Pesquisadores identificam novas espécies de plantas carnívoras na Amazônia, já ameaçadas pelo fogo e pelo desmatamento

O Brasil tem a maior diversidade de plantas do mundo e, também, é um dos países tropicais que mais documenta sua flora. Centenas de novas espécies são descritas todos os anos e ainda existe um vastíssimo território a ser explorado e estudado para que se possa compreender melhor a real dimensão de sua biodiversidade.

Na Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, estão concentradas grandes áreas remotas, de difícil acesso. Hoje, há pouquíssimas coleções científicas e inventários de espécies do bioma em herbários – se comparado com outros biomas pelo país – e 40% de sua área total ainda está muito pouco estudada. Sobre regiões de vegetação aberta, esse conhecimento é ainda mais escasso.

Ao mesmo tempo, o avanço do desmatamento e dos incêndiosincentivados pelo afrouxamento das leis ambientais promovido pelo governo – pode estar causando a extinção de milhares de espécies de plantas que ainda não foram descritas ou, ao menos, coletadas. 

Foi pensando nisso que, em junho do ano passado, pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi e do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável, ambos de Belém, decidiram realizar uma expedição de campo pela região de Campos do Ariramba, localizada numa unidade de conservação – a Floresta Estadual de Trombetas -, na confluência dos rios Tapajós e Maicuru, no Pará.

A pesquisadora Caroline Oliveira Andrino em campo, coletando espécies
Foto: Rafael Gomes

“Nosso objetivo era inventariar melhor a área na qual foram realizadas muito poucas coletas. Isso nos incentivou a conhecer a flora dessa parte da vegetação da Amazônia”, conta Rafael Gomes, pesquisador do Instituto Tecnológico.

“Como a expedição faz parte de um grande projeto, coletamos todas as plantas que encontramos com flores e frutos. Para realizar a classificação é preciso que elas tenham flor e fruto”, explicou. “Coletamos tudo que encontramos e, quando voltamos da expedição, trabalhamos as novas espécies em estudos separados”.

E a expedição ainda foi marcada pelo apoio de moradores locais: “Nessa região, existe uma comunidade de famílias maravilhosas – Comunidade de Jaramacaru -, que se preocupam com conservação, que vivem da floresta, que vivem da coleta da castanha, que cuidam da região, e nos acolheram durante o período da coleta”. Veja onde fica, no mapa abaixo.

Depois de seis décadas

Em Belém, ao iniciar os estudos, os cientistas identificaram diversas espécies desconhecidas, entre elas duas plantas carnívoras da espécie Utricularia, que batizaram em homenagem a dois rios rios próximos do local onde foram descobertas: Utricularia ariramba e Utricularia jaramacaru

Com um detalhe: no herbário do Museu, eles também encontraram amostras das duas espécies armazenadas, que foram coletadas há mais de 60 anos, mas nunca identificadas!

Utricularia ariramba – Foto: Daniela Zappi

Herbários são como museus de plantas, onde ficam armazenadas plantas desidratadas (secas) colhidas na natureza por botânicos e outros pesquisadores, formando uma coleção botânica destinada à pesquisa sobre sua origem e classificação taxonômica e florística.

“O herbário guarda as plantas desidratadas e secas que a gente traz do campo para estudar. Quando voltamos e começamos a pesquisar o que coletamos, comparamos com as amostras armazenadas. Foi assim que descobrimos que essas plantas já haviam sido coletadas há tanto tempo! Como ninguém se dedicou a elas nesse período, não foram descobertas, ou seja, não foram descritas“, destaca Gomes. 

Para aprofundar a pesquisa sobre elas, o especialista em carnívoras Paulo Gonella, da Universidade Federal de São João Del-Rei, Minas Gerais, foi convidado a se juntar ao grupo e confirmou que as amostras coletadas eram iguais às do herbário.

“Só conseguimos descobrir isso graças à expedição à essa região remota, que reforça a importância dos herbários não só como repositórios de espécies, mas como guardiões dessa informação. Existem espécimes guardados em herbários há mais de 200 anos, que detêm dados sobre o lugar onde ocorrem essas plantas, suas características. E isso é extremamente importante, é fundamental para nós que trabalhamos com botânica. Para estudos sobre o passado, o presente e o futuro“.

Sobre as Utricularias descobertas, ele revela que “as duas espécies possuem estruturas subterrâneas chamadas de utrículos ou pequenas bolsas, que são armadilhas que capturam pequenos