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Portugal anuncia doação extra de um milhão de euros para a UNRWA, agência da ONU que atende refugiados palestinos

Portugal anuncia doação extra de um milhão de euros para a UNRWA, agência da ONU que atende refugiados palestinos

Com a suspensão de doações de 16 países, a UNRWA – Agência das Nações Unidas de Assistência e Obras aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente perdeu cerca de 440 milhões de dólares (60% do financiamento) e, por isso, anunciou, ainda em janeiro, que talvez não conseguisse atender os refugiados palestinos até o final de fevereiro.

A causa da interrupção dos financiamentos foi a acusação do governo israelense contra 12 funcionários da UNRWA, ao dizer que eles participaram do ataque do Hamas em 7 de outubro.

Isso aconteceu no dia em que a Corte Internacional de Justiça (CIJ), de Haia, aceitou a denúncia da África do Sul contra Israel e exigiu que este país adotasse medidas urgentes para evitar um genocídio em Gaza e entregasse relatório em um mês, com a descrição das medidas tomadas. 

Sem perder tempo, os EUA (maior doador) anunciaram a interrupção do financiamento, seguidos por Canadá, Alemanha (segundo maior doador)Reino Unido, Austrália, Itália, Holanda, Suíça e Finlândia. Dias depois (28/2), foi a vez de França e Japão aderirem ao boicote (contamos aqui).

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, chegou a dizer a um grupo de enviados da ONU em Jerusalém, em 30/1, que a UNRWA está “a serviço do Hamas”, e pediu uma maior suspensão das doações à agência.

No dia seguinte, Josep Borrell, principal diplomata da União Europeia, alertou, em reunião para debater o assunto, que centenas de milhares de pessoas morreriam se o financiamento fosse cortado por mais países.

“Se cortarmos o financiamento à UNRWA, puniremos todo o povo palestino. Não há alternativa à UNRWA (…) se quisermos manter estas pessoas vivas. Portanto, não pode haver punição coletiva ao povo palestino”, enfatizou. 

Naquele dia, Suécia, Áustria, Romênia e Estônia atenderam ao pedido de Israel. E Islândia – que não faz parte da UE – também. Todos, portanto, coniventes com o genocídio em Gaza.

“O trabalho da UNRWA é essencial”, diz Portugal 

Os primeiros países que declararam manter a ajuda, em meio à debandada, foram Noruega e Irlanda. Em 2/2, foi a vez da Bélgica, que sofreu retaliação de Israel: o prédio da Agência Belga para Cooperação Desenvolvimento em Gaza foi bombardeado.

Mas, um dia antes, Portugal se uniu à essa corrente ao dizer que continuará a financiar a UNRWA – são 4 milhões de euros ou 4,3 milhões de dólares, já entregues. E foi além.

Anunciou que também enviará doação especial de um milhão de euros (pouco mais de 1 milhão de dólares), a despeito das acusações de Israel. 

As declarações à imprensa portuguesa foram feitas em Bruxelas por José Gomes Cravinho, ministro dos Negócios Estrangeiros. Ele contou que se reuniu com Philippe Lazzarini, comissário-geral da UNRWA, e estava “totalmente confiante e satisfeito com as explicações” por ele fornecidas, “especialmente porque não se trata de algo estrutural, dentro da UNRWA”. 

“O trabalho da UNRWA é essencial e, por isso, continuaremos a apoiá-la”. E explicou: “Este milhão adicional virá agora em circunstâncias diferentes, num contexto em que alguns países anunciaram que vão congelar o seu financiamento”.

Claro que esse montante não ajuda a salvar a UNRWA da crise financeira que se criou com o boicote, mas ajudará a manter a agência funcionando por mais alguns dias.

Emirados Árabes também anunciam doação 

Em meio à indignação contra os países que se renderam às declarações de Netanyahu, sem levar em conta a crise humanitária pela qual passam os palestinos, mais um país prometeu ajuda extra para a UNRWA: os Emirados Árabes Unidos.

Mas o montante prometido – US$ 5 milhões – não está relacionado à ajuda humanitária exatamente, mas à reconstrução da Faixa de Gaza, liderada pela coordenadora-chefe da agência, Sigrid Kaag

No entanto, o sonho de reconstruir o país neste momento parece utópico, impossível. Muita gente em Israel já faz planos para quando o governo anexar Gaza ao seu território. E isso não parece só um sonho para eles, mas uma realidade muito próxima.

A desumanização dos palestinos e o domínio de Gaza

Nestes dias, os soldados israelenses iniciaram mais uma nova fase da ocupação “empurrando” milhares de palestinos de Khan Yunis para Rafah, onde já estão aglomeradas 1,4 milhão de pessoas. Cerca de 2/3 dos palestinos foram obrigados a se refugiar ali.

