Pessoas sem-teto, em Ulm, Alemanha, ganham cápsulas com isolamento térmico para se abrigar do frio intenso

Enquanto a prefeitura de São Paulo instalava paralelepípedos embaixo de viadutos na Zona Leste, para impedir que pessoas em situação de rua continuassem dormindo ali, a prefeitura da cidade de Ulmno oeste da Baviera, à margem direita do rio Danúbio, na Alemanha -, oferecia um abrigo confortável para os sem-teto, que estão muito vulneráveis ao frio. Empatia pura, que chama, né?

É sabido que algumas pessoas em situação de rua não se adaptam aos abrigos públicos devido a vários motivos. O principal deles é o regulamento rígido (como acontece aqui): quem mora em abrigos, não pode ter animais de estimação, por exemplo, e tem horário pra tudo. Além disso, não são permitidas pessoas envolvidas com drogas, nem pessoas que não possam comprovar sua residência formal na cidade.

Almas livres não se sentem identificadas com esse cenário de tantas imposições e leis, por mais que seja difícil viver na rua.

Há também outras questões mais complicadas como problemas mentais que impedem que essas pessoas fiquem em uma sala com muitas outras pessoas e o medo da violência que, sim, pode ocorrer num ambiente fechado, talvez de forma ainda mais ameaçadora.

Por isso, a prefeitura lançou um desafio para os integrantes do projeto Wilhelmsbüro: criar uma solução para os moradores de rua em 48 horas!

Como o projeto foi desenvolvido

O projeto Wilhelmsbüro faz parte do projeto Stürmt die Burg (Invadir o Castelo, em tradução livre), que visa revitalizar o entorno do centenário Wilhelmsburg de Ulms, o castelo de Wilhelms, e reúne três start-ups: o bureau de design Bootschaft, os desenvolvedores de software/hardware Widerstand und Söhne e o desenvolvedor de produtos digitais Florian Geiselhart

Seis pessoas integraram a equipe interdisciplinar do projeto: designers, cientistas da computação nas áreas de automação, desenvolvimento de hardware, desenvolvimento de software e engenharia de usabilidade.

Com a força-tarefa, eles também tinham a intenção de transformar o castelo num futuro e promissor local para start-ups e pequenas e inovadoras empresas que pudessem atender a profusão de “problemas” apresentados por cidadãos, empresas e instituições ao longo de cinco semanas. O abrigo móvel era um deles.

E assim foi desenvolvida o projeto Ulmer Nest (Ninho de Ulm, em tradução livre), uma cápsula em formato de casulo, com design futurista, na qual cabem duas pessoas ou uma pessoa e seu cachorro, por exemplo. Com um detalhe: o protótipo ficou pronto em apenas 36 horas!

Segurança, integração e tecnologia

No site do projeto, os profissionais envolvidos no desenvolvimento do projeto contaram que desconheciam as particularidades que envolvem a vida das pessoas que moram nas ruas.

“Nenhum de nós tinha qualquer experiência real com o tema dos sem-teto. Então, nossa primeira tarefa foi pesquisar e coletar informações de tantas perspectivas quanto possível sobre a questão”.

Então, para iniciar a primeira etapa do projeto, conversaram com moradores de rua, cidadãos e também com os responsáveis pelo departamento social (como Franziska Vogel, que foi quem nos apresentou a ideia da cidade de Ulm; e Sabine Schwarzenböck, que o aprovou), pelo trabalho social móvel, pelo abrigo local DRK e pelo escritório de ordem pública da cidade.

Todos aparecem no vídeo que você pode assistir no final deste post (com legendas em inglês).

O projeto ainda contemplou questões como o uso provisório de espaços vazios, vilas de contêineres onde as cápsulas podem ser instaladas e plataformas online para conectar pessoas necessitadas com voluntários.

“Ficou claro que tínhamos que colocar nosso foco nas pessoas que não podem usar as medidas atuais de proteção contra o frio. Queríamos criar algo que os ajudasse a não serem mais forçados a dormir ao ar livre e arriscar suas vidas”.

Logo, os criadores da cápsula chegaram a uma maquete de madeira, declarando que ela deveria ser respaldada por tecnologias modernas para que se tornasse segura e integrada aos processos já existentes de atendimento aos sem-teto.

Energia solar, isolamento térmico e wi-fi

Em março de 2019, o protótipo foi apresentado aos cidadãos e moradores sem-teto de Ulm, na Praça de Munique, para que todos pudessem experimentar e declarar suas impressões, e ajustes pudessem ser feitos.

Produzida em aço e madeira, a cápsula é alimentada por energia solar, à prova de água e de vento e oferece conexão wi-fi, com total privacidade.

No início deste ano, as cápsulas instaladas em ruas e parques receberam importante upgrade tecnológico para que seus moradores possam driblar o frio intenso, com mais conforto: isolamento térmico.

Além disso, todas as unidades têm comunicação direta com a organização que lidera o projeto social, para que seus usuários possam requisitar serviço de limpeza e de reparos, sempre que necessário.

Inspiração

Trata-se de um projeto muito especial, desenvolvido para atender as necessidades das pessoas em situação de rua de Ulm, de acordo com as possibilidades físicas, financeiras e humanas da cidade, mas que pode ser adaptado às condições de outras cidades pelo mundo.

Espero que, um dia, este projeto sirva de inspiração para prefeituras brasileiras, como a de São Paulo, que prefere mandar instalar pedras e outros obstáculos em locais públicos para evitar que os sem-teto se instalem ali. Ou agredi-los e retirar seus pertences para intimidá-los, como já aconteceu na gestão anterior do atual prefeito paulistano e de seu antecessor.

Em São Paulo, protesto pacífico

Enquanto isso não acontece, apoiemos o Padre Júlio Lancelotti que tem dedicado sua vida ao amparo e à proteção das pessoas que vivem nas ruas de São Paulo e não se cansa de protestar e de denunciar – por meio de seu perfil no Instagram – decisões arbitrárias.

Esta semana, depois de divulgar a medida cruel tomada pela prefeitura – que colocou pedras debaixo de um viaduto na zona leste da capital -, Padre Júlio acompanhou sua retirada no dia seguinte, durante a qual realizou um ato simbólico, dando marretadas em algumas delas.

Em seguida, convidou a população a deixar flores no lugar das pedras em protesto contra essa violência em um encontro pacífico – Protesto das Flores – que será realizado amanhã, sábado, a partir das 15h no mesmo local. Conto tudo em outro post.

Agora, assista ao vídeo sobre o projeto de Ulm, em alemão, mas com legendas em inglês (que precisam ser acionadas). E acompanhe sua página no Facebook.

Fotos: Divulgação/Ulmer Nest

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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