Por que a ração dos pets “pode” ser transgênica?

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No anúncio publicitário de alimentos, cães e gatos são nossos melhores amigos e merecem sempre do bom e do melhor. Mas a prática (ou seja, o produto oferecido) é bem diferente do discurso dos fabricantes e consegue transformar nossos pets em cobaias de uma indústria que não está nem um pouco preocupada com saúde animal (ou do planeta). As embalagens estampadas com cães felizes e saudáveis tentam disfarçar o que qualquer olhar minimamente atento vê: o triângulo amarelo com o T que indica a presença de organismos geneticamente modificados (OGMs). Sem suficientes testes científicos e pesquisas sobre os efeitos dos transgênicos no organismo ao longo do tempo, oferecer ração desse tipo é acreditar que está tudo bem assim, que não há problema algum e que, portanto, podemos seguir em frente do mesmo jeito. Será?

Há uns bons anos, sempre que entro numa loja de produtos para pets (tenho três cães adotados em casa) pergunto ao atendente: você tem ração livre de transgênicos? A resposta costuma ser precedida por expressões faciais prá lá de esquisitas. Já vi cara de paisagem, cara de quem me achou fresca, cara de quem não sabe do que estou falando, cara de quem não comeu mas gostou do estoque de ração transgênica que tem e está me chamando de ecochata, e, a pior delas e também a mais comum: cara de “tanto faz, você liga pra isso?!”.

O que mais me impressiona é essa apatia, a total falta de senso crítico que acompanha esse mercado – que, aliás, está sempre em crescimento, com crise ou sem crise. Já conseguiu contar quantos pet shops existem no seu bairro? Pois é, isso também é curioso, porque a população gosta de “cuidar” dos seus bichinhos, mas, de modo geral, não liga para esse “detalhe” ou parece nem percebê-lo.

Uma das justificativas de vendedores (e consumidores!) que mais ouço nas lojas é que “são todas assim, não tem jeito, é o novo padrão”, como se isso significasse que está correto ou que não há como mudar. Sempre há como mudar. Apenas é preciso que muitos queiram.

Sinto que há uma crença (religiosa mesmo) na indústria, uma espécie de confiança quase incondicional gerada pela “alta tecnologia” que os fabricantes anunciam e que, portanto, só pode indicar boa qualidade. Repare: décadas atrás, quase todo mundo alimentava seus pets com comida caseira, até que a publicidade venceu o hábito e se instalou no prato do nosso cãozinho como a coisa mais maravilhosa e saudável do mundo.

O mito de que a tecnologia está sempre melhorando nossas vidas precisa ter um fim. Muita gente ainda confunde tecnologia com ciência feita por profissionais que trabalham por um mundo melhor. Seguindo essa lógica, produtos industrializados são quase inquestionáveis! Pode parecer um exagero. Mas é dessa forma que todos os dias surgem novos produtos tóxicos, prejudiciais à nossa saúde, de difícil exterminação no meio ambiente e, curiosamente, de fácil absorção nos supermercados e, em seguida, nas nossas casas. Até quando permitiremos que seja assim?

Se não olharmos para isso com seriedade, seremos sempre e cada vez mais cúmplices dessa barbárie. Estou (estava) falando de ração de pets, mas essa mania de acreditar na indústria do bem e da boa vontade vale para muitas outras coisas. Ou você nunca ouviu falar que o micro-ondas faz mal à saúde? Que dormir com o celular debaixo do travesseiro pode causar sérios danos? Que alguns tipos de tintas e vernizes podem nos intoxicar? Que agrotóxicos realmente são um veneno na nossa mesa (e agora aparecem intimamente ligados ao aumento do câncer, inclusive em pets, e aos casos de microcefalia)?

Estamos vivendo uma silenciosa guerra química. E insistimos em achar que não há mal algum nisso. Por quê? Por que não paramos um pouquinho para pensar sobre a gravidade disso e não tentamos buscar soluções, provocar mudanças?

Sinto que a cultura da internet criou na população uma incapacidade de perceber as consequências que levam mais do que o tempo de uma mensagem instantânea. Transgênicos demoram algum tempinho para que seus impactos sejam percebidos. É nesse hiato que mora nossa covardia de agir para mudar antes que seus (d)efeitos sejam irreversíveis. Não temos que remediar o irremediável. Temos que prevenir.

Pouco depois da Segunda Guerra Mundial, nos EUA, havia anúncio publicitário de DDT para combater piolhos (!!), que mostravam mães lavando os cabelos das crianças (!!). Na época, ninguém podia imaginar que o produto era altamente tóxico, perigoso à saúde. Nas lavouras, seu uso fez desaparecer do mapa a águia que é símbolo do país, e foi tema do livro que marcou o início do ambientalismo: Primavera Silenciosa, de Rachel Carson.

Isso foi há mais de cinquenta anos. E ainda não aprendemos a lição. Pior. Estamos repetindo o erro. Insistindo no erro. Alimentando nossa família e nossos animais com o mesmo erro. Por quê? O que justifica isso? Falta de tempo na rotina? Descaso? Negligência?

Já falei sobre o assunto neste blog, tempos atrás. Na época, eu havia decidido cozinhar em casa para meus cachorros, recusando a ração transgênica que imperava nas lojas. Sorte dos dogs, que amavam o arroz integral com legumes da horta orgânica e frango caipira. Mas, com a chegada da minha filha e a mudança total de rotina, ficou impossível manter a comidinha. Infelizmente. E, então, o dilema voltou. Voltei a procurar ração sem transgênicos. E encontrei umas poucas marcas. Uma delas, caríssima, inviável, mais cara do que a minha feirinha orgânica para o mês inteiro. Outra, sem milho e sem soja, e com preço semelhante à média do mercado.

Se dá para fazer ração sem usar ingredientes transgênicos, por que e para que inclui-los, então? E em benefício de quem? Se refletirmos um instante, veremos que quem ganha não é a população, nem os animais, nem o planeta. Mais uma vez, o dilema está em nossas mãos: consumir ou rejeitar, eis a questão. Enquanto consumirmos o que o mercado oferece, não haverá razão para mudanças. Se rejeitarmos – e isso começar a afetar o lucro das empresas – coisas incríveis poderão acontecer. Já escolheu o que vai querer?

Vale a pena conhecer:
Caseirinha
Cachorro Verde

Foto: Alex Matravers via Photopin

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

Giuliana Capello

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

6 comentários em “Por que a ração dos pets “pode” ser transgênica?

  • 21 de março de 2017 em 11:52 AM
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    Ótimo artivo

    Mas me diz uma coisa… quais rações você encontrou sem transgênicos?

    Você sabe alguma coisa sobre os conservantes BHT e BHA?

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  • 8 de setembro de 2017 em 4:44 PM
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    Ola, li agora pois estou procurando sobre o assunto, Me ofereceram a ração N&D e até comprei. Você poderia comentar qual ração achou, principalmente a que não leva Milho, e é no preço de mercado?

    Obrigada.

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  • 28 de novembro de 2017 em 10:12 AM
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    Muito importante escolhermos uma boa ração e olhar se tem o selo.

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  • 12 de janeiro de 2018 em 11:06 AM
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    Gostei do post. Mas como todo bom blogueiro, vc lançou o problema e esqueceu da solução. Faltou umas dicas de rações e lugares pra encontrar uma ração natural de qualidade.

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