Quando o “eu” fala mais alto do que o “nós”

criança segurando balão com bandeira do Reino Unido

*Suzana Camargo, de Londres

Hoje quando acordei e fui olhar o site do The Guardian, levei um susto. Demorei um pouco a acreditar no que estava lendo. Foi um choque. Enquando eu dormia, foi divulgado o resultado do plebiscito sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (UE): 52% dos britânicos decidiram que não querem mais fazer parte do bloco europeu, composto atualmente por 28 países. Logo pela manhã, o primeiro-ministro David Cameron anunciou sua renúncia, já que ele era um dos principais defensores da permanência do Reino Unido no grupo, e com a derrota, perde totalmente sua força e representatividade política no Parlamento.

Cheguei na Inglaterra há pouco mais de quatro meses. Meu marido veio trabalhar aqui e ficaremos morando no país pelos próximos dois ou três anos. A decisão dos britânicos, tomada democraticamente nas urnas, não nos impacta. Mas certamente nos causa uma grande decepção.

Esta não é minha primeira experiência internacional. Já vivi antes nos Estados Unidos e na Suíça. Como estrangeira, na situação de imigrante temporária, sempre tive uma visão diferenciada da realidade local. E tem sido assim, desde que cheguei em fevereiro aqui. Assim como nos outros países em que morei, os imigrantes são parte vital da força de trabalho que faz funcionar a base da pirâmide social.

Na lavanderia, é um paquistanês que passa a roupa dos britânicos. No salão de beleza, as manicures são indianas, tailandesas e filipinas. Quem serve a pizza dos ingleses no restaurante é um garçom português. E quem faz a faxina da família britânica, que mora a uma quadra da minha casa, é uma brasileira.

Nas ruas de Londres, a diversidade cultural é gritante, por isso mesmo, a capital tornou-se um destino tão vibrante. O tipo físico não esconde a descendência: Índia, África, Afeganistão, Polônia, Turquia. Mas a maioria destas pessoas, principalmente os jovens, já são britânicos. A segunda geração de imigrantes, filhos de estrangeiros, já nasceu aqui. Muitos vieram parar no país como resultado do passado colonialista do império britânico. Conquistadores de terras em outros continentes, hoje ainda, os ingleses têm um dever com sua história e sobretudo, com os povos os quais decidiram impor sua língua e seus costumes.

O debate para a campanha Brexit, termo simplificado para Britain exit (saída do Reino Unido, em inglês) foi lamentável. Houve mentiras e acusações dos dois lados. Mas o pior de tudo foi o tom de xenofobia contra a imigração. “Queremos os empregos para os ingleses”, diziam os defensores da saída do Reino Unido da União Europeia. Mas será mesmo que os britânicos vão querer assumir os chamados “subempregos”?

Na semana passada, poucos dias antes da realização do plebiscito, a campanha pró e contra Brexit foi suspensa. O motivo? A parlamentar, Jo Cox, de 41 anos, foi assassinada por um extremista conservador. Ao disparar contra ela e depois a esfaquear, o homem gritou “Britain first!” (Reino Unido, primeiro!). Mãe de duas crianças, Jo defendia os imigrantes e refugiados e acreditava que o país deveria permanecer na UE.

No início desta semana foi celebrado o Dia Mundial do Refugiado. A Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) divulgou que, em 2015, 63,5 milhões de pessoas abandonaram familiares e amigos para fugir da guerra e perseguição, como mostramos aqui neste post no Conexão Planeta. E estes refugiados têm batido na porta da Europa à procura de uma nova casa. Alguns países, como a Alemanha e Suécia, abriram suas fronteiras, mas outros não. Mais da metade dos pedidos de asilo feitos ao governo britânico foi negada.

Ao deixar de fazer parte do Bloco Europeu, os britânicos levantam uma bandeira clara: somos melhores sozinhos do que juntos. Somos mais fortes sem vocês.

É uma pena. Numa época em que, mais do que nunca, a força da economia colaborativa é o caminho apontado para um futuro mais sustentável do planeta, algumas nações deixam de ter uma visão mais ampla e ficam cegas pelo separatismo. É um retrocesso. Como se tivéssemos voltando aos tempos da colonização. Você aí, eu aqui. Cada um olhando somente para o próprio umbigo.

Já se sabe que a saída britânica da Comunidade Europeia terá um impacto enorme sobre a economia, especialmente para empresas com escritórios no país, já que o Reino Unido precisará rever contratos e a maneira como faz negócios com outras nações. O Bloco Europeu pediu que os britânicos deixem o grupo o mais rápido possível.

Foram os jovens que votaram majoritariamente na permanência de seu país ao lado dos outros 27 membros da UE. Agora vão ter que conviver com a escolha dos mais velhos. Caminhar acompanhado é sempre mais fácil, mas os vencedores do plebicisto optaram pela trajetória mais difícil.

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Foto: Tomek Nacho/Creative Commons/Flickr

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

3 comentários em “Quando o “eu” fala mais alto do que o “nós”

  • 27 de junho de 2016 em 1:54 AM
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    O próprio homem une separa destrói , isso e muito triste.

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  • 27 de junho de 2016 em 1:57 AM
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    O próprio homem une separa e destrói, isso e muito triste

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