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Presença de lixo e oferta de comida fazem população de quatis aumentar muito além da média em parque de Belo Horizonte. E infelizmente isso não é bom!

Presença de lixo e restos de comida faz população de quatis triplicar em parque de Belo Horizonte. E infelizmente isso não é bom!

*Por Augusto Gomes

O hábito de oferecer alimento a animais silvestres é comum no Brasil. Seja pela oportunidade de se aproximar desses bichos e observá-los de perto, seja para tirar uma foto ou por acreditar que eles não tenham comida em seu habitat natural, muitas pessoas compartilham um pouco da sua refeição com aves e mamíferos nativos. Contudo, essa cultura aparentemente inofensiva pode ter consequências nefastas para a saúde dos animais, além de causar desequilíbrios ambientais e conflitos com os humanos.

Em Belo Horizonte, Minas Gerais, o Parque Municipal das Mangabeiras se transformou em um experimento ao ar livre sobre as consequências complexas da alimentação artificial de animais silvestres. Com 235 hectares, ele é um dos maiores fragmentos urbanos da América Latina. É cercado de um lado pelo bairro que leva o seu nome, que agrega parte da população mais abastada da cidade, e de outro pelo Aglomerado da Serra, onde vivem dezenas de milhares de pessoas em situação de grande vulnerabilidade social. O local é amplamente utilizado como espaço público de lazer.

Ali se concentra uma das maiores populações de quatis conhecidas: são cerca de 30 indivíduos por quilômetro quadrado — uma densidade populacional três vezes maior do que a média de outras áreas onde também a espécie é encontrada.

Há 15 anos, essa população vem sendo monitorada de perto pela equipe do Projeto Quatis, liderado pela bióloga e mestre em Ecologia Nadja Simbera Hemetrio. O projeto busca entender as origens dessa população anormalmente alta no local, bem como os efeitos das interações com os humanos, com animais domésticos e com o meio urbano sobre a ecologia e saúde dos quatis: “queremos encontrar medidas que tragam uma relação mais saudável entre a vida selvagem e as pessoas”, relata a pesquisadora.

Presença de lixo e restos de comida faz população de quatis aumentar muito além da média em parque de Belo Horizonte. E infelizmente isso não é bom!

Vista aérea do Parque Municipal das Mangabeiras, em Belo Horizonte (MG)
(Foto: Augusto Gomes)

Quatis, fast food e muitos filhotes

Os quatis (Nasua nasua) são carnívoros de médio porte pertencentes à família Procyonidae, a mesma dos guaxinins e juparás. São animais extremamente sociais e podem formar grandes bandos. Apesar de se deslocarem muito bem sobre o solo, são exímios escaladores e sobem árvores com facilidade. Com seu longo e maleável focinho, farejam tudo que há por baixo das folhas, cascas de árvores ou sob a terra.

Quatis são habitantes naturais das florestas brasileiras e ocupam todos os biomas do país. Em estado selvagem, são onívoros e se alimentam de praticamente tudo que encontram: frutos, sementes, insetos, vermes, moluscos, aranhas e até mesmo vertebrados, como aves, sapos, lagartos e pequenos mamíferos.

Acontece que encontrar qualquer um desses itens na natureza exige tempo de busca e dedicação. E quase sempre oferecem um retorno energético muito menor do que uma barra de chocolate ou um pacote de chips, por exemplo. Isso significa que, na presença de humanos, encontrar alimentos fartos ficou mais fácil e rápido. Para os quatis, compensa mais ficar no entorno de um grupo de turistas e tentar pequenas investidas sobre um piquenique do que buscar alimento na mata – o que não significa que não haja alimento para eles em seu habitat natural.

E o contexto geográfico, social e ambiental do Parque das Mangabeiras torna essas oportunidades muito mais comuns: visitantes numerosos, lanchonetes, lixo acumulado e uma vizinhança recheada de bares, restaurantes, residências, comércios e lixeiras significam um prato cheio para os quatis – literalmente.

Presença de lixo e restos de comida faz população de quatis aumentar muito além da média em parque de Belo Horizonte. E infelizmente isso não é bom!

Quati (Nasua nasua) no Parque Municipal das Mangabeiras
(Foto: Augusto Gomes)

Mais alimento significa mais reservas, mais energia. Essa energia pode ser gasta explorando novas áreas, procurando abrigos melhores, construindo ninhos mais seguros contra predadores (sim, quatis constroem ninhos nas árvores), defendendo territórios e, é claro, procriando e cuidando dos filhotes. Na natureza, quase sempre uma oferta maior de alimentos gera um aumento populacional, já que os animais podem se dar ao luxo de investir mais tempo e energia na reprodução. Na ausência dos seus predadores naturais, como onças e jacarés, os quatis não encontraram limites para expandir a população indefinidamente.

