Quase 100% do plástico descartado no mar acaba no fundo dos oceanos

Quase 100% do plástico descartado no mar acaba no fundo dos oceanos

Há anos que o alerta é feito e muito pouco tem sido feito para evitar esse trágico impacto ambiental que afeta nossos oceanos: o descarte de lixo plástico, que contamina as águas do planeta e mata milhares de animais marinhos, que confundem partículas plásticas com alimentos.

Em 2015,  a Agência Espacial Americana (Nasa) divulgou um vídeo impressionante em que mostrava, através de imagens de satélite, gigantescas ilhas de lixo flutuando em cinco pontos do oceano (leia mais aqui).

Mas agora, um novo estudo da organização internacional Oceana revela que 99% dos resíduos plásticos descartados no mar acabam parando no fundo dos oceanos. Ou seja, o que vemos na superfície é apenas 1% do volume total desse lixo.

Em um relatório, pesquisadores mostram o resultado de expedições feitas na Europa, sobretudo, no Mar Mediterrâneo. Nelas, os cientistas alertam sobre a presença de uma quantidade enorme de resíduos a centenas de metros de profundidade, colocando em risco áreas de alto valor biológico, como montanhas, cânions e escarpas submersas.

“Em apenas alguns anos, oásis da vida como montes submarinos e cânions estão se tornando aterros de lixo plástico. O caso do mar Mediterrâneo é muito preocupante por causa da pressão humana que recebe e da grande profundidade de suas águas “, afirma Ricardo Aguillar, diretor da Oceana de Expedições na Europa.

Quase 100% do plástico descartado no mar acaba no fundo dos oceanos

Em águas profundas, o lixo demora muito mais tempo para se decompor

Já faz quinze anos que a organização europeia documenta, com imagens obtidas através das lentes de robôs submarinos, a condição dos oceanos há mais de 1 mil metro de profundidade. Para a ciência, a partir de 200 metros já são consideradas “águas profundas”, onde a influência da luz começa a desaparecer. Nesses lugares, com baixas temperaturas e na escuridão, o processo de degradação do lixo é muito, muito mais lento, podendo levar séculos.

No estudo, os pesquisadores citam, por exemplo, os cânions submarinos. No mundo todo, cerca de 15% deles estão próximos às costas, onde naturalmente, o despejo de lixo está mais concentrado. Na Costa de Cataluña, na Espanha, estima-se uma concentração de entre 1.500 e 15 mil objetos por km2, com um máximo de 167.540 em um local concreto. Dos itens encontrados, a grande a maioria (72%) era feita de plástico.

Em outro ponto do continente europeu, a Oceana detectou em depressões no fundo do mar, em canais entre a Sicília e a Calábria (Tremesteri, Sant’Agata e San Gregorio), até 200 objetos a cada 10 metros.

“Medidas como limpeza de praias e coleta de resíduos na superfície marinha são muito necessárias, mas totalmente insuficientes se quisermos enfrentar a raiz do problema dos plásticos no oceano. É essencial reduzir a fabricação de plásticos de uso único e que a legislação elimine os mais problemáticos”, defende Natividad Sánchez, diretora da campanha de combate à poluição marinha por plásticos da Oceana na Europa.

Quase 100% do plástico descartado no mar acaba no fundo dos oceanos

Infelizmente, com a pandemia do novo coronavírus, a situação pode ficar ainda pior, já que houve um aumento enorme no uso de materiais descartáveis. Em junho, divulgamos neste outro texto, como os mergulhadores da ‘Opération Mer Propre’ encontraram uma quantidade enorme de máscaras de proteção nas águas da baía do Golfo Juan-les-Pins, na França.

Ambientalistas da ONG OceansAsia também denunciaram o impacto desse novo tipo de lixo nas Ilhas Soko, na costa sudoeste de Hong Kong.

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Fotos: divulgação Oceana

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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