Machismo e violência na TV ao vivo: telespectadores aceitam, polícia investiga e direção do programa expulsa o agressor


Publicado às 11h com o título “Programa de TV dissemina machismo e violência com apoio dos telespectadores”. Atualizado às 23h.

A justiça tardou, mas não falhou e trouxe uma boa notícia antes que o dia acabe!

A direção do programa Big Brother Brasil expulsou Marcos, o médico que agrediu a estudante Emily por três vezes, pelo menos, e também assediou moralmente outros participantes. Ele foi comunicado no espaço que eles chamam de confessionário, na casa. E, finalmente, a emissora se pronunciou sobre o caso, repudiando, em nota, qualquer forma de violência. 

Emily foi submetida a exame clínico por um médico da emissora para que fosse avaliada a lesão corporal sofrida por ela diante das câmeras. No início da noite, a estudante foi informada sobre seus direitos, garantidos pela Lei Maria da Penha. Entre eles, o de ficar distante de Marcos.

Não foi o que ela fez ontem. Depois de todas as agressões que sofreu: após a saída de uma das participantes do BBB, por voto popular, ela se mostrou feliz e ainda propôs ao médico que dormissem juntinhos. E mais: quando soube da decisão do programa de expulsar Marcos, chorou. Ou seja, ela é conivente com seu agressor. Isso é muito comum em relações abusivas, mas essa é uma outra história…

Não se sabe se a decisão da Globo teve ligação com a visita de Viviane da Costa, delegada titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM) de Jacarepaguá, que esteve nos estúdios da Globo para pedir imagens das discussões entre o casal para instaurar inquérito.

Mas o fato é que Marcos finalmente foi punido por seu comportamento agressivo e desrespeitoso, diante das câmeras e de todas as milhares de pessoas que assistem a esse programa. Muitas certamente tomaram conhecimento da existência e da força da Lei Maria da Penha hoje. E talvez só tenham se dado conta da gravidade dos fatos ao saber do desfecho. Antes tarde do que mais tarde! Aos poucos, a sociedade compreenderá o que significam abuso e cultura do estupro.

E, sim, existe gente que apoia homens do tipo de Marcos, infelizmente. Assim que foi expulso da casa, ele recebeu apoio pelas redes sociais. A hashtag #ForçaMarcos rapidamente viralizou e tornou-se TrendTopic.

Mas machistas não passarão! Mexeu com uma, mexeu com todas!

Abaixo, o texto que escrevi hoje, pela manhã, para registrar minha revolta a respeito da violência escancarada no BBB.

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Não assisto TV e, hoje, só dediquei tempo a pesquisar sobre o Big Brother Brasil (#BBB17), da TV Globo, e o episódio de intimidação que envolve dois participantes – o médico agressor Marcos e a mocinha agredida Emily (foto) – porque acho importante manter o debate contra o machismo e a violência contra a mulher. Ainda mais propagado por uma emissora que atinge tanta gente.

Os dois participantes têm protagonizado cenas de agressão e submissão que só podem indignar quem assiste (juro que acreditei nisso). Não só pelo machismo praticado diariamente pelo referido “personagem”, mas porque ele também comete assédio moral com outros moradores da casa. Em alguns momentos, humilhou um rapaz que é advogado, expondo sua vida pessoal e seu filho (não assisti a esses episódios, mas escrevo com base no depoimento de algumas pessoas que acompanham a saga televisiva, indignadas).

Me parece non sense que a emissora mantenha esse homem no programa depois de toda polêmica e manifestações com a denúncia de assédio sexual feita pela figurinista Su Tonani contra o ator José Mayer, ocorrido dentro da Globo. Mas, não! Tanto a emissora como quem curte esse programa desprezível e dedica seu tempo a participar dele toda semana mostraram, mais uma vez, que estão doentes.

Ontem, Thiago Leifert (o apresentador simpático do Big Brother Brazil) se pronunciou como porta voz da Globo dizendo que, se a agredida se sentir incomodada com as investidas do médico, é só reclamar. Ou seja, a emissora não vai tirar o moço do ar, a menos que ela peça. Sua posição é passiva. O que vale é o show!

Acreditei que os telespectadores iam fazer justiça, então. Me enganei. Eliminaram outra participante (deficiente física, mais frágil e boazinha, disseram alguns amigos meus) e mantiveram o agressor. Talvez pelo mesmo motivo que levou a Globo a se abster. E pior: a moça agredida, pelo visto, gostou do resultado e até quis dormir agarradinha com ele.

O abuso é fato, o jogo entre os dois é fato e a conivência do público também. E, no meio disso tudo, os patrocinadores – Vivo, Magazine Luiza, Guaraná Antarctica, Usaflex e Maxton -, sem nenhum pudor, se aproveitam para lucrar. Que vergonha!

O BBB é um lixo! Deseduca, perpetua e propaga valores distorcidos, mantendo firme a imagem de que violência pode ser prova de ‘bem querer’. Na minha opinião, já devia ter saído do ar, há muito tempo, porque é uma seleção micro de parte da escória da sociedade atual. Aliás, escolha muito bem feita pela produção/direção para manter o nível baixo e lucrativo. Porque é isso que as pessoas querem, afinal, não?

O programa é reflexo do que estamos vivendo, todos os dias, em qualquer cenário. É pra se indignar, todos os dias. Falar, esbravejar, gritar, retrucar e manter o debate a cada episódio deplorável de machismo e violência que vier á tona. Seja na TV, na rua, em casa, na escola, no trabalho…

A hashtag #MexeuComUmaMexeuComTodas – mesmo que a protagonista das cenas do BBB não se importe com os abusos -, vale aqui também. E #MachistasNãoPassarão!

Foto: Reprodução de vídeo da emissora

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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