A fartura de comida na região do Parque das Mangabeiras fez com que os quatis se multiplicassem e ficassem mais ousados, explorando as áreas adjacentes, inclusive na cidade. Com o tempo, a situação virou uma bola de neve: eles passaram a adentrar as casas do entorno, especialmente aquelas em que os anfitriões eram mais receptivos e os recompensavam com algum petisco. Hoje, escalam muros com destreza sem igual, pulam janelas, reviram o lixo e ocasionalmente entram até em hospitais, delegacias e comércios.

Presença de lixo e restos de comida faz população de quatis aumentar muito além da média em parque de Belo Horizonte. E infelizmente isso não é bom!

Quatis revirando lixo no entorno do Parque Municipal das Mangabeiras
(Foto: Augusto Gomes)

Elenice Antunes tem um food truck nas imediações do Parque das Mangabeiras, próximo a um grande hospital e a outro parque municipal da região, o da Serra do Curral, também frequentado pelos quatis. Desde que montou seu ponto de trabalho ali, ela relata que os animais fazem visitas diárias. Por diversas vezes, eles já “assaltaram” seu food truck: sobem no carro, escalam portas e janelas, rasgam pacotes de comida, derrubam utensílios da cozinha, reviram o lixo e saem correndo tão rapidamente quanto chegaram.

“Atualmente, eu só deixo a lixeira dentro do carro e, assim que os vejo, eu já fecho tudo”, diz Elenice. Ela conta também que a falta de periodicidade nas coletas de lixo da região acaba atraindo os animais silvestres e piorando o problema. “Tenho medo de que uma hora eles possam machucar alguém. Um dia desses, estavam subindo numa senhora muito frágil em idade avançada. Um arranhão com essas garras afiadas poderia feri-la gravemente”, completa.

Visitantes do Parque Municipal das Mangabeiras quatis
(Foto: Augusto Gomes)

Levantamento populacional dos quatis

Um dos pilares do Projeto Quatis é entender a dinâmica populacional dos quatis no Parque das Mangabeiras e áreas adjacentes. Para isso, cientistas se valem do método chamado marcação e recaptura: “Através da proporção de indivíduos marcados e recapturados entre as campanhas de campo, é possível estimar a população total de uma espécie numa certa área”, conta Nadja. Basicamente, a técnica mostra qual proporção da população foi de fato amostrada nas capturas, e qual parcela provavelmente escapou da vista das pesquisadoras. Comparando os números entre campanhas de campo, é possível estipular também como a população se comportou ao longo do tempo.

Além da densidade populacional três vezes maior que a média, Nadja e sua equipe descobriram que, no Parque das Mangabeiras, os bandos de quatis são mais numerosos e, aparentemente, as taxas de natalidade tendem a ser mais elevadas. Fêmeas que normalmente dariam à luz de dois a sete filhotes, numa situação como essa podem ter uma prole numerosa — uma média de seis. As taxas de mortalidade entre filhotes são menores, e os animais vivem por mais tempo. Como os quatis se reproduzem todos os anos de forma sincronizada, o efeito em longo prazo pode ser desastroso, com um aumento populacional considerável.

Análises com amostras de sangue coletadas apontam também para uma baixa variabilidade genética entre os quatis no Parque das Mangabeiras. Na prática, isso significa que eles estão se movimentando pouco e reproduzindo entre si, efetuando uma troca gênica pequena com populações externas ao parque. A hipótese de Nadja é que, com maior oferta de alimentos, os animais passaram a se deslocar menos pela paisagem. Estão bem acomodados ali, por assim dizer.

O Projeto Quatis já capturou mais de 300 indivíduos ao longo dos seus quase 15 anos de existência, muitos dos quais já morreram – ou seja, não fazem mais parte da população. Enquanto isso, outros nasceram e se reproduziram, cumprindo seu papel na perpetuação da espécie. “Hoje temos um panorama mais completo sobre o comportamento dos quatis, a dinâmica da população e a saúde dos animais. Como monitoramos as populações do parque há muito tempo, pudemos acompanhar também a história de vida dos animais, do seu nascimento à sua morte”, diz Nadja.

A bióloga Nadja Simbera liberta um quati no parque após captura para marcação. Ele recebeu um colar com radiotransmissor, que permitirá monitoramento remoto pela equipe do Projeto Quatis
(Foto: Augusto Gomes)

Risco de transmissão de doenças

Conflitos entre quatis e animais domésticos não são raros: cães de rua frequentemente adentram os limites do parque, perseguem e atacam os quatis, em alguns casos provocando uma verdadeira chacina. Esse contato não só é perigoso para ambos os lados, como também traz o risco de transmissão de doenças e patógenos.

As veterinárias do projeto já identificaram uma série de vetores e agentes etiológicos nos quatis, incluindo ectoparasitas como carrapatos, piolhos e pulgas, e também nematódeos, bactérias, vírus e protozoários hemoparasitas com grande potencial zoonótico. Vários desses organismos são compartilhados com cães domésticos, gatos e cavalos, alguns representando riscos também para a saúde humana.

