Professora indígena mapuche é eleita presidente da Assembleia Constituinte do Chile

Professora indígena mapuche é eleita presidente da Assembleia Constituinte do Chile

“Este sonho é um sonho de nossos antepassados! Este sonho se torna realidade! É possível refundar este Chile, estabelecer uma nova relação com o povo Mapuche, com as nações originárias e todas as nações que conformam este país”, declarou a professora e linguista indígena Elisa Loncón Antileo, ontem, 4/7, ao ser eleita presidente da Assembleia Constituinte do Chile.

Na primeira tentativa para eleger quem presidiria a Convenção Constitucional, Loncón recebeu 58 votos; Harry Jürgensen, representante governista, 36 votos; e Alicia Godoy, do povo originário Colla, 35 votos.

Num segundo momento, ela conquistou os votos de Alicia e totalizou 96 votos contra os mesmos 36 de Harry. Foi assim – contando ainda com o apoio de outros aliados – que ela venceu a disputa.

O congressista Jaime Bassa, da Frente Ampla (de esquerda), foi eleito vice-presidente da Convenção.

Professora indígena mapuche é eleita presidente da Assembleia Constituinte do Chile
Elisa Loncón é aplaudida de pé após a vitória na Convenção Constitucional e desfila com bandeira Mapuche
Foto: Reprodução de vídeo

Eleita em maio para ocupar uma das 17 cadeiras da Assembleia, reservadas aos povos indígenas (sendo 7 apenas para os Mapuche, a maior etnia do país), Loncón vai comandar 154 congressistas e reescrever as leis, eliminando para sempre a constituição que pautou a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990).

77 mulheres e 78 homens – incluindo Loncón – terão um ano, no máximo, para redigir o texto que poderá ajudar o país a superar a crise política pela qual passa.

Trata-se de um momento histórico e inédito na história do Chile e também para a história da América Latina que, em dezembro de 2018, viu um lampejo de justiça e de reconhecimento dos povos originários se manifestar. Enquanto o Brasil elegia um genocida para presidente, povos indígenas e africanos participavam da posse do então novo presidente do México, oferecendo-lhe um ritual sagrado.

Plurinacional e intercultural

Loncón é professora muito respeitada na academia e militante do povo Mapuche. Participou ativamente das intensas manifestações sociais de 2019 (muitas vezes, com violenta repressão policial), que levaram o governo do conservador Sebastián Piñera a defender uma nova Constituição. O apoio da esquerda e de congressistas independentes foi crucial.

Em seu discurso na Assembleia – que proferiu em espanhol e mapudungun, idioma Mapuche – ela fez “uma grande saudação ao povo chileno do norte à Patagônia, do mar às montanhas, às ilhas, a todos os chilenos que nos ouvem” e ainda declarou:

“Quero agradecer que estamos instalando, aqui, uma maneira de ser plural, democrática e participativa. Por isso, esta Convenção vai transformar o Chile num Chile plurinacional, em um Chile multicultural, em um Chile que não atente contra os direitos das mulheres, em um Chile daquelas que cuidam da mãe terra, que também limpam as águas, contra toda dominação!”.

Vestida com traje típico e empunhando uma bandeira mapuche, a congressista ainda agradeceu o apoio de diferentes coalizões que tornaram possível eleger uma indígena mapuche, uma mulher, “para mudar a história deste país”.

Para falar de sua solidariedade com outros povos que têm sofrido perseguições ao longo da história, ela citou, emocionada, o caso dos corpos de 215 crianças indigenas encontrados nas terras de um internato no Canadá:

“Pelos direitos das regiões, pelos direitos da Mãe Terra, pelos direitos à água, pelos direitos das mulheres, pelos direitos das crianças, quero prestar solidariedade a outros povos que sofrem. Soubemos do que aconteceu com as crianças indígenas do Canadá. É vergonhoso como o colonialismo atacou os povos originários”.

Devolução de terras, uma grande causa

Elisa Loncón nasceu na comunidade Mapuche Lefwelan, na província de Malleco, numa região conhecida como Araucanía, onde comunidades Mapuche exercem importante força social. Na segunda metade do século XIX, o Estado tirou as terras dessa etnia, o que até hoje resulta em tensões e confrontos violentos.

Não é à toa, portanto, que uma de suas principais causas é a devolução dessas terras. E que, nas últimas décadas, os simpatizantes da direita tenham se imposto em boa parte das eleições: tanto presidenciais, como municipais.

Loncón acusa o Estado chileno de aplicar “uma política genocida contra as comunidades Mapuche” e, por isso, defende “algum tipo de reparação, como o fizeram no Canadá, Austrália e Nova Zelândia”.

De família humilde, a indígena se formou professora com muito esforço. Seu desejo de avançar nos estudos foi tanto que cursou pós-graduação (mestrado e doutorado) na Holanda, no Canadá e no México.

Hoje, além de professora de Letras na Universidade de Santiago, coordena a Rede pelos Direitos Educacionais e Linguísticos dos Povos Originários do Chile.

Reconhecimento dos indígenas brasileiros

Em suas redes sociais, a Apib – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil divulgou a vitória de Elisa Loncó n como um “momento histórico para os povos indígenas da América Latina e do mundo”, com a crença de que ela “refundará a política do Chile com a construção de uma nova constituição para o país. Fuerza hermana!”.

Reproduzo, abaixo, o post da Apib no Instagram, no qual você pode ouvir um dos momentos mais emocionantes do discurso de posse de Lóncon:

Fontes: redes sociais de Elisa Loncón, El País, G1

Foto: Reprodução do Instagram

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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