PrograMaria: por um futuro mais feminino e sustentável na tecnologia

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Iniciativas para incrementar o aprendizado de tudo que se refere à tecnologia entre as mulheres e debater a desigualdade de gênero nesta área têm crescido consideravelmente. É só pesquisar um pouco para perceber que esse cenário vem se transformando de uns três anos para cá e acompanhando bem o novo movimento feminista. O que é muito auspicioso! Para cregistrar esse momento tão interessante, aqui no Conexão Planeta, resolvi contar a história do PrograMaria, criado por seis garotas paulistanas no ano passado, uma delas a Iana Chan, que – assim como Marina Maciel (uma de minhas sócias neste site) – me fez ver códigos com outros olhos (explico melhor no final deste post). Esta é uma história muito inspiradora está ajudando a transformar a realidade da mulher no segmento de tecnologia no Brasil. Na foto acima (reproduzida do gif animado feito para o lançamento), as meninas segundos antes de colocar seu site no ar, em 25/11/2015.

‘Coisa de meninas’

Quando a jornalista Iana Chan e a designer Luciana Fernandes criaram um “clubinho de programação” com outras quatro amigas (também designers), no início de 2015, queriam apenas trocar ideias e se aperfeiçoar em uma área ainda muito restrita aos homens: a de programação. Nem de longe imaginavam que estavam dando os primeiros passos para criar um projeto muito bacana – com nome idem – e que poderiam ajudar a transformar a visão sobre o papel da mulher na computação junto com outras garotas pelo país.

“Sempre gostei de tecnologia, mas eu e Luciana não conversávamos sobre isso sempre”, conta Iana (as duas trabalhavam juntas em um site de educação voltado para os pais). “Quando ela percebeu que o mercado exigia conhecimentos em programação, comecei a incentivá-la, mas Lu dizia que não tinha lógica”. Depois de muito papo e alguns aprendizados em conjunto, Iana sugeriu criarem um clube de programação para se apoiarem e chamaram amigas designers que já tinham se mostrado interessadas no tema: Caroline Magalhães, Patrícia Jenny, Luciana Heuko e Daiana Buffulin. Todas estudavam na FAU/USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo).

Claro que, rapidamente, com o conhecimento sobre técnicas e possibilidades da computação, vieram outros desejos como o de encontrar um projeto para aplicar os aprendizados do clube e vencer, de vez, qualquer medo ou dificuldade para atuar.

meme-programaria-800Era março de 2015 e reportagens sobre gênero pipocavam na imprensa por conta das celebrações do “mês da mulher”. Em meio a esse clima, Iana teve um insight: “Que tal criar um projeto para destacar a falta de representatividade feminina na área de tecnologia? Foi aí que as dificuldades ganharam ‘contexto’: não era uma situação pontual, mas que acontece com a maioria das mulheres!”, destacou. E, assim, surgiu o PrograMaria. A jornalista conta que já conhecia a iniciativa Girls Who Code e que, depois de formatada a ideia, fizeram contato com outros movimentos, inclusive brasileiros, “para aprender mais sobre o tema e identificar ações que poderiam, de fato, mudar a situação”.

Em seguida, veio a escolha do nome, que é genial! Depois de uma longa e exaustiva brainstorming, saíram da reunião sem nome. A caminho de casa, eis que vem uma boa idea à mente de Iana: “Gosto muito do nome ‘Comedoria’, dos restaurantes do SESC, e ao pensar em PrograMaria vi que fazia um bom trocadilho com o nome Maria, que é o mais popular do Brasil. Senti que era ele! Enviei por WhatsApp para as meninas e todas gostaram”. O site foi lançado em 26 de novembro.

Visão de futuro

Logo na home do site do PrograMaria dá pra ver o que estas seis meninas querem: inspirar, ampliar o espaço para o debate e compartilhar aprendizados e conhecimento. No início do trabalho, se dedicaram a ‘inspirar’ e ‘debater’. Para isso, foram atrás de informações, de números e da história das mulheres na computação para produzir conteúdo e iniciar sua divulgação.

