Podemos viver saudáveis em um planeta doente?

Eu, Rita, e Ana Carol, do programa Ser Criança é Natural, que dá nome a este blog, amamos a natureza e nos dedicamos a estimular as pessoas a desenvolverem uma convivência harmoniosa com os demais seres vivos. O que chamamos de natureza, as plantas, as rochas, os animais, os rios, o mar, todos os seres que compõem o nosso mundo são tão belos, tão maravilhosos que, sem o contato com eles, deixamos de desenvolver em nós a capacidade de nos encantar, de nos maravilhar, de nos sentirmos um espelho do outro.

No entanto, sabemos que nosso planeta está doente. Sabemos que nosso modo de vida ameaça cada vez com mais violência as diferentes formas de vida. Não é preciso ter uma sensibilidade ecológica para se horrorizar com a imensa quantidade de embalagens flutuando nos oceanos e ameaçando a vida marinha; com as inúmeras doenças decorrentes da poluição, sejam respiratórias, todos os tipos de câncer, etc… sabemos até dos efeitos da poluição sonora e eletromagnética, mais invisível, mas que afeta a todos. E agora estamos vivendo, com o coronavírus, os efeitos do excesso de interconexão

Há quem diga que o planeta, em sua maravilhosa dinâmica fluida, em que todos sem exceção estão relacionados, está nos dando um alerta relativo ao nosso modo de vida. Um dos resultados desta quarentena é a resposta que a natureza está nos dando: pássaros estão voltando, tucanos são vistos em São Paulo, um lobo guará foi visto nas ruas de Volta Redonda (MG), os golfinhos voltaram a brincar e a ocupar regiões na Itália e na Colômbia, e centenas de exemplos que nos são transmitidos pelas mídias sociais.

Será que estamos ouvindo seus sinais? Será que, enquanto sociedade, estamos compreendendo que não será possível voltar ao modo de vida que tínhamos?

Para podermos futuramente conviver com intimidade com os seres mais que humanos, precisamos entender que uma coisa está associada à outra: natureza saudável e sendo explorada sem limites são contraditórios. Natureza saudável e economia baseada no consumo são contraditórios. Natureza saudável e exclusão social são contraditórios.

Quando sairmos da quarentena e voltarmos ao convívio social precisamos estar prontos para criar novos modos de vida (e precisamos ir criando-os desde já), mais colaborativos e mais autônomos e, ao mesmo tempo, nos tornarmos cada vez mais independentes do consumo, do capital, de todos os produtos que fazem feridas profundas no corpo da Terra para sua produção.

Esperamos que, durante a quarentena estejamos todos nos preparando para viver em um novo mundo pois, lembrando o que o cientista Átila Iamarino disse, no Programa Roda Viva, de 30 de março: após o coronavírus o mundo não voltará a ser o que era.

Sendo assim, o que estamos dizendo pras nossas crianças sobre esse período? Que tudo vai passar logo pra voltarmos à rotina habitual ou que estamos aprendendo e nos transformando a cada dia, e que cada dinâmica nova criada dentro de casa com as crianças pode vir a ser, se for boa, o embrião de um novo jeito de viver?

Nas palavras do Papa Francisco, como podemos viver saudáveis num planeta doente? O coronavírus está pedindo que façamos a cura, simultânea, única, do planeta e de nós mesmos!

Foto: Rodolfo Sanches Carvalho/Unsplash


Rita Mendonça

Bióloga e socióloga, é autora dos livros “Como Cuidar da Natureza” e “Conservar e Criar”, sócia-diretora do Instituto Romã. Ministra cursos, vivências e palestras para aproximar as pessoas do ambiente natural. Acredita que a criança é a natureza se tornando humana e, por isso, precisa conviver com ela para seu desenvolvimento sadio e integral.

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