São causadores ou transmissores de doenças como a febre maculosa, leishmaniose, leptospirose, raiva, cinomose, babesia e sarna. Quanto maior é o contato entre quatis, pessoas e animais domésticos, maior é a chance de essas doenças se propagarem e trazerem prejuízos para a saúde pública, como a eclosão de novas epidemias.

Lixo deixado pelos visitantes do parque se torna fonte de alimento para os quatis
(Foto: Augusto Gomes)

Guerreiras da conservação

Nadja frequenta o parque muito antes de se tornar bióloga. Os passeios na mata fizeram parte de sua infância, e quando chegou ali munida do seu diploma e entusiasmo científico, ela já conhecia cada metro quadrado do lugar. Começou a estudar os quatis ainda na graduação, durante seu trabalho de conclusão de curso. Desde então, desenvolveu sua dissertação de mestrado no mesmo tema, e posteriormente ingressou na Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica de Belo Horizonte, onde atua hoje como gerente de educação ambiental.

“O Projeto Quatis é essencialmente feminino, concebido e gerido por mulheres”, relata Nadja. É claro que vários homens já passaram pelo projeto e deram sua contribuição ao longo dos anos, mas a esmagadora maioria dos membros da equipe é composta por mulheres. Biólogas, veterinárias, geneticistas, ecólogas, parasitologistas, estagiárias e assistentes de campo — uma legião de mulheres determinadas a quebrar todos os paradigmas sobre os trabalhos de campo e atividades consideradas “masculinas” entre os profissionais da área.

“Tenho uma gratidão enorme em ter contribuído para a formação de tantos pesquisadores e poder trabalhar ao lado de pessoas tão incríveis e batalhadoras. O projeto sempre mostrou que as mulheres dão conta de qualquer trabalho, e esperamos que ele possa inspirar outras mulheres que queiram trazer mudanças positivas para o mundo”, conta Nadja.

Nadja Simbera (à esquerda) junto a outras pesquisadoras em processo de marcação para monitoramento da população e do estado de saúde dos animais
(Foto: Augusto Gomes)

Educação ambiental

Uma das ações mais importantes desenvolvidas peloprojeto é um programa continuado de educação ambiental, em parceria com a Fundação Municipal de Parques e Zoobotânica e com o setor privado. Ele consiste num plano de comunicação com a população através de conversas, cartilhas, placas, cartazes, atividades interativas, palestras, eventos culturais e exposições, incluindo visitantes e funcionários do parque, moradores do entorno, escolas, estabelecimentos comerciais e associações de bairro.

“Sem trabalhar a percepção das pessoas com relação aos quatis e sua alimentação, o problema da superpopulação jamais será resolvido. Todos os projetos de conservação devem permear pessoas, porque as pessoas geram os impactos. Não existe conservação sem pessoas”, explica Nadja. Isso passa não só pela abordagem expositiva, mas também pela capacidade de ouvir o que as pessoas têm a dizer. “Nós tentamos entender como as pessoas veem a espécie e veem o problema, para que não entremos com nossas ideias prontas, mas sim que busquemos preencher lacunas para ajudá-las.”

Uma das pessoas contempladas no projeto de educação ambiental foi justamente Elenice Antunes, a dona do food truck no entorno do parque. Hoje ela fala com propriedade sobre os animais e entende muito bem a complexidade da questão, tanto que passou a orientar os fregueses e transeuntes sobre os riscos associados à alimentação dos quatis.

Os funcionários do Parque das Mangabeiras, que anos atrás alimentavam os quatis, hoje são aliados da iniciativa. Eles não só orientam os visitantes, mas também ajudam as pesquisadoras no monitoramento, avisando a equipe sobre a passagem dos bandos por diferentes locais, o número de animais, o estado de saúde aparente e a identificação dos indivíduos, quando visível nos brincos. “Os moradores do entorno já nos conhecem, nos passam informações importantes sobre os animais que avistam e até nos ajudam na educação ambiental, conversando e conscientizando outros moradores. É um efeito em cascata”, explica Nadja com um sorriso esperançoso no rosto.

A ideia é que essa cascata um dia possa fluir sozinha, que as pessoas possam influenciar positivamente umas às outras, sem a necessidade de intervenção do projeto. “Eu tenho esperança de que, com o tempo, as pessoas mudem o comportamento delas, os quatis mudem o comportamento deles, e que no futuro nós possamos reduzir a densidade dos animais no Parque das Mangabeiras e os conflitos associados. É um caminho que temos que continuar trilhando, um trabalho que não para”, a cientista conclui.

*Texto publicado originalmente em 03/10/22 no site do Mongabay Brasil

Foto de abertura: Augusto Gomes

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