É só pesquisar um pouco sobre o tema para perceber que, este movimento tão novo, não significa a introdução da mulher na área de tecnologia, mas seu retorno. Isso mesmo! Na história da Ciência da Computação, há mulheres pioneiras como Ada Lovelace (século XIX), Margareth Hamilton, Mary Kenneth Keller, Hedy Lamarr (mais conhecida como atriz), Grace Hooper e Olga Bayborodova (anos 80), que desbravaram essa área e fizeram conquistas incríveis. Mas o que aconteceu para que as mulheres perdessem o interesse por tecnologia?

Quem quiser se aprofundar sobre o assunto – inclusive sobre a violência moral e sexual contra as mulheres nessa área tão dominada pelos homens -, encontra vários artigos interessantes indicados no PrograMaria. Mas já posso contar um pouco aqui como vão os números. Hoje, de acordo com o último Censo de Educação Superior (2013), há apenas 15 mulheres matriculadas, entre 100, ou seja, elas representam 15%! Entre 2010 e 2011, eram 18% dos alunos nos cursos de computação, segundo o site Smithsonianmag. Mas, entre 1883 e 1984 – final do século XIX e começo do XX -, chegaram a 37%!

No início dos anos 80, esse número aumentou muito, assim como a adesão das mulheres aos cursos de Medicina, Direito e Física. Mas foi em 1984 que a participação feminina na computação despencou, coincidindo com o lançamento dos computadores pessoais. O fato é que, mesmo com o acesso fácil de todos aos PCs em casa, o apelo comercial voltou-se para o público masculino. Diziam que essas máquinas eram feitas para jogar videogame e que isso era ‘coisa de menino’. Instalou-se, assim, a narrativa que levaria as mulheres para longe da revolução computacional e da cultura tech. Mas, se depender do movimento mundial promovido em universidades e escolas, tanto por homens como por mulheres, além de projetos como o PrograMaria, tanto aqui como pelo mundo, esse cenário está com os dias contados!

Em um dos posts divulgados em sua página no Facebook, o PrograMaria contou que as buscas pelo termo girls who code (meninas que programam) cresceram mais de 45% em 2015. Isso é um sinal, não? Hoje, encontrei um post, também na mesma página, divulgado por uma de suas seguidoras/leitoras, que comentava que o Projeto Novos Talentos- SC Games que, em 2009, teve apenas uma menina entre os inscritos, em 2015 reuniu mais de 15 garotas acima de 10 anos. É, parece que Iana e suas amigas têm visão de futuro.

Reconhecimento, novas campanhas e Campus Party

programaria-edital-vai-tech-okAntes de o site ser lançado, as meninas inscreveram o projeto no edital do Programa VaiTec, da Ade Sampa, agência criada pela Prefeitura de São Paulo. Esse programa apoia financeiramente projetos de tecnologias inovadoras, abertas e colaborativas, relevantes para as políticas públicas municipais. E foram selecionadas!

Pouco tempo depois de lançado, o PrograMaria reuniu algumas garotas – a maioria amigas e amigas de amigas – para a primeira oficina de programação em São Paulo, no bairro de Pinheiros (foto no final deste post). A experiência foi tão boa que deixou as meninas empolgadas para realizar a próxima. Mas, antes de pensar nisso, acreditavam que seria importante estruturar melhorar suas ações e incrementar sua comunicação, que é feita pelo site e muito pela sua página no Facebook.

programaria-premio-mulheres-tech-sampaDecisão acertadíssima já que, com menos de um mês – em 11 de dezembro -, o PrograMaria recebeu o Prêmio Mulheres Tech em Sampa, promovido em parceria pela Rede Mulher Empreendedora, Google For Entrepreneurs e Tech Sampa (na foto abaixo, as amigas Iana e Luciana, que deram início ao clubinho).

“O prêmio foi muito importante para nós, e não foi só pelo dinheiro!”, explica a CEO da iniciativa. “Vai nos ajudar a acelerar a realização de ações que queríamos muito implementar este ano, claro! Mas indicam também que que estamos no caminho certo. Que trabalhar pela inclusão de mais mulheres na área de tecnologia não é apenas necessário, mas fundamental!”.

