Projeto Tear: tecendo vidas

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Tear: artefato ou máquina destinada ao fabrico de tecidos, malhas, tapetes. O equipamento –  e a palavra – sempre foram meio mágicos pra mim. Quando pequena o processo de transformar lãs e linhas em cachecóis, colchas e panos me intrigava. Não entendia como aquilo era possível, parecia mesmo coisa de outro mundo.

Uma sensação parecida me tocou ao conhecer o trabalho do Projeto Tear. Antes de colocar os pés em seus ateliês/oficinas de criação e produção em Guarulhos, já era consumidora dos cadernos feitos por eles, obtidos em feiras ou por intermédio de amigos que trabalhavam já com economia solidária.

Em 2014, conheci o trabalho de perto, quando sugeri que o troféu da competição latino-americana da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental fosse confeccionado por empreendimentos de economia solidária a partir da reutilização de materiais. O Projeto Tear foi sugestão da Rede Design Possível, que criou o desenho do troféu, logo habilmente executado pelos integrantes da oficina de marcenaria.

Com o projeto em mãos, lá fui eu tatear, ver e perceber o trabalho deles. O Tear é um serviço público de saúde mental que atua na inclusão social pelo trabalho, cultura e convivência, integrando a Rede de Atenção Psicossocial de Guarulhos. Surgido em 2003 por meio de uma parceria entre a Prefeitura de Guarulhos, a Associação Cornélia Vileg e os Laboratórios Pfizer, hoje o Tear atende 140 pessoas em espaços de produção, geração de renda e convivência.

tear1O resultado das oficinas de trabalho artesanal de culinária, jardinagem, vitral, marcenaria, serigrafia, encadernação, papel, mosaico, tear e costura pode ser conferido em feiras, exposições, projetos de economia solidária e geração de renda e na própria sede do Tear, onde funciona uma loja que comercializa os produtos. Os recursos obtidos são revertidos às oficinas para sua sustentabilidade e também aos participantes em forma de bolsa-oficina.

São brinquedos educativos, jogos, kits para escritórios, móveis, artigos de decoração, bijuterias, papéis de fibras vegetais e sementes, painéis, vasos, bandejas, cachecóis, mantas, tapetes, bolsas, sacolas, cadernos, blocos de anotações, agendas, impressões serigráficas sobre vidro, papel, tecido, madeira, bolos, pães…a lista de itens produzidos é grande.

O Projeto Tear integra a Rede de Saúde Mental e Economia Solidária, sobre a qual já falei aqui no Conexão Planeta, assegurando o direito ao trabalho, nos moldes do cooperativismo e da autogestão em cada oficina. Além disso, oferece um espaço cultural multiforme aberto à população, com atividades culturais de curto prazo como cineclube, teatro do oprimido, contação de histórias, oficinas artesanais, leitura e escrita.

“Conseguimos afirmar o Tear em Guarulhos com status de inclusão social. Na saúde mental, fazemos a última parte da reabilitação, que é a parte da autonomia, do direito humano básico de estar na sociedade. E fazemos um trabalho educativo com a sociedade também quando comercializamos os produtos das oficinas, mostrando que nossos artesãos conseguem ter uma produção bastante rica e criativa para o mercado”, conta Denise Castanho Antunes, coordenadora de equipe do Projeto Tear há quatro anos. A gente leva esse olhar da inclusão para os produtos, não como uma forma de sofrência, mas mostrando que é possível produzir arte dessa maneira. Fazemos as pessoas perceberem o reaproveitamento de materiais, pensarem um pouco mais o consumo de forma justa e solidária. A forma como a gente produz leva a isso. A peça tem um fazer por trás, a reestruturação de vidas que estavam adormecidas ou bloqueadas pela doença”, avalia.

O maior desafio, como em boa parte dos empreendimentos de economia solidária, é a comercialização do trabalho de modo a promover um retorno significativo para que os artesãos possam ser autônomos com o que ganham. Por isso, o grupo está sempre pensando e testando novas estratégias e produtos. O Tear ainda não se formalizou como cooperativa, e segundo Denise ainda há um longo debate para definir os rumos dessa formalização.

O Projeto faz intercâmbio com empreendimentos em outras cidades, participa de bazares, feiras e outros eventos, buscando ampliar as possibilidades de circulação e venda dos produtos. Além disso, ajudou a articular o Fórum de Economia Solidária em Guarulhos e tem promovido esse debate.

“Temos feito essas provocações, incentivando que novos empreendimentos possam seguir esse caminho. Em outras cidades inclusive. Essa semana mesmo fomos dar uma oficina de encadernação para um empreendimento em São Carlos. O conhecimento que adquirimos nesses 13 anos vamos compartilhando, formando redes”, completa Denise.

Fotos: Divulgação

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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