Quarentena com as crianças: quando menos é mais

Não é fácil escrever o que quer que seja em um momento como este que estamos vivendo. Uma pandemia nunca vivida por aqueles que aqui leem este artigo, com consequências tão graves quanto complexas, como perda de vidas, de empregos e rendas, e que escancara o fato de vivermos numa sociedade de privilégios e desigualdades. Gostaria de fazer uma reflexão sobre uma pequena fração dessa situação, do ponto de vista do convívio mais intenso com nossas crianças, durante a quarentena.

No programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, do qual faço parte, sempre alertamos para a importância das experiências ao ar livre para o pleno desenvolvimento da infância. Em geral, essa recomendação, aparentemente simples e democrática, encontra um sem número de barreiras para ser posta em prática pelas famílias, entre elas a sensação de insegurança nos espaços públicos, o excesso de trabalho e atividades e a falta de tempo.

Eis que, agora, uma parte da população tem mais tempo para convivência, porque a maioria dos estados adotou o distanciamento social – isolamento ou quarentena – como medida para prevenção do alastramento do coronavírus e para evitar o saturamento do sistema público de saúde. 

Para algumas famílias, impõe-se o desafio da convivência intensa. Nunca foi tão importante olhar para as duas pontas de nossa sociedade: idosos e crianças. E este olhar suscita, pelo menos, duas perguntas: como proteger nossos idosos? O que fazer com nossas crianças? O momento é realmente desafiador.

Além de dar conta das tarefas da casa, do trabalho e daquelas que as escolas estão preparando para dar continuidade mínima às atividades- o que, aliás, é um esforço louvável -, o que mais podemos fazer por nossas crianças?

Independentemente do espaço que habitamos, considero relevantes alguns pontos para reflexão:

  • Propor menos, integrar mais: como assim? Dependendo das idades de suas crianças podemos incluí-las nas atividades da casa – mesmo que depois a gente tenha que (re)arrumar…. Varrer a casa, lavar a louça, arrumar a cama, guardar brinquedos são atividades que ensinam que somos parte de um todo. Que o bem estar da casa é responsabilidade de todos e que a percepção do coletivo é um dos aprendizados que a vida em família pode nos proporcionar dentro de nossas casas. 
  • Acreditar no brincar livre: o brincar é a linguagem genuína da criança. O que isso significa? Que mesmo que a gente não faça nada, a criança vai achar seu jeito de brincar. Este é o seu modo de se expressar no mundo. Mais ainda se houver uma boa dose de tédio. Não precisamos correr para preencher esse tempo ocioso das crianças. Os hiatos entre atividades são importantes para que elas escutem a si mesmas e desenvolvam atividades a partir desse motor humano chamado desejo. 
  • Oferecer materiais não estruturados: existe um grande número de brinquedos que já trazem a brincadeira como proposta dentro de si. Bonecas que abrem a boca, carrinhos que são ambulâncias e emitem sons, entre inúmeras possibilidades de brinquedos industrializados. Entretanto, esse tipo de brinquedo oferece praticamente apenas uma possibilidade de brincar (não fosse a transgressão que as crianças fazem deles).

    Se disponibilizarmos, às crianças, panelas que usamos pouco, bacias, pedaços de madeira, colheres de pau, tecidos, daremos a elas um mundo de possibilidades de invenção. As crianças gostam muito de reproduzir à sua maneira o que captam do ambiente em que vivem. Assim, brincar de casinha com suas bonecas, embalagens vazias, garrafas pet na cozinha de faz de conta, por exemplo, é conteúdo para uma infinidade de brincadeiras. Confie! 
  • Relaxar um pouco com a bagunça: talvez essa seja a parte mais difícil (pelo menos para mim) quando temos crianças pequenas. Eu sei, não é fácil, mas eu diria que temos que escolher nossas batalhas. Que tal arrumarmos tudo, todo mundo junto, no final do dia? Será que dá certo? Já estamos em um momento de alto nível de estresse e, se for possível tolerar um pouco mais de desordem, pode ser bom para todos. 
  • Conectar com a natureza: apesar de termos restrições para estar do lado de fora, podemos ver da janela que o tempo está mais firme com a chegada do outono, que a luz desce branda no final da tarde, que o céu da cidade está mais estrelado com a diminuição da poluição, que o vento está mais frio com a mudança de estação. Em que fase da lua estamos? Assim como os povos antigos, quantos ciclos de lua serão necessários para vencer essa situação? 
  • Ler para suas crianças: momentos de aconchego possíveis à noite, viajar em outras realidades, longe desta que estamos vivendo. Criar imagens mentais diferentes, poder conversar sobre o dia e os sentimentos. 

Os povos indígenas são mestres em nos mostrar como as sociedades podem integrar melhor as crianças em seu dia a dia. O historiador Philippe Airès traz, em sua clássica pesquisa sobre a História Social da Criança e da Família, o quanto o sentimento de infância é relativamente recente, e como as instituições especializadas no atendimento às crianças, como a escola, são invenções que surgiram após a mudança no sistema de trabalho pós-Revolução Industrial. Nós temos um registro ancestral de uma época em que não havia uma cisão tão radical entre os espaços e tempos de crianças e de adultos. 

Toda crise é também oportunidade. O momento que estamos vivendo é histórico e certamente lembraremos dele com dor, pelas inúmeras perdas, mas também podemos criar memórias afetivas em nossas crianças. Memórias de conexão e acolhimento, quando tudo que elas precisam ouvir é algo como: vai ficar tudo bem.

Foto: Paula Mendonça (arquivo pessoal)

Paula Mendonça

Mestre em educação pela Universidade de São Paulo, com pesquisa sobre infância indígena. Atuou cerca de 10 anos no Parque do Xingu por meio do Instituto Socioambiental. É co-diretora do curta metragem Waapa, realizado em parceria com o Projeto Território do Brincar. É assessora pedagógica do Programa Criança e Natureza do Alana. Mãe da Nina e Luana.

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