Queijo, o ouro da Canastra

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O Parque Nacional da Serra da Canastra é um berçário de rios que brotam dos chapadões. O platô mais famoso – em forma de baú (foto abaixo) – inspira histórias mágicas, contadas na beira do fogão a lenha pelos mais antigos. A oralidade é um canal de comunicação quase umbilical entre gerações. De pai para filho, os costumes de uma região fértil povoam o dia a dia de milhares de moradores. Na área regularizada da Unidade de Conservação se localiza a nascente histórica do rio São Francisco, um dos mais importantes do país. É também nas margens dos cursos d’água que sete municípios se destacam pela produção de um símbolo da cultura mineira: o queijo da Canastra. Agora, com o Selo de Origem, Região do Queijo da Canastra, a marca só pode ser usada nos sete municípios que compõem o perímetro das propriedades produtoras.

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São Roque de Minas, Bambuí, Delfinópolis, Medeiros, Piumhi, Vargem Bonita e Tapiraí integram o circuito no qual cerca de 800 famílias mantêm viva a tradição secular. A região guarda a riqueza da cultura popular dos rincões, um jeito de ser que encanta, uma prática que além de gerar renda para os agricultores, espalha-se pelos quatro cantos do Brasil. De São Roque, cidade que leva o nome do santo padroeiro local, chega-se facilmente a inúmeras fazendas. Todas as porteiras da Canastra fazem fronteira com as montanhas. Das estradas de terra – de um vermelho vivo – avistam-se as casas, os currais, os pastos, as plantações, todo um universo voltado para fabricação do parceiro de todas as mesas, o queijo.

Na zona rural, o ritmo de trabalho segue o fluxo dos rebanhos. São muitas as histórias a transpor os pastos – uma quantidade a perder de vista. Toda porção de terra conta com um casal que divide tarefas para que o queijo chegue ao mercado. Os maridos ordenham, transportam e acondicionam o leite. Já as esposas transformam a matéria-prima em peças de aproximadamente 1,2 quilos. Cada propriedade fabrica cerca de quinze unidades por dia. Faça chuva ou sol, frio ou calor, a lida não pode parar. A qualidade do queijo depende da constância.

Uma curva no barranco aponta a casa típica do interior das Gerais. Ao lado da cerca está um senhor de olhos claros e sorriso contagiante. Roque Ferreira de Andrade, conhecido como Roque Pedro (foto abaixo) – apelido que herdou do pai –, traz nas mãos um galão de 200 litros vazio. Atento a tudo e a todos, ele arruma o curral para o início da ordenha. O sol ainda manso no céu agita as vacas. Elas sabem que chegou a hora. Uma a uma, preparam-se para entrar, comer, soltar o leite e dar de mamar aos bezerros.

De chapéu de palha inseparável, ele nos recebe – a mim e ao fotógrafo Fellipe Abreu – com a seguinte tirada: “Você viu a lua ontem, minha filha? Tava feito um queijo curado“. No que o amigo retrucou do quintal. “Da Canastra, né compadre?”. Estávamos em época de lua cheia e a poucas horas do truco que aconteceria na sua casa ao cair da noite. O truco é um acontecimento na roça. Dá em festa com direito a coqueiro derrubado, cachaça, palheiro e frango matado.

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Do outro lado da serra, na região de Vargem Grande, mora Ivair José de Oliveira (foto abaixo). Aos 46 anos, ele tem uma história de vida de encher os olhos. Foi na base da perseverança que venceu, ano após ano, todos os obstáculos para chegar ao ponto de – vira e mexe – precisar se ausentar da fazenda algumas vezes no ano. Alguns produtores já levam os seus queijos para eventos gastronômicos realizados em diversas partes. Tanto que quem nos recebeu de braços abertos foi a esposa, Maria Lúcia Pereira Oliveira.

Ela conta que Ivair tomou um susto quando recebeu a notícia de que acompanharia o gerente executivo da Associação dos Produtores de Queijo da Canastra (Aprocan), Paulo Henrique Matos, durante um fim de semana na capital paulista. “Ele não dá conta de cidade grande, imagina São Paulo? Foi um parto convencer, mas pelo nosso queijo ele vai até pra China se for preciso”, comenta Lúcia animada com a boa nova para a família, que hoje vende toda sua produção para o consumidor final.

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O queijo da Canastra atrai a atenção de visitantes de diversos cantos do País e exterior. Milhares de pessoas chegam, cada vez mais, para usufruir as belas paisagens da serra, a acolhida do povo hospitaleiro e o sabor exclusivo de uma iguaria tombada como patrimônio cultural e imaterial brasileiro.

Na boca da serra, a linha do horizonte é o fio que tece a esperança de uma gente que traz no corpo a marca da luta e na alma, um traço original de um país que transforma sonho em realidade. Quem prova do queijo que o diga.

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Fotos: Fellipe Abreu

Carolina Pinheiro

Jornalista e documentarista, colabora com importantes publicações nacionais e internacionais. Viaja o Brasil atrás das histórias do povo, de cantos que não constam no mapa, de lugares distantes das principais rodovias. Traz a reportagem na veia. Em 2014, fundou a Nascente Casa Editorial, onde trabalha com a produção de conteúdo sobre cultura popular, meio ambiente e turismo sustentável no país.

3 comentários em “Queijo, o ouro da Canastra

  • 5 de dezembro de 2016 em 10:12 AM
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    Carolina, sua linda! Me faz marejar os olhos lendo essa matéria!!! Parabéns! Ficou linda de viver!
    Bjus!

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    • 5 de dezembro de 2016 em 1:34 PM
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      Oba, Claudia, delícia ler tuas palavras! Obrigada ;) Coisa boa que gostou! Beijos

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      • 13 de julho de 2019 em 1:55 PM
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        ÓTIMA TARDE , CAROLINA PINHEIRO, MAGNÍFICA REPORTAGEM, ESTAVA ASSISTINDO, A REPORTAGEM, NA GLOBONEWS, SOBRE A EXCELENTE PRODUÇÃO DE QUEIJOS, NA SERRA DA CANASTRA, E OS 56 PRÊMIOS, RECEBIDOS, E FUI NO GOOGLE, E AQUI ESTÁ SUA MARAVILHOSA REPORTAGEM, SOBRE O TEMA.

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