Preservação ou Morte! O artivista Mundano homenageia o cacique Aritana em ‘releitura’ da obra ‘O grito do Ipiranga’, de 1888

Na escola, a gente aprende que, em 7 de setembro de 1822, o jovem imperador D. Pedro I gritou Independência ou Morte! às margens do rio Ipiranga para declarar que não se renderia aos mandos e desmandos da corte portuguesa. Em 1888, o pintor Pedro Américo eternizou esse momento glorioso numa obra monumental – mede 4,16m por 7,6 m – que chamou de Grito do Ipiranga.

Para marcar este 7 de setembro de 2020em um ano pandêmico e sob um governo genocida -, o artivista Mundano nos brinda com uma interferência no quadro de Pedro Américo.

“O que essa obra tem de imponente e de importante, ela tem de infiel aos fatos”, conta ele. “Às margens do Ipiranga, Dom Pedro I não usava vestimentas pomposas, nem montava cavalos puro sangue! Montava uma mula e estava com dor de barriga!”.

Na verdade, trata-se de uma homenagem do artista a uma figura preciosa da nossa história recente: o cacique Aritana Yawalapiti, a principal liderança do Xingu, que morreu de Covid-19 no início de agosto.

Preservação ou Morte!

A nova obra de Mundano foi feita com tinta acrílica, spray e lama de Brumadinho sobre reprodução da tela Independência ou Morte. de Pedro Américo, 1888. Seu tamanho: 90cm x 167cm. 

“O objetivo desta releitura não é desmistificar as polêmicas por trás da obra por que são muitas, mas fazer uma homenagem ao grande líder do Parque Indígena do Xingu, o saudoso cacique Aritana Yawalapiti, que tive o privilégio de conhecer pessoalmente em 2011″, explica Mundano.

“Aritana não era apenas o cacique da etnia Yawalapiti, mas, sim, de todo o Xingu . Ele ajudou os irmão Villas-Boas a fundar o Parque Indígena do Xingu, a maior reserva indígena do mundo“. E lamenta: “Infelizmente, ele foi mais uma vítima fatal da Covid-19, mas uma vítima do genocídio indígena, que, na realidade, começa assim que os portugueses pisam nestas terras indígenas”.

Para o artivista, o tamanho de Aritana nessa obra – um gigante! – representa a grandiosidade de seu legado e de sua luta pela vida, que só será possível por meio da preservação do meio ambiente

Liberte o Futuro

Mundano conta também que “a ideia desta obra surgiu da provocação do movimento Liberte o Futuro, que, hoje, tem uma programação de peso e estimula que as pessoas deem seu “grito do Ipiranga” a favor da vida. Afinal, a história está mostrando que, entre independência e morte, parte do Brasil escolheu a morte. Chega de morte! Só nós poderemos barrar o genocídio”.

O movimento é liderado pela jornalista Eliane Brum e reúne diversos intelectuais e ativistas como filósofo Vladimir Safatle, a drag Rita Von Hunty, a advogada indígena Samara Pataxó, o fundador do movimento Uneafro-Brasil Douglas Belchior, a jurista Deisy Ventura, entre outros.

Quem tiver interesse em participar deste movimento de resistência à destruição do Brasil pode acompanhar a programação ao vivo.

Serão três horas – das 18h às 21h – com falas, ações e arte, divididas em temas como genocídio, memória, crimes de Estado e novos movimentos da política.

Também fazem parte da programação uma manifestação online pela plataforma Manifão, que também tem perfil no Instagram. O Manifão da Democracia exibirá um trecho do filme Marighella, de Wagner Moura, censurado em 2019, e do teaser do curta-metragem Marcha a Ré, intervenção-manifesto criada por Eryk Rocha, Nuno Ramos e Antonio Araújo, do Teatro da Vertigem, que está sendo exibida na Bienal de Berlim

O manifesto deste movimento diz: “Não estamos mais em tempos de conversinha de sala de jantar. Nós vamos com a floresta e com as periferias. Nós somos floresta, nós somos as periferias que reivindicam seu legítimo lugar nos centros. Centros políticos, centros de produção de vida, centros de criação de futuros”.

Acompanhe pelas redes sociais: Instagram, Facebook e Twitter.

Obra engajada

Foto: Painel ‘Operários’ de Brumadinho / Reprodução Instagram Mundano

Mundano é o mentor do projeto Pimp My Carroça e um dos idealizadores do aplicativo CatAki, que conecta catadores e consumidores pela reciclagem, chamado também de Tinder da Reciclagem. Em 2017, escrevi sobre sua arte e seu amor pelos catadores e pela liberdade.

Como artista múltiplo e antenado que é, ele se utilizada de diversas formas para protestar, sempre sobre temas que lhe são caros, como estes. Entre elas, está a pintura.

Com a lama tóxica da Vale – que foi buscar em Brumadinho, no rio Paraopeba – ele produziu tintas e criou a série Releituras Mundanas, com a qual recria quadros famosos como o Abapuru, de Tarsila do Amaral, e O Mestiço, de Cândido Portinari (abaixo). A série inclui Guernica, Monalisa (batizada de Mundalisa), O Grito, de Edward Munch, transformado em O Grito da Pandemia. O megafone, símbolo de sua luta, está em todas as obras.

Com tinta dessa lama, Mundano ainda pintou um painel gigante no centro da cidade de São Paulo, próximo do Mercado Municipal da Cantareira, no qual recriou a obra Operários, de Tarsila do Amaral. Os operários são os moradores de Brumadinho, vítimas da ganância da Vale.

Com o óleo do maior vazamento da história do país – que completou um ano no início deste mês, sem solução – e contaminou mais de 1013 praias, ele recriou a obra A Grande Onda de Kanagawa, do gravurista japonês Hokussai, de 1830. Chamou-a de A Grande Onda de Óleo do Nordeste.

Vale muito acompanhar o artivista em suas redes sociais: Instagram e Facebook.

Fotos: Reprodução do Instagram

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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