Polícia Federal abre investigação sobre importação e morte de girafas do Bioparque e ONGs entram com ação na justiça por mais esclarecimentos

Polícia Federal abre investigação sobre importação e morte de girafas do Bioparque e ONGs entram com ação na justiça por mais esclarecimentos

*Atualizado às 21h30
No final da quarta-feira (26/01), a Polícia Federal foi até Mangaratiba e apreendeu as 15 girafas que estavam no Resort Safari Portobello. Foram autuados ainda dois homens, acusados de maus-tratos aos animais. Por enquanto, o Ibama ficará responsável pelos cuidados com as girafas.
Segue texto original da matéria:

Na semana passada escrevi sobre esta tragédia que acabou na morte de três girafas importadas da África do Sul pelo Bioparque do Rio de Janeiro. Em novembro, chegaram ao Brasil 18 girafas compradas pelo zoológico. Como acontece com outras espécies, elas precisavam ser mantidas em quarentena para que houvesse certeza que estavam bem de saúde e não ofereciam risco de contaminação de doenças zoonóticas para outros bichos. Os animais foram levados para o Resort Safari Portobello, em Manguaratiba, no sul do estado, para permanecer lá em isolamento. Todavia, no dia 14 de dezembro, seis deles fugiram do espaço onde estavam tomando sol, quebrando cercas da propriedade. Durante a noite, as girafas foram recapturadas, mas três morreram.

Desde que o assunto se tornou público, descobriu-se também que as demais girafas estão sendo mantidas em recintos que organizações de proteção animal afirmam não ser adequados. São três indivíduos juntos em espaços de 40 m2. De acordo com a Ampara Silvestre, uma instrução normativa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) estabelece que em zoológicos, para duas girafas são necessários 600m2, além de enriquecimento ambiental, como vegetação abrigo.

Após a morte das três girafas, o restante do grupo não voltou mais à área externa dos recintos. Segundo a assessoria de comunicação, alguns dos animais deverão ir para o Rio de Janeiro ainda no primeiro semestre de 2022. “Contudo, a data só será definida após a total adaptação dos mesmos”, ressalta.

Mas agora tanto a Polícia Federal (PF) como o Ministério Público Federal (MPF) receberam denúncias sobre o caso e começaram uma investigação. Além delas, a Ampara Silvestre, o Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal e a ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais entraram com uma ação na justiça do Rio solicitando maiores esclarecimentos sobre o ocorrido e também, o processo de importação das girafas.

Polícia Federal abre investigação sobre importação e morte de girafas do Bioparque e ONGs entram com ação na justiça por mais esclarecimentos

Recintos onde as girafas estão sendo mantidas em Mangaratiba

O Bioparque faz parte do Grupo Cataratas, que ganhou as concessões para a exploração do antigo Zoológico Municipal do Rio de Janeiro. Em nota, a empresa alega que “o grupo de girafas veio de um local autorizado para manejo sustentável e desenvolvimento comunitário com essas espécies na África do Sul. A instituição foi devidamente aprovada pelos órgãos competentes brasileiros e sul-africanos”.

Ainda segundo o texto divulgado pela assessoria de comunicação do Grupo Cataratas, “foi assumido o compromisso de sermos os coordenadores no Brasil do Grupo de Trabalho para os esforços de conservação ex-situ da girafa pela Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (AZAB). Neste papel, o Bioparque liderará as pesquisas e projetos de conservação da espécie no país, com foco principal no desenvolvimento de técnicas utilizando a genética e a tecnologia da reprodução para o aumento do número de indivíduos da espécie”.

Entretanto, de acordo com a Associação de Aquários e Zoológicos do Brasil, não existe um Plano Nacional de Conservação da Espécie e por isso, as girafas não deveriam ter sido trazidas ao país.

“O plano tem que estar estabelecido com as diretrizes básicas, o que fazer com essa população que já está aqui, quem que vai parear com quem, quais são os objetivos. E se houver essa necessidade de nesse momento trazer indivíduos de fora, tem que estar acusado dentro do plano, e nesse momento nós não temos o plano. Nós não concordamos em tirar animais da natureza, ponto. Se a gente não sabe o que tem em cativeiro e se a gente não sabe ainda o diagnóstico, não tem porque trazer”, disse Mara Cristina Marques, presidente da entidade à reportagem do Jornal Nacional.

Questionado sobre a abertura da investigação do MPF e da PF sobre o caso e a ação das organizações, o Bioparque não se pronunciou.

As girafas (Giraffa Camelopardalis) são os mamíferos terrestres mais altos da Terra. Os machos podem ter até 5 metros de altura. Infelizmente, desde 2016 elas foram incluídas na Lista Vermelha de animais ameaçados de extinção da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês). Entre 1985 e 2015, sua população foi reduzida em cerca de 40%, passando de 163.452 mil indivíduos para 97.562 mil.

Nativas de cerca de 15 países africanos, as girafas são caçadas por sua pele e carne. No passado, era comum observar grupos de 20 a 30 animais na natureza, mas agora, eles são bem menores, com aproximadamente seis indivíduos.

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Fotos:  Carol M. Highsmith on @rawpixel (abertura) e reprodução reportagem Jornal Nacional

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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