‘Pisar suavemente na terra’: documentário é um emocionante grito de urgência que ecoa em nossa consciência

Há filmes que, simplesmente, passam na tela à nossa frente. Outros, permanecem com a gente. Assim é com o documentário Pisar Suavemente na Terra, que estreia hoje, 29/10, na 46ª Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo – terá mais uma exibição em 2/11. E segue para o Rio de Janeiro, se apresentando no FilmAmbiente, em 5/11.

O filme traz o relato pungente de três lideranças indígenas da Amazônia, duas no Brasil e uma no Peru. São histórias de enfrentamento, resistência e sobrevivência. Registros de uma guerra secular em defesa de seus espaços e tradições em harmonia com a natureza. Uma natureza sistematicamente ameaçada, violada e aviltada por uma cultura predatória em nome do desenvolvimento.

No momento em que se verifica o desmonte da política ambiental promovido pelo atual governo  brasileiro – que facilitou o garimpo ilegal, a mineração e o desmatamento recorde em áreas protegidas –, o documentário é um emocionante grito de urgência que ecoa em nossa consciência.

Pisar Suavemente na Terra é produzido e dirigido pelo brasileiro Marcos Colón. Filho de mãe brasileira e pai norte-americano de origem porto-riquenha, ele é doutor em Estudos Culturais pela Universidade de Wisconsin-Madison e professor da Universidade Estadual da Flórida, nos Estados Unidos, onde reside.

Colón também dirigiu e produziu o longa documental Beyond Fordlândia (2018), um relato ambiental da aventura do empresário norte-americano Henry Ford na Amazônia.

Depoimentos

O documentário tece o entrelaçamento de depoimentos de três lideranças amazônicas.

Cacica Kátia, do povo Gavião, cacique Manoel Munduruku, José “Pepe” Manuyama, do povo Kukama, do Peru, e o pensador e líder indígena brasileiro, Ailton KrenakFotos: divulgação

Tônkyré Akrãtikatêjê (Katia Silene Valdenilson), primeira líder feminina da etnia Gavião Akrãtikatêjê, reconta o deslocamento forçado de seu povo durante a ditadura militar em função da construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará. Ela e os Akrãtikatêjê moram, hoje, na Terra Indígena Mãe Maria, próximo de Marabá (PA), para onde foram levados compulsoriamente.

“O mundo do branco é diferente do nosso mundo. Hoje, querendo ou não, nós temos que socializar. Nós temos que aprender para enfrentar esse mundo, que nada nos favorece. Não somos incluídos nos planejamentos do Estado, do governo. Mas o próprio governo, o Estado, estava por trás quando destruiu a nossa terra, destruiu a nossa aldeia. Não pensou em nós. Nunca vai pensar”, afirma.

Cacique Manoel Munduruku, liderança indígena da Aldeia Ipaupixuna e coordenador do Conselho Munduruku do Planalto, representa quatro aldeias do povo Munduruku e um território do povo Apiaká.

Sua base é Santarém (PA), onde está localizado o Terminal da Cargill, multinacional de produção e processamento de alimentos e maior exportadora de soja e milho do Brasil. Munduruku conta que o terminal foi construído onde antes era uma aldeia indígena. “Para nós é uma situação complexa. Porque a gente lutou tanto contra esse grande empreendimento e hoje está aqui instalado”, lastima.

Como se não bastasse, a empresa está agora com projeto de construção de um novo porto de embarque e desembarque de soja dentro do Lago do Maicá, um santuário ecológico, berçário natural de diversas espécies, na beira do rio Amazonas. “Vai ser outra destruição, vai ser outra poluição”. 

José “Pepe” Manuyama, também conhecido como o Homem da Água, é professor de origem indígena Kukama. Ele faz parte do Comitê em Defesa da Água, da cidade de Iquitos, no Peru. Junto a milhares de cidadãos, participa da defesa do rio Nanay, um afluente do rio Amazonas, que fornece água potável para 500 mil habitantes.

“Este rio nos dá madeira redonda para construir casas. Este rio nos dá alimentação, porque daqui se tiram muitos peixes. Este rio nos dá praias lindas, de areia branca. Este rio nos dá um ecossistema maravilhoso”, relata Manuyama ao tocar, carinhosamente, a superfície da água com a ponta dos dedos. No entanto, as águas escuras do Nanay estão sendo poluídas por atividades de mineração.

“Este lindo rio, extraordinário, tão bondoso em riquezas, está sendo contaminado por dragas que estão despejando mercúrio, um dos metais mais tóxicos, (…) contaminando as águas, contaminando os peixes”. Um crime ambiental que coloca em risco a saúde de meio milhão de pessoas. 

Dança das palavras

Permeando os depoimentos, estão as falas de Ailton Krenak, uma das maiores lideranças do movimento indígena brasileiro. Ambientalista, filósofo e professor da etnia Krenak, ele é autor de livros como Ideias para adiar o fim do mundo. Com sua dança das palavras, Krenak emprega ao filme uma voltagem ética e poética. Inspira reflexão. Transborda sabedoria.

Ailton Krenak na beira do rio Watú, conhecido pelos brancos como Rio Doce, afetado em 2015 pela lama tóxica da Samarco (joint-venture entre a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton, duas das maiores mineradoras do mundo) / Foto: Marcos Colón

O futuro é ancestral. Ele é tudo que já existiu. Ele não é o que está lá em algum lugar. Ele é o que está aqui. Ele é presença. Porque a vida só está em mim agora. Depois ela não vai estar mais aqui. É preciso perseverar num modo de estar no mundo que é pisar suavemente na Terra”, sugere, emprestando ao documentário o título do filme.

Krenak nos convida a sonhar com uma realidade alternativa, em que pessoas educadas pela floresta desejam um outro mundo, um mundo que produz possibilidade de afeto entre humanos e não humanos.

“A gente não veio ao mundo para comer o mundo. A gente veio para dançar a vida. (…) A gente tem que aprender com a Terra. Aprender a escutar a Terra. Aprender a lição da Terra.” 

Pisar Suavemente na Terra é um filme potente. Tomara possa mudar o mundo. 

A seguir, assista ao trailer do documentário. E acompanhe sua trajetória pelo Instagram.

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Foto (destaque): Marcos Cólon

Edição: Mônica Nunes

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Geraldo Cantarino

Jornalista, com mestrado pela Universidade de Londres, é autor de quatro livros publicados pela Mauad X