Nem bem começou o ano e as meninas do PrograMaria estão cheias de planos… e ações. Querem dar andamento ao projeto-piloto do curso #EuProgrAmo, de introdução à programação e desenvolvimento web neste primeiro semestre e fortalecer a comunidade de mulheres de tecnologia – há diversos projetos como Minas Programam, Maria Lab Hackerspace, Lady Talks entre outros… – para que se apoiem. Mas já estão a todo vapor para lançar a campanha #SerMulherEmTech e “dar visibilidade às dificuldades (e delícias) de ser uma mulher que trabalha com tecnologia”, revelou Iana, que acrescentou: “Recebemos muitos depoimentos de mulheres em agradecimento por colocarmos a questão em debate e por oferecermos apoio. Então, nada mais justo do que dar visibilidade a suas histórias, tanto para chamar a atenção para as situações absurdas que essas mulheres vivem todos os dias, como para mostrar que trabalhar com tecnologia é recompensador”.

A campanha está quase pronta e quem quiser participar, enviando depoimentos, pode fazê-lo pelo e-mail helloworld@programaria.org .

E olha só que bacana! O PrograMaria já é tão reconhecido que participa da Campus Party Brasilmaior evento de tecnologia do país –, que começou hoje (26/1) no Parque Anhembi, em São Paulo. A iniciativa foi convidada como comunidade parceira, por isso, as meninas vão trocar experiências com os campuseiros – que ficarão acampados no pavilhão todos os dias. Além disso, também contarão para o público do evento sobre sua participação no Programa VaiTec.

Programar é poder

Agora, volto ao que comentei no início deste post sobre minha experiência com programação e a influência de Iana e Marina na minha percepção dessa atividade.

Nunca tive muita paciência para lidar com códigos e escolhi aprender o mínimo necessário quando comecei a trabalhar com internet, em 2000. Não pensava que era ‘coisa de menino’, mas, apesar de adorar números (matemática era minha paixão no colégio), achava que seria melhor ter à mão profissionais que entendessem do assunto para que eu pudesse me dedicar aos textos, à edição e à criação de projetos editoriais. Me enganei.

Iana e Marina – cada uma a seu tempo e de forma diferenciada – me mostraram que é possível lidar muito bem com palavras (as duas são jornalistas) e códigos, e que esse casamento pode ser perfeito. Entendi com elas e com artigos que tenho lido a respeito – como este da jornalista Lígia Aguilhar do Estadão Online – que programar é poder. É ter poder e mais consciência. Porque, além de aumentarmos nossa capacidade criativa, nos tornamos mais capazes de empreender. Sem falar que, ao compreender o que está por trás dos códigos, nos sentimos mais seguros porque identificamos problemas, ataques e soluções com rapidez e propriedade.

É por isso que desejo que, neste ano, e nos próximos, mais e mais pessoas – jovens, adultos e crianças- aprendam a programar e a desvendar códigos e espalhem essa ideia. Precisamos de mais mulheres nesse mundo tecnológico, sim!! Já há algumas fazendo a diferença com seus pequenos projetos e outras em cargos importantes como a CEO da Xerox, Ursula Burns – que, além de mulher é negra! Mas precisamos que este conhecimento seja acessível a todos, de todas as classes sociais.

A foto abaixo é da primeira oficina realizada pelas garotas do PrograMaria. A turma que participou do curso não devia ter 20 meninas. Mas imagine se cada uma delas passar seu conhecimento adiante ou utilizar o aprendizado em programação para fazer transformações importantes em suas vidas e na de suas comunidades, na sua escola, na criação de outros projetos e no próprio mundo virtual… Esse pode ser o caminho para a internet que desejamos/precisamos ter: a internet que pode ajudar a humanidade a ser mais colaborativa e mais altruísta. Portanto, mais feliz.

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Fotos: Reprodução/Divulgação/Alile Dara

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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