Profissionais de saúde, pesquisadores e sociedade civil repudiam Nota Técnica do governo que fala em “ineficiência e insegurança das vacinas”

Profissionais de saúde, pesquisadores e sociedade civil repudiam Nota Técnica do governo que fala em "ineficiência e insegurança das vacinas"

Na última sexta-feira (21/01), a Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde do Ministério da Saúde publicou uma Nota Técnica (Nº 2/2022-SCTIE/MS) que tem como objetivo estabelecer as diretrizes terapêuticas para os tratamentos farmacológicos dos pacientes com a covid-19, ou seja, fazer recomendações para médicos e profissionais de saúde do Brasil inteiro sobre como lidar e que medicamentos oferecer àquelas pessoas contaminadas com o novo coronavírus que busquem ajuda em postos de saúde, clínicas ou hospitais.

Mas apesar do que preconiza a Organização Mundial da Saúde (OMS), a comunidade científica internacional e brasileira, esta última que inclusive foi consultada para a elaboração da referida Nota Técnica, o documento afirma, numa tabela da página 24, que as vacinas contra a covid NÃO teriam “efetividade em estudos controlados e randomizados” e NÃO possuem “demonstração de segurança em estudos experimentais e observacionais adequados para tal propósito”.

Ou seja, uma inverdade. Todas as vacinas utilizadas no mundo atualmente passaram por testes em laboratórios para comprovar sua eficácia e segurança e também, foram aplicadas em milhares de voluntários antes do início da imunização global em massa, que começou assim que houve aprovação para tal por órgãos reguladores locais de saúde, incluindo aí, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, no Brasil. Desde então, quase 10 bilhões de pessoas receberam as vacinas, o que garantiu a queda de hospitalizações e doenças graves.

Além disso, a nota da secretaria do Ministério da Saúde declara ainda que a hidroxicloroquina TEM eficácia e segurança comprovadas. Outra mentira, pois já foi constatado que o referido medicamento não tem efetividade no tratamento da covid por vários estudos em outros países e no Brasil.

Horas depois do conteúdo da nota vir a público e provocar estarrecimento e repúdio por partes de entidades médicas, profissionais da área e membros da sociedade civil, o Ministério da Saúde esclareceu em comunicado que “em nenhum momento afirmou que o referido fármaco é seguro para tratamento da Covid-19, nem questionou a segurança das vacinas, que é atestada pela agência reguladora”.

“A interpretação foi retirada erroneamente de uma manifestação de nota técnica da Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos (SCTIE). A secretaria informou que observada isoladamente não traduz o real contexto, explicitado no próprio texto. A interpretação de que ela afirma existência de evidências para o medicamento cloroquina e não existência de evidências para vacinas é errada e descontextualizada”, disse ainda o ministério.

Todavia, a comunidade médica não aceitou a explicação. E decidiu se manifestar contra mais um descaso e desrespeito tanto com os profissionais da área de saúde, como para com a população brasileira.

Várias entidades publicaram notas de repúdio e também foi criada uma petição online, que já conta com quase 60 mil assinaturas. Nela, docentes, profissionais de saúde e pesquisadores brasileiros ressaltam que ao longo dos últimos dois anos trabalharam arduamente e incansavelmente para salvar a vida de milhares de pessoas que contraíram a doença.

“Contribuímos significativamente para elaborar medidas voltadas ao manejo das pessoas adoecidas, para o desenvolvimento de protocolos eficazes de tratamento, para o desenvolvimento e teste de vacinas e para o entendimento dos efeitos da covid-19 em diferentes órgãos e sistemas”, diz o texto da petição. ”Os esforços de nossos profissionais da linha de frente e de nossos pesquisadores tornaram possível o tratamento de milhares de pessoas afetadas, bem como auxiliaram a colocar nosso Ppaís entre os centros de pesquisa do mundo que mais contribuíram para o entendimento da covid-19 (7287 publicações indexadas na plataforma Web of Science até 22/01/2022)”.

Os profissionais destacam então que se sentem perplexos com a “vasta lista de estultices apresentada pela nota técnica… Resumidamente, ela rejeita as normas de tratamento recomendadas por pesquisadores e médicos com experiência no tema, em favor de tratamentos não validados”.

Ao fim da petição, eles pedem que as normas de tratamento hospitalar e ambulatorial da covid-19 sejam aquelas elaboradas pelo grupo representativo de especialistas convocados pelo Ministério da Saúde e aprovadas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ao Sistema Único de Saúde (Conitec).

Testemunho da revolta de um médico brasileiro

O professor da Faculdade de Medicina da USP, o patologista Paulo Hilario Nascimento Saldiva, é um dos maiores especialistas do mundo em poluição e em seus efeitos para a saúde. Mas durante a pandemia, atuou intensamente também no entendimento do SARS-CoV-2. Desde 2020, fez centenas de autópsias em pessoas que morreram devido a complicações causadas pela doença – o profissional foi pioneiro na chamada “Autópsia Minimamente Invasiva“.

Na última sexta-feira, após a publicação da Nota Técnica do Ministério da Saúde, Saldiva usou sua página no Facebook para dar um depoimento muito contundente. Com sua autorização, o reproduzimos abaixo. Nele, toda sua revolta frente à ignorância e à falta de comprometimento com a ciência do atual governo:

“Há tempos eu prometi não escrever sobre temas políticos. Peço perdão por fazê-lo. A todas e todos que se sentirem incomodados me desculpo e peço que abandonem este espaço. Não quero causar a ninguém qualquer embaraço. Há tempos em que não se pode esconder na poesia, nem buscar consolo na memória do menino que um dia fui e que deixei perdido numa distante esquina do tempo.

Escrevo por compulsão, quase um lamento por saber que hoje o Ministério da Saúde do Brasil não aprovou os protocolos de tratamento clínico da COVID-19. Sinto que devo uma satisfação às pessoas que ofereceram seus corpos para que eu estudasse a doença. Devo estar também ao lado das famílias com quem compartilhei a dor de perderem um ente amado.

Falo particularmente em nome das crianças, cuja morte me fez recobrar, numa noite fria, a esperança de um encontro com Deus. Permitam-me falar também em meu nome, hoje como paciente e infectado. O dia de hoje é para esquecê-lo, de apagar da mente o pesadelo destes tempos impregnados pela ignorância profunda, oriunda de gentes que pouco sabem, que não se compadecem dos aflitos, que desconhecem o amor, que se apegam a mitos. É uma ignorância convicta, presunçosa, pastosa e nefasta.

Frente a este cenário, o silêncio dos órgãos de regulação médicos é ensurdecedor. Desde a minha janela, o dia hoje foi quente e ensolarado. No interior da minha alma foi noite escura. Que vergonha senti hoje por ser médico. O esboço abaixo é de um pulmão de um ser humano invisível, um dos tantos que morreram por COVID-19 em nosso País”.

Leia também:
A pandemia dos não-vacinados: OMS alerta que 90% dos doentes com casos graves de covid não tomaram a vacina

Brasileiro que detectou a ômicron na África do Sul está na lista da Nature daqueles que fizeram a diferença na ciência em 2021
Cientistas envolvidos no desenvolvimento das vacinas contra a covid são escolhidos “Heróis do Ano” pela revista Time

Verdades e mitos sobre as vacinas contra a COVID-19

Imagem: reprodução da Nota Técnica

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Deixe uma resposta