

Benjamim Lepa
Benjamim Lepa
7 meses atrás

Resumindo
O professor quer verba ilimitada pra passar a vida inteira estudando os peixes nativos que nunca vão parar na mesa do BR comum. Enquanto isso aparecem peixes de outros países que não precisam de estudo nenhum, são baratos de cultivar, resistentes e fácil de vender. O BR comum finalmente pode comer peixe fresco pagando o valor de frango.
Mas segundo o Zé da Federal isso não pode acontecer porque se não ele perde aguela rechonchuda bolsa do governo pra ficar no eterno lero lero de professor pesquisador.

Vitule
Vitule
7 meses atrás
Reply to  Benjamim Lepa

Este tipo de visão é um tanto quanto limitada. Todos os peixes exóticos cultivadas aqui tiveram estudos incentivados em seus países. Cabe pensar que temos a maior diversidade de peixes e possibilidades de exportar. Esta visão de colônia precisa acabar. Os países mais pobres são os que não investem em pesquisa. As bolsas para pesquisadores são o que fazem os EUA ser a potência que é em tecnologia.

JEAN RICARDO Ricardo Simões SIMÕES VITULE
JEAN RICARDO Ricardo Simões SIMÕES VITULE
7 meses atrás
Reply to  Benjamim Lepa

Não sei quem Zé da Federal, mas certamente ele deve morar na Europa ou nos países de onde temos importado tecnologia, sendo sempre colônias, e dando mão de obra barata e matérias primas como peixes nossos, para depois compra como patentes de gringos. Mano, de que bolsa “rechunchuda” tá falando? kkkkkkk Essa a melhor piada do ano!

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