‘Hortas Cariocas’ doa toneladas de alimentos para famílias de baixa renda em dificuldades devido à crise do coronavírus

Hortas Cariocas doa toneladas de alimentos para famílias de baixa renda em dificuldades devido à crise do coronavírus

O Rio de Janeiro é um dos estados mais afetados pela pandemia do novo coronavírus no Brasil. Segundo os dados do Ministério da Saúde, já são mais de 13 mil casos confirmados e o número de mortes passa de 1 mil.

Além de todo sofrimento causado pela doença, o impacto social da COVID-19 é imenso. Sem poder trabalhar, milhares de pessoas lutam para poder sobreviver com o pouco dinheiro que lhes resta e garantir comida na mesa de casa.

Para assegurar que famílias de baixa renda tenham o que comer durante esse período de isolamento, o Programa Hortas Cariocas, no Rio, está fazendo doação de legumes, verduras e frutas.

Só na semana passada, foram distribuídos 300 quilos de alimentos para a comunidade da Palmeirinha, localizada entre os bairros de Honório Gurgel, Marechal Hermes e Guadalupe, na zona norte do Rio. Mais de 100 famílias foram beneficiadas com as cestas.

Programa Hortas Cariocas doa toneladas de alimentos para famílias de baixa renda em dificuldades devido à crise do coronavírus

“Tentamos respeitar o gosto de cada comunidade. Percebemos, por exemplo, que o pessoal de Santa Cruz não gosta muito de alface roxa e que no Leblon a preferência é pela alface americana”, conta o agrônomo Júlio Cesar Barros, idealizador e gerente do Hortas Cariocas, programa da Secretaria Municipal do Meio Ambiente. “Planejamos um plantel de produtos que não estimule o desperdício, sempre buscando o gosto da tradição local”.

No final dessa semana acontecerá ainda a distribuição de 3 mil tilápias para 200 famílias de Uracânia, em Santa Cruz, uma região com IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) baixíssimo. Eles foram produzidos pela tecnologia de aquaponia, cultivo de legumes e verduras associado à criação de peixes, uma novidade dentro do programa.

Até o final de abril, o Hortas Cariocas já tinha doado quase 6 toneladas de frutas, legumes e verduras.

Um programa pra lá de bem-sucedido

Criado em 2006, o Hortas Cariocas foi idealizado para ocupar áreas ociosas em comunidades carentes e próximo a escolas da rede municipal do Rio de Janeiro. O projeto tinha como meta também popularizar o consumo de produtos agroecológicos, provenientes do cultivo orgânico, sem nenhum uso de agrotóxicos, herbicidas ou pesticidas.

A prefeitura entra com insumos como ferramentas, uniformes, sementes e mudas. E os hortelãos participam do programa como ‘mutirantes’, recebendo uma ajuda de custo para tocar o projeto.

Nesses quatorze anos, são 42 hortas espalhadas pela cidade (18 em escolas e 24 em comunidades), mantidas por 180 hortelãos. Em 2019, foram produzidas 77 toneladas de alimentos.

Programa Hortas Cariocas doa toneladas de alimentos para famílias de baixa renda em dificuldades devido à crise do coronavírus

As hortas dentro das escolas e creches municipais têm toda sua produção revertida gratuitamente para a própria comunidade: professores, alunos, famílias. Muito do que é cultivado ali é utilizado no preparo das merendas, como agrião, acelga, alho, coentro, salsa, rúcula, chuchu, cenoura, beterraba e batata.

Para o idealizador do programa, o benefício para as escolas não é só complementar sua cozinha com a colheita, mas fazer com que as crianças criem um vínculo com a terra, com aquilo que ajudaram a plantar e acompanharam o desenvolvimento e com isso, passem a querer provar novos alimentos.

Programa Hortas Cariocas doa toneladas de alimentos para famílias de baixa renda em dificuldades devido à crise do coronavírus

Já no caso das hortas situadas em outros locais, 50% da colheita deve ser doada para abrigos, asilos e escolas e o restante é vendido para poder subsidiar o programa e servir como geração de renda para os envolvidos. “A ideia é propiciar a emancipação financeira dos participantes”, destaca o gerente do Hortas Cariocas.

“Nossa maior vitória se dá quando vemos uma horta se auto-sustentar. Continuamos orientando e ajudando em tudo que precisarem, são nossos filhos, porém, se emancipam, e deixam de receber a ajuda de custo para caminharem sozinhos. Assim, podemos abrir outras hortas em outros lugares”, comemora Júlio.

Mas não é só.

“Inicialmente pensávamos apenas em geração de renda e trabalho sustentável. Porém fomos aprendendo e nos adaptando às situações e demandas. Atualmente temos demanda também de escolas públicas que solicitam a implantação da horta para a complementação da sua atividade pedagógica”, revela Júlio.

Prêmio internacional

No ano passado, concorrendo com outros 104 projetos internacionais, o Hortas Cariocas ganhou em Montpellier, na França, um grande reconhecimento. Recebeu menção honrosa, na categoria Food Production (Sistemas Alimentares Urbanos), do prêmio de bons exemplos de sustentabilidade do Pacto de Milão.

O projeto carioca realmente merece aplausos e deveria se tornar modelo para as demais cidades brasileiras.

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Fotos: Marco Antônio Rezende/ Prefeitura do Rio

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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