Desde o início dos bombardeios, no Norte de Gaza, de tempos em tempos os soldados avisam que a população precisa se deslocar em direção ao sul para “um local mais seguro”. Mas, como tem alertado a ONU, “não há lugar seguro em Gaza”.

No caminho para Rafah, os palestinos foram alvo de disparos – também de tanques – dos quais tiveram de correr, apesar do cansaço. Alguns foram feridos, outros mortos. E, hoje, na última cidade do território, uma crecheonde crianças e mulheres se abrigavam –, um conjunto residencial e tendas de refugiados foram bombardeados.

Morreram 92 pessoas, sinalizando, talvez, que a ofensiva das forças de ocupação na região pode ser a mais violenta, até agora. Assim, fica difícil acreditar que eles estão atrás do Hamas e se preocupam com os reféns…

É verdade que, de acordo com declarações de Netanyahu em Israel e de soldados durante os ataques, eles enxergam terroristas em todos os cidadãos. Trata-se de uma obsessão propagada pelo primeiro-ministro, que abriu precedentes para que ministros e solados chamassem os palestinos de “animais”, “baratas” e “demônios” em público ou vídeos.

A desumanização dos palestinos é uma estratégia de guerra.

Tal obsessão também pode ter sido a causa da execução de três jovens israelenses, reféns do Hamas, que podem ter fugido do cativeiro ou sido libertados, e foram alvejados por um soldado, sem dó, mesmo acenando com camisetas brancas. 

Por tudo isso, me parece nítida a intenção de cercar a população palestina em Rafah para dizimá-la ou expulsá-la para o Egito. A Passagem de Rafah – por onde entram caminhões com ajuda humanitária e por onde saíram os brasileiros resgatados pelo governo brasileiro – está bem próxima. 

O governo de Israel pode ter usado os ataques do Hamas como desculpa para dominar Gaza. Destruiu tudo porque os terroristas, segundo os soldados e seu ministro da Defesa, estão escondidos nos subterrâneos de todos os edifícios…

Mas o motivo real de tanta violência e destruição parece ser o de sumir com a Palestina, como no mapa que Netanyahu apresentou na Assembleia Geral da ONU, em 20 de setembro de 2023, em Nova York, EUA, intitulado Novo Oriente Médio, no qual a Faixa de Gaza não existia.

O premiê pegou uma caneta vermelha e desenhou, no mapa, uma linha representando o que chamou de “corredor de paz e prosperidade” que conectaria Ásia e Europa passando por Emirados Árabes, Arábia Saudita, Jordânia e Israel.

Na ocasião, o premiê disse que seu país estaria perto de um acordo histórico com a Arábia Saudita, que seria uma alternativa frente à “nova rota da seda” encabeçada pela China. Mas Mohammed bin Salman declarou que ainda buscava garantias em relação aos direitos dos palestinos para assinar um eventual tratado de reconhecimento.

Isso, 17 dias antes do ataque do Hamas.

Na semana passada, ministros, parlamentares e colonos judeus – todos da extrema-direita – se reuniram numa convenção para tratar de um plano urbanístico em Gaza. E a líder dos colonos, Daniella Weiss, em entrevista, escancarou sua posição, como sempre. Sobre os palestinos, disse que têm que sair “daquela terra” e que “o mundo saberá aceitá-los!”. 

Um dos principais oradores dessa conferência foi Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, que, em novembro, declarou que Israel deveria jogar uma bomba nuclear em Gaza e tudo estaria resolvido.

Ocupar literalmente Gaza parece ser o grande plano de Israel para o território rico em água e outros recursos naturais (como petróleo), que vem sendo dominado desde outubro – com a ajuda bélica dos EUA -, num movimento que especialistas no conflito Israel/Palestina chamam de Nakba 2. O nome faz referência à expulsão de 700 mil palestinos de suas terras, por israelenses, em 1948, e significa Catástrofe ou Desastre.

Hoje, já há 27.365 mortos em Gaza, sendo 11.500 crianças – sem contar mais de 8 mil corpos sob escombros – e 66.630 feridos

Na Cisjordânia, onde não existe Hamas: 382 mortos (sendo mais de 100 crianças),4.250 feridos e 6.512 sequestrados (presos nas masmorras israelenses). Fontes: Ministério da Saúde da Palestina, Sociedade Palestina Crescente Vermelho (organização humanitária) e Israeli Medical Services.
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Foto: reprodução Instagram/UNRWA

Fontes: Times of Israel e EFE

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