Povos indígenas da América Latina são os melhores guardiões das florestas, aponta relatório da ONU

Não há guardiões e parceiros mais perfeitos para a proteção das florestas da América Latina e, por consequência, para o combate às mudanças climáticas do que os povos indígenas. Especialmente quando seus territórios são demarcados, ou seja, quando seus direitos são reconhecidos e respeitados pelos governantes.

Parece muito óbvio declarar isso, mas estamos num momento da humanidade em que é preciso afirmar e confirmar isto sempre.

O que se tem visto – no Brasil e em outros países desta parte do continente – é muito diferente do ideal e do recomendável para a nossa existência. As ameaças a esses povos só cresce e foi intensificada com a pandemia da Covid-19.

Agora, esses povos estão ainda mais ameaçados, tanto pelas invasões, como pela contaminação.

É sobre isso que versa o relatório divulgado em 25 de março pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pelo Fundo para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas da América Latina e do Caribe (Filac), que alerta para a extrema urgência na adoção de medidas de proteção a estas comunidades.

Diante dessa realidade, David Kaimowitz, da FAO, autor do relatório, faz dois alertas: as ameaças cada vez maiores aos povos indígenas “exigem respostas rápidas” e “logo pode ser tarde demais”.

O documento Governança florestal por povos indígenas e tribais é resultado da revisão e da atualização de mais de 300 estudos publicados nos últimos 20 anos sobre o tema.

“Logo pode ser tarde demais”

Esta é a primeira vez que a FAO – ao longo de 75 anos atuando para combater a fome no mundo e promover a segurança alimentar – produz um documento dedicado às vulnerabilidades e ao papel dos povos e territórios indígenas.

Hoje, essas terras representam um terço das florestas tropicais na América Latina e no Caribe. “Quase metade das florestas intactas na bacia amazônica estão em territórios indígenas, e a evidência de seu papel vital na proteção da floresta é cristalina’, destacou Myrna Cunningham, presidente da Filac e indígena da Nicarágua, em entrevista para o jornal britânico The Guardian.

“Enquanto a área de floresta intacta diminuiu apenas 5% entre 2000 e 2016 nas áreas indígenas da região, nas áreas não indígenas caiu 11%”, resumiu.

Demarcação de terras é sinônimo de proteção

Foto: Monica Castaño/FAO

Neste relatório, a FAO e a Filac destacam, em especial, o avanço veloz do desmatamento em terras indígenas do Brasil em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro.

A demarcação de seus territórios sempre fez parte da luta desses povos, mas, na gestão atual nenhuma terra indígena foi demarcada. Como prometeu Bolsonaro durante campanha presidencial em 2018.

Sempre que tem oportunidade, o presidente declara ou age por meio de decretos ou medidas para tenta liberar a mineração e outras atividades econômicas nessas áreas. Suas falas legitimam constantemente ataques de invasores, grileiros, madeireiros e mineradores ilegais.

Nos territórios em que os indígenas têm seus direitos reconhecidos, as taxas de desmatamento são muito mais baixas, aponta o relatório, que nos lembra que “cuidar dessas florestas é uma das formas mais eficientes de limitar as emissões de gases de efeito estufa”.

Outra revelação importante do documento diz respeito a alteração da influência de fatores culturais, geográficos, econômicos e políticos na preservação dessas florestas, que têm acarretado impactos ambientais e sociais desastrosos.

A FAO e o Filac ainda apelam para os governos de cada país da AL, à comunidade internacional e a outros atores para que procurem fortalecer a parceria e a colaboração com povos indígenas e comunidades tradicionais visando aprimorar a governança de seus territórios e garantir seus direitos.

Com informações da FAO, do The Guardian e do Observatório do Clima

Foto (destaque): Renato Soares

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Um comentário em “Povos indígenas da América Latina são os melhores guardiões das florestas, aponta relatório da ONU

  • 31 de março de 2021 em 9:31 AM
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    Sim, a floresta, por direito e merecimento, é deles. Usurpadores e mercenários somos nós, os pseudos “donos ” dela, descredenciados e inaptos para conserva-la com o mesmo incondicional amor deles, irrestrito, ingênuo e puro. São eles os mais capacitados, por natureza, a continuar sendo os protetores da riqueza verde, da qual se nutrem e vivem sem destrui-la ou conspurca-la, como costumamos fazer com os recursos ambientais. A floresta é deles. Herança de seus ancestrais e legado de seus filhos. Quanto mais longe dos civilizados e de suas psicodélicas invenções destrutivas, melhor. Não somos confiáveis.

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