Programa Mundial de Alimentos da ONU recebe o ‘Nobel da Paz’: pandemia foi decisiva na escolha

Nem cacique Raoni, nem Greta Thunberg, nem Plataforma Intergovernamental da Biodiversidade. O comitê sueco concedeu o Nobel da Paz ao Programa Mundial de Alimentos da ONU (World Food Programme – WFP), organização que atua no combate a fome no mundo, em países afetados por conflitos, onde há grande risco de desnutrição.

O programa foi uma das 107 organizações inscritas e irá receber US$ 1 milhão.

“A comida é a melhor vacina contra o caos”

Para o comitê, o programa foi escolhido devido a “seus esforços para combater a fome, por sua contribuição para melhorar as condições para a paz em áreas afetadas por conflitos e por atuar como força motriz nos esforços para prevenir o uso da fome como arma de guerra e conflito“.

Mais: em nota, o conselho declarou que, sem a pandemia, o programa já seria merecedor do prêmio, mas, com a propagação da Covid-19 pelo mundo – que afetou de maneira voraz os mais pobres -, os motivos para ser o escolhido se tornaram ainda mais evidentes já que a comida está menos acessível.

“A pandemia de coronavírus contribuiu para um forte aumento do número de vítimas da fome no mundo. Diante da pandemia, o Programa Mundial de Alimentos demonstrou uma capacidade impressionante de intensificar seus esforços”, declarou o conselho em tweet ilustrado com a imagem abaixo.

Em tradução livre, a mensagem diz: “Até o dia em que tivermos uma vacina médica, a comida é a melhor vacina contra o caos“.

Quer mais um motivo para a escolha do WFP? O Programa da ONU é a maior entidade de combate a fome do mundo e ainda promove segurança alimentar.

Cooperação multilateral

Após o anúncio (abaixo), divulgado pelo site, a presidente do conselho do Nobel, Berit Reiss-Andersen falou à imprensa.

“A necessidade de solidariedade internacional e cooperação multilateral é mais evidente do que nunca”. Ela destacou, ainda que, em sua decisão, a organização também considerou a “cooperação multilateral”, imprescindível para combater a fome. E acrescentou: “Aparentemente, há uma falta de respeito ao multilateralismo no passado recente”.

Reiss-Andersen também destacou que a premiação representa um apelo à comunidade internacional para que o Programa Mundial de Alimentos continue recebendo contribuições e não fique sem fundos

Tal ideia foi reforçada por Daniel Balaban, diretor do escritório do Programa no Brasil. Para ele, o anúncio foi “uma surpresa completa” e é importantíssimo para chamar a atenção do mundo pois o combate à fome é fundamental para a redução dos conflitos.

E acrescentou: “A desigualdade leva à desesperança, por isso, o WFP é fundamental. Se ele parasse agora, muito gente morreria de fome”.

Assista ao pronunciamento completo de Berit Reiss-Andersen, em vídeo no final deste post.

“Momento de orgulho”

Reprodução vídeo

O porta-voz do WFP, Tomson Phiri, estava em um encontro semanal na sede da ONU, em Genebra, quando recebeu a notícia e informou os presentes.

“Acabei de descobrir que o Prêmio Nobel da Paz foi concedido ao Programa Mundial de Alimentos“. Visivelmente surpreso e emocionado, sorriu e foi aplaudido. (assista ao vídeo desse momento).

Referindo-se ao atendimento às vítimas da fome durante a pandemia, Phiri disse: “Este ano nós tivemos que atender a uma convocação para agir”.

Em conversa por telefone com representante do Prêmio Nobel da Paz, David Beasley, diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos, declarou que “Não podemos esquecer o nosso vizinho” e que a responsabilidade pela erradicação da fome é de “todos os líderes do planeta”.

Ele acabara de ser informado da premiação, durante reunião no Niger, e ainda comentou que, em nível pessoal, “as pessoas ficariam chocadas com a diferença que apenas se importar pode fazer”. E finalizou: “Ninguém no mundo deveria ir para a cama com fome. Ninguém“.

Programa atende 97 milhões de pessoas por ano, em 88 países

Foto: Falume Bachir/WFP

Com sede em Roma, o órgão premiado anuncia, em seu site, que, por ano, auxilia cerca de 97 milhões de pessoas, em 88 países, mas esse número é pouco em relação à quantidade de pessoas ameaçadas pela falta de comida.

Hoje, em seu Twitter, declarou: “Cada uma das 690 milhões de pessoas que passam fome no mundo tem o direito de viver em paz e sem fome. Hoje, o Comitê do Nobel da Noruega voltou os holofotes globais para eles e para as consequências devastadoras dos conflitos”. E mais:

“Agradecemos ao comitê do prêmio por honrar o Programa Mundial de Alimentos com o Nobel da Paz 2020. Esse é um lembrete poderoso para o mundo de que a paz e o combate à fome caminham lado a lado“.

Agora, assista à declaração da presidente do conselho do Nobel, Berit Reiss-Andersen, à imprensa:

Foto (destaque): Agron Dragaj para WFP / Flickr UNPhotos

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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