Procuradores do Mato Grosso gravam apelo para que indígenas ‘fiquem em casa’ durante a pandemia, na língua de suas etnias

Apesar de ter gente que diz que isso é bobagem, “ficar em casa”, é o principal recurso para reduzir a transmissão do coronavírus e evitar que o sistema de saúde entre em colapso e mais mortes ocorram. Os outros recursos são lavar as mãos, sempre. E usar máscaras, caso você esteja doente, cuide de alguém doente ou precise sair à rua.

E isso, claro, vale também para os povos indígenas, que são ainda mais vulneráveis a qualquer doença. Por isso, quem vive nas aldeias, deve ficar nelas durante a pandemia da COVID-19 (doença transmitida pelo coronavírus). E, quem vive nas cidades, não deve ir às aldeias. Nos dois casos, o risco de contaminação é enorme.

Até agora, no Brasil, já morreram cinco indígenas (um deles, de uma aldeia Yanomami) e, devido aos casos confirmados nos municípios próximos às aldeias do Mato Grosso – 134 infectados por coronavírus em 17 municípios -, 20 terras indigenas já estão em estado de alerta.

Preocupados com este cenário, procuradores da República que trabalham no Ofício de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais do Ministério Público Federal (MPF) se uniram e gravaram um vídeo muito simples (que você pode assistir no final deste post) para pedir aos indígenas de Mato Grosso que fiquem casa, em 14 línguas.

Respeito pela cultura de cada povo

No vídeo, a apresentação é feita pelo procurador e titular do Ofício de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais, Ricardo Pael, que destaca a importância do isolamento social, não apenas para que cada indígena não seja infectado pelo vírus, mas também para que não transmita, caso seja portador da doença. Muita gente é infectada, não manifesta sintomas, mas é um potencial transmissor.

Pael salienta também que o MPF vem trabalhando na defesa dos direitos dos cidadãos, principalmente em relação ao direito à saúde, mas, “para que esse trabalho tenha resultado, precisamos da ajuda de cada um. Precisamos que vocês sigam todas as orientações de prevenção e higiene e, principalmente, fiquem em casa. (…) Ficar em casa protege vocês e os demais”. No final, ele pede desculpas aos indígenas cuja língua não foi incluída na iniciativa.

Segundo o procurador, a ideia de falar a frase ícone da campanha de combate ao coronavírus nas línguas maternas de cada etnia se baseia no respeito que o MPF nutre pelas peculiaridades culturais dos povos indígenas.

“O texto constitucional assegura o respeito à cultura desses povos. Muito embora não tenhamos conseguido falar em todas as línguas indígenas do Mato Grosso, nossa preocupação é grande e faremos o que for necessário para que a mensagem chegue a todos”.

Por ordem de aparição, eis os procuradores participantes e as línguas faladas: Valéria Etgeton de Siqueira (Bakairi), Gustavo Nogami (Boé/Bororo), Ludmila Bortoleto (Enawenê-Nawê), Júlio César de Almeida (Guató), Vinicius Alexandre Fortes de Barros (Manoki/Irantxé), Marianne Cury (Kalapalo), Erich Masson (Munduruku), Bernardo Meyer (Nambikwara), Pedro Melo Pouchain Ribeiro (Halíti/Paresí), Gabriel Pimenta Alves (Tapayuna), Leandro Musa de Almeida (Tapirapé), Rodrigo Pires (Terena), Guilherme Tavares (Waujá) e Everton Araújo (Xavante).

Aldeias em estado de alerta

Um grupo de pesquisadores do Mato Grosso fez um levantamento sobre a pandemia no estado e enviou para o Ministério Público Federal, indicando que já existem 134 casos de coronavírus em 17 municípios que ficam muito próximos às terras indígenas, por isso, 20 delas já estão em estado de alerta.

Como é muito comum os indígenas se deslocarem das aldeias para fazer compras, entre outras atividades, nas cidades, os procuradores decidiram fazer esse apelo para que permaneçam boa parte do tempo em seus territórios.

Felizmente, não há registro de coronavírus em indígenas no estado, mas a preocupação do MPF é preventiva: “A ideia é justamente não termos nenhum caso entre os indígenas e, se houver, que seja o menor número possível”, enfatizou o procurador Pael.

Veja quais são as etnias que habitam cada região do estado:

  • NORTE: próximo a Aripuanã, as Terras Indígenas (TI) sob observação são Piripikura (índios isolados), Sete de Setembro (Suruí), Zoró (Zoró), Roosevelt (Cinta Larga), Arara do Rio Branco (Arara) e Parque do Aripuanã (Cinta Larga);
  • ARAGUAIA: próximo a União do Sul e Canarana, estão a Terra Indígena do Xingu e a TI Pimentel Barbosa (Xavante). Somente no Xingu vivem 15 etnias diferentes: Wauja, Trumái, Yawalapití, Mehináku, Aweti, Yudjá, Kisêdjê, Ikpeng, Matipú, Kuikuro, Nahukuá, Tapayuna, Kaiabi, Kamayrurá, Kalapalo‘;
  • SUDOESTE: as terras indígenas Utiariti, Paresi, Estivadinho, Figueiras e Rio Formoso (todas da etnia Paresi), Sararé (Nambikwára) e Portal do Encantado (Chiquitanos) estão próximas a Campo Novo do Parecis, Tangará da Serra e Pontes e Lacerda, municípios que já apresentam casos de COVID-19;
  • CENTRO: apenas Santana, terra indígena dos Bakairi está sob alerta; que fica no município de Nobres e nas proximidades de Nova Mutum, e tem um caso de contaminação;
  • SUL: nessa região, Sangradouro/Volta Grande (Xavante e Bororo), próxima ao município de Primavera do Leste, e Jarudore, Tereza Cristina e Tadarimana, são as TIs em estado de alerta. Estas três ficam próximas de Rondonópolis, que é a segunda cidade em número de casos no estado: 22 confirmados.

De acordo com o censo do IBGE de 2010, Mato Grosso tem aproximadamente 42 mil indígenas de 45 etnias: Apiaká, Apurinã, Arara do Rio Branco, Aweti, Bakairi, Bororo, Chiquitano, Cinta larga, Enawenê-nawê, Guató, Ikpeng, Iny, Karajá, Iranxe, Manoki, Kalapalo, Kamaiurá, Kawaiwete, Kisêdjê, Krenak, Kuikuro, Matipu, Mebêngôkre, Kayapó, Mehinako, Menky, Manoki, Nahukuá, Nambikwara, Naruvotu, Panará, Paresí, Rikbaktsa, Surui, Paiter, Tapayuna, Tapirapé, Terena, Trumai, Umutina, Wauja, Xavante, Yawalapiti, Yudja e Zoró.

Estas etnias estão distribuídas em 87 territórios em situação de estudo para demarcação, delimitadas, regularizadas e/ou declaradas, conforme registros da Funai (Fundação Nacional do Índio.

Agora, assista ao vídeo da campanha do MPF:

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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