Poluição do ar: outro inimigo invisível, para o qual não temos vacina

Poluição do ar: outro inimigo invisível, para o qual não temos vacina

No mundo, hoje, 9 em cada 10 pessoas respiram ar com altos níveis de poluentes. Diversos estudos e pesquisas científicas comprovam como isso afeta nossa saúde. Segundo relatório publicado pela ONU, em 2019, a poluição do ar é “um assassino silencioso” que mata 7 milhões de pessoas por ano ao redor do planeta e atinge mais indivíduos (5,9 bilhões de pessoas) do que qualquer outra condição.

Ou seja, trata-se de uma emergência global de saúde, para a qual não temos vacinas.

As fontes de poluição são diferentes, mas seus efeitos resultam igualmente mortais: asma, bem como outras doenças respiratórias e doenças cardíacas estão entre os danos que atingem, em especial, as crianças.

O levantamento Poluição atmosférica e saúde infantil: prescrevendo ar limpo aponta que 93% das crianças do mundo respiram um ar com níveis de poluição acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Crianças e adolescentes, mais sensíveis

A má qualidade do ar é mais perigosa para crianças e adolescentes pela sua condição especial de desenvolvimento: diversos órgãos, como o pulmão e o cérebro, além do sistema imunológico, ainda estão em formação.

Por terem características metabólicas, fisiológicas e comportamentos diferentes dos adultos, as crianças e adolescentes são especialmente sensíveis às alterações no meio ambiente em que vivem, o que inclui o ar que respiram.

Em comparação com os adultos, por exemplo, as crianças respiram 50% mais ar por quilograma de peso corporal. O fato de passarem mais tempo ao ar livre e se envolverem em um nível maior de atividades físicas também aumenta essa exposição.

As crianças costumam, ainda, colocar mais as mãos na boca e ficar mais próximas do chão, onde muitos poluentes se acumulam, em especial pela proximidade de escapamentos de veículos.

A poluição do ar é especialmente danosa durante o desenvolvimento fetal e os primeiros anos de vida, provocando baixo peso ao nascer e nascimento prematuro, entre outros problemas. Esse tipo de exposição prejudica ainda o desenvolvimento do cérebro, levando a deficiências cognitivas e motoras, colocando as crianças também em maior risco de doenças crônicas ao longo da vida. 

Pesquisa publicada na revista científica Environmental Research sugeriu que a exposição à poluição durante a gravidez e a infância pode ser um fator determinante para o aprendizado acadêmico no futuro.

Queimadas e despesas com saúde

O termo “poluição do ar” se refere a uma mistura complexa de gases e de micropartículas que são liberados, em sua grande maioria, por atividades como a queima de combustíveis fósseis, as queimadas e por processos industriais. As queimadas na Amazônia, por exemplo, aumentam os problemas respiratórios e elevam os gastos do sistema de saúde. 

Nota conjunta do WWF e da Fiocruz revela que, “entre janeiro de 2010 e outubro de 2020, foram registradas 1.252.834 internações hospitalares por doenças do aparelho respiratório para todos os Estados analisados” e que “o Sistema Único de Saúde (SUS) arcou com despesas em saúde de aproximadamente 1 bilhão de reais com hospitalizações decorrentes das altas concentrações de poluentes atmosféricos.

Livre para brincar lá fora

Poluição do ar: outro inimigo invisível, para o qual não temos vacina
A bolha cinza gigante, instalada no Parque Ibirapuera e na Praça dos Arcos, em São Paulo,
marcou o lançamento do movimento ‘Livre para Brincar Lá Fora’ / Foto: Felipe Gabriel

Para combater esse inimigo invisível, o programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, lançou, em aliança com o Parents for Future (movimento de famílias que apoiam os jovens em suas ações e reivindicações para conter a crise climática), a campanha global de conscientização e mobilização Livre para Brincar Lá Fora (Free to Play Outside).

Como o Conexão Planeta noticiou, aqui no site, a largada aconteceu com a instalação, em São Paulo, de uma bolha cinza gigante, que circulou pelo Parque do Ibirapuera e pela Praça dos Arcos na semana passada, com a intenção de tornar a poluição do ar e suas consequências sobre a saúde mais visíveis para todos.

A ideia é engajar pais, mães e responsáveis do mundo inteiro para agir conjuntamente. Por enquanto, 15 países participam do movimento. Agora, também o Brasil.

Soluções possíveis

Entre as possíveis soluções para o problema, uma bem importante é que governos locais e nacionais invistam em monitoramento e melhoria da qualidade do ar. A adoção dos padrões de qualidade do ar da OMS, nesse sentido, é fundamental.

No Brasil, há 32 anos, o Programa Nacional de Controle da Qualidade do Ar (Pronar) foi responsável por definir quais são os poluentes atmosféricos que devem (ou deveriam) ser monitorados nos estados e cidades, mas, como revelou a pesquisa do Instituto Saúde e Sustentabilidade (ISS), 20 dos 27 estados brasileiros ainda não realizam medições ou o fazem de forma ineficiente.

Outra medida importante é prevenir e conter desmatamentos e queimadas, bem como manter o prazo acordado, de 2022/2023, para a implantação do Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), acordado em 2018.

Esse programa prevê a redução das emissões de poluentes de veículos comerciais pesados a diesel. Vale destacar que, segundo o ICTT – International Council on Clean Transportation, cada ano de atraso na implantação desse programa é responsável por cerca de 2.500 mortes anuais.

Prioridade absoluta

Nossa Constituição Federal assegura, no artigo 225, que “todos têm direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, um bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida” e que é dever de todos, “poder público, empresas e sociedade, defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”

Fica aqui nosso convite para você fazer parte deste movimento e garantir, como também determina a nossa Carta Magna, com absoluta prioridade, o direito das crianças e adolescentes à vida e à saúde.

Queremos que nossas crianças sejam livres para brincar lá fora e poder respirar sem riscos à saúde! Acesse o site Free To Play Outside e venha com a gente.

Edição: Mônica Nunes

Foto (destaque) Mladen Borisov/Unsplash

Angela Barbarullo

Coordenadora do Projeto Justiça Climática e Socioambiental, do Programa Criança e Natureza, do Instituto Alana. Advogada, formada pela PUC/SP e auditora especializada em direito ambiental pelo Institute of Environmental Management & Assessment/UK. MBA em Gestão Ambiental e Mestre em Engenharia e Tecnologia Ambiental pela Universidad de León, Espanha. Membro da Comissão de Meio Ambiente e de Direitos Humanos da OAB/SP.

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