Um Prêmio Nobel da Paz para pesquisadores da biodiversidade?

Neste momento de profunda destruição ambiental e de negação da Ciência, em parte considerável do planeta, a indicação da Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services ou IPBES ao Prêmio Nobel da Paz deste ano é bastante auspiciosa.

No Brasil, além das mudanças climáticas, os ataques ao meio ambiente ganharam força com as politicas anti-ambientais implementadas pelo governo Bolsonaro que levaram ao desmatamento e aos incêndios recordes na Amazônia e, consequentemente, à seca que castiga o Pantanal e o Cerrado, que estão em chamas.

Mas esse cenário, sabemos, não é privilegio nosso.

Em meados de setembro, o quinto relatório do panorama global da biodiversidadeGlobal Biodiversity Outlook 5 (GBO-5) – elaborado pela Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CDB), divulgou que, das 20 metas globais (Metas de Aichi) definidas em 2010, na Convenção de Biodiversidade da ONU, por 193 países (incluindo o Brasil), que envolviam ações concretas para deter a perda da biodiversidade global até 2020, apenas seis foram parcialmente alcançadas.

(nessa época, o Brasil era protagonista nos debates sobre biodiversidade e, por isso, muito respeitado e ouvido… bons tempos)

Como se não bastasse, na semana passada, durante o United Nations Summit on Biodiversity (Encontro das Nações Unidas pela Biodiversidade), líderes de 76 países, além dos integrantes da União Europeia, assinaram compromisso voluntárioLeaders’ Pledge for Nature (Compromisso de Líderes pela Natureza) – para reverter a perda de biodiversidade no mundo até 2030.

O governo brasileiro não assinou o documento, se juntando a outros países retrógrados nessa questão: os Estados Unidos, a Austrália, a China, a Rússia e a Índia.

Mais um detalhe: estamos num ano de pandemia. Epidemias e novas doenças estão totalmente relacionadas com conservação ambiental, com a maneira como lidamos com a natureza, com os animais.

Por tudo isso, só a menção da plataforma pela imprensa internacional – como a IPBES contou em seu Twitter e o BPBES repercutiu na mesma rede social – já é motivo de celebração.

O que representa a Plataforma?

A Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services ou IPBES foi criada em 21 de abril 2012, na cidade do Panamá, por 94 governos, incluindo o do Brasil, e é um órgão independente.

Sua missão é fortalecer a relação entre Ciência e Política com o intuito de promover a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos para “a conservação e o uso sustentável da biodiversidade, o bem-estar humano a longo prazo e o desenvolvimento sustentável“. Bela missão!

Vale ressaltar que a IPBES não faz parte da ONU, mas, desde 2013, recebe apoio do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Ambiente na execução de serviços de secretariado.

No Brasil o órgão – Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos ou BPBES – é composto por pesquisadores comprometidos em “produzir sínteses do melhor conhecimento disponível pela ciência acadêmica e conhecimentos tradicionais sobre biodiversidade, serviços ecossistêmicos e suas relações com o bem-estar humano”, como destaca seu site. Na presidência da Plataforma está o professor Carlos Alfredo Joly, da Unicamp.

Candidatos de peso

Ainda não há confirmação, já que a lista dos concorrentes permanece em sigilo até a divulgação do vencedor, o que, neste caso, ocorrerá em 9 de outubro.

Este ano, o prêmio de US$ 1 milhão – talvez o maior do planeta – está sendo disputado por 318 inscritos, sendo 211 pessoas e 107 organizações, e pode ser dividido por até três indicados. O nome – ou nomes! – só será conhecido em 9 de outubro.

Na “disputa” estão o cacique Raoni (como já contamos aqui), a ativista climática Greta Thunberg (que disputou no ano passado também, como Raoni) e seu movimento Fridays for Future.

E não só, claro. Muitos ativistas pelos direitos humanos estão indicados como Julian Assange (Wikileaks), Chelsea Manning (ex-oficial transexual condenada por repassar ao WikiLeaks documentos confidenciais do governo dos EUA), Edward Snowden (parceiro de Assange). Também a ativista saudita presa Loujain al-Hathloul e “o povo de Hong Kong” (12 cidadãos de Hong Kong que, em agosto, foram presos pelas autoridades chinesas no mar quando tentavam chegar a Taiwan).

Vale lembrar que o comitê do Nobel já escolheu ambientalistas para receber o tão desejado prêmio. Em 2004, o primeiro reconhecimento foi para a queniana Wangari Maathai por sua campanha de plantio de 30 milhões de árvores na África. Em 2007, Al Gore (ex-vice-presidente dos Estados Unidos e ativista climático) e o IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas foram os agraciados.

Paz e Ciência

Logo que tomou conhecimento da indicação da IPBES ao Nobel da Paz, a secretária-executiva da IPBES, Anne Larigauderie, divulgou carta para seus integrantes, publicada no site da instituição.

Reproduzo, abaixo, “a resposta da IPBES à possível indicação ao Prêmio Nobel da Paz:

“Fomos informados de notícias na mídia que mencionam a IPBES como tendo sido nomeada para o Prêmio Nobel da Paz 2020. Caso estes relatórios se mostrem corretos, tal nomeação dever-se-á inteiramente ao trabalho incansável, nos últimos seis anos, dos milhares de especialistas que contribuíram tão livremente ao IPBES com o seu tempo, energia e conhecimento, bem como ao apoio dos nossos 137 Estados membros, garantindo a aceitação e o impacto deste trabalho, reforçado pela nossa comunidade de stakeholders e colaboradores.

Em outras palavras – caso o IPBES tenha sido indicado para este prêmio – o crédito vai para você!.

Nosso entendimento do processo de nomeação é que ele permanece confidencial, a menos que aqueles que fizeram as nomeações confirmem publicamente que o fizeram – o que, até onde sabemos, ainda não é oficialmente o caso da IPBES.

Os laureados com o Prêmio da Paz são então selecionados por maioria de votos do Comitê do Nobel da Noruega e serão anunciados em 9 de outubro de 2020.

Até mesmo ser indicado para o Prêmio Nobel da Paz seria um reconhecimento proeminente da importância de uma melhor ciência e conhecimento especializado para decisões sobre biodiversidade – em um momento em que o valor da experiência e das evidências está sob ataque sem precedentes. Também seria um valioso reconhecimento do fato de que nossa paz e segurança dependem muito diretamente das contribuições da natureza para as pessoas.

O momento desta notícia também é significativo – em meio a uma crise de saúde global diretamente relacionada à nossa relação cada vez mais desgastada com a natureza e com a Cúpula das Nações Unidas sobre Biodiversidade a apenas algumas horas de distância – levando às negociações globais no próximo ano para uma nova estrutura de biodiversidade para 2030 e além.

Mesmo notícias não confirmadas dessa natureza são ao mesmo tempo humilhantes e gratificantes.

Gostaria de aproveitar a oportunidade para agradecer novamente pelo forte apoio ao trabalho do IPBES. Independentemente de nomeações e prêmios, o fortalecimento da base de conhecimento para políticas e ações mais bem informadas permanece entre as prioridades para o futuro sustentável que desejamos – para as pessoas e a natureza.

Com calorosos cumprimentos pessoais,
Anne Larigauderie
Secretaria Executiva

Foto: João Marcos Rosa/Floresta Nacional dos Carajás

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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