Por que os parques são tão importantes para as crianças?

Assim que o governo de São Paulo iniciou as primeiras etapas de flexibilização da quarentena e a retomada de algumas atividades, meu filho de sete anos perguntou:

– O CEMUCAM já abriu?

E, desde que os parques foram reabertos, ele me cobra sobre quando iremos visitá-lo, lembrando-me do vínculo especial que desenvolveu com esse parque, localizado perto de nossa casa, sobre o qual já escrevi aqui, no Conexão Planeta

Foto: Maria Isabel Amando de Barros/Arquivo Pessoal

Esse pedido e a relação de afeto que está por trás dele evidenciam um fato importante, mas, muitas vezes, pouco valorizado: o papel que os parques têm nas experiências das crianças com a natureza.

O vice-presidente de iniciativas estratégicas da Associação Nacional de Parques e Recreação dos EUA, Richard J. Dolesh, descreveu seis razões pelas quais os parques ajudam a conectar as crianças com a natureza, que apresento com a realidade brasileira em mente: 

1. Parques são lugares seguros e com infraestrutura

Foto: Keith Levit/Shutterstock

Em um país com índices de violência altíssimos, em que o espaço público se tornou sinônimo de perigo, os parques são mais protegidos do que outros espaços abertos e representam uma alternativa para famílias que não podem pagar pelo acesso a espaços naturais privados, em clubes e condomínios, por exemplo. 

Apesar de a infraestrutura de muitos parques ainda estar aquém do ideal, eles têm um mínimo de condições que agregam qualidade às experiências de crianças e famílias com a natureza, como áreas de piquenique, sanitários e parquinhos.

2. Parques são espaços incríveis para brincar e explorar

Foto: Robert Collins/Unsplash

Para muitas crianças urbanas, que crescem em espaços pequenos como apartamentos ou regiões adensadas, a exemplo das periferias, os parques são verdadeiros oásis de liberdade, onde é possível movimentar-se e explorar a natureza, sentindo a terra com o corpo e brincando com outras crianças.

São também os lugares onde elas podem interagir com elementos naturais como o vento, a água, as folhas, as sementes e as árvores, num fazer criativo e independente.

3. Parques são espaços de encontro

Foto: Maria Isabel Amando de Barros/Arquivo Pessoal

Entre os grandes anseios da sociedade sobre o mundo pós-pandemia estão mais vida em comunidade, conexão e acesso à natureza. Que espaço pode responder mais a esses anseios do que os parques?

Para as crianças, eles representam os lugares onde conseguimos passear longe dos estímulos de consumo e das distrações impostas pelos dispositivos digitais. São lugares de encontros significativos entre família e amigos próximos, como piqueniques e festas de aniversário. São espaços de comunhão com outras formas de vida – vegetal e animal. Representam os vínculos com o outro e com o mundo que tanto buscamos.

4. Parques são a natureza mais próxima

Foto: Lorena Mossa

Embora tenhamos uma enorme desigualdade na distribuição e no acesso aos parques, com alguns bairros muito mais privilegiados do que outros territórios, eles ainda representam os espaços naturais mais próximos para grande parte da população.

Para muitas crianças que não têm a chance de visitar parques estaduais ou nacionais, os parques urbanos são a natureza mais preservada a que terão acesso. 

5. Parques são lugares para viver aventuras

Foto: Acervo Nosso Quintal

As crianças anseiam por ir além do que já conhecem, por testar suas habilidades motoras e físicas, bem como a confiança em si mesmas, e nenhum lugar é mais adequado para experienciar riscos/benéficos do que os espaços abertos e naturais.

Simultaneamente, as crianças se desenvolvem muito com a sensação de conquista dos desafios encontrados ao ar livre, como subir numa árvore ou andar de bicicleta. 

Os parques têm essa característica essencial para as crianças: são espaços para viver aventuras. Cada trilha percorrida, cada pequeno inseto descoberto, cada cabana de galhos construída tem o gosto do desafio, do desconhecido, e contribui para o desenvolvimento integral de meninos e meninas.

6. Parques são espaços de afeto e pertencimento

Foto: Cherylholt/Pixabay

Assim como precisamos de vínculos sociais, precisamos também de vínculos com o mundo natural. Essa necessidade inata do ser humano explica por que pesquisas feitas durante a pandemia mostram que o contato com a natureza está entre as coisas que mais sentimos falta no período da quarentena.

Para muitas crianças, as memórias mais significativas estão relacionadas com um parque: os passeios em família, as aventuras vividas ao lado de outras crianças, os aprendizados sobre si e sobre o outro. São experiências que falam profundamente sobre a infância e que influenciam seus valores e escolhas de formas que muitas vezes não são evidentes.

Os parques precisam do nosso apoio

Foto: Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas (Parque Ibirapuera)

No momento em que sonhamos com o dia em que poderemos passear com liberdade em nossos parques preferidos ao lado das crianças, é fundamental lembrar que precisamos advogar pelo acesso de todos aos parques e por sua valorização, combatendo toda a série de ameaças que incidam sobre eles. Como?

Frequentando-os quando for possível e seguro, apoiando associações e coletivos que trabalham por eles, informando-se e envolvendo-se com as políticas públicas que regulam sua implantação e gestão, votando e pressionando as autoridades nas quais votamos para que atuem em prol da preservação, manutenção adequada e criação de novas áreas verdes públicas.

Parques são muito importantes para as crianças. Parques são muito importantes para a cidade, para todos nós – e precisam do nosso apoio. E, por favor, ao levá-las para passear nos parques, lembre-se de respeitar as orientações das autoridades de saúde, o distanciamento e os protocolos de higiene.

No próximo artigo vamos conversar sobre por que as crianças são tão importantes para os parques. 

Foto (destaque): Maria Isabel Amando de Barros/arquivo pessoal

Maria Isabel Amando de Barros

Engenheira Florestal e mestre em Conservação de Ecossistemas pela ESALQ/USP, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. É cofundadora da OutwardBound Brasil e atuou na gestão e manejo de unidades de conservação na Fundação Florestal do Estado de São Paulo. Depois do nascimento da Raquel e do Beni passou a estudar a relação entre a infância e a natureza no mundo contemporâneo. Desde 2015, trabalha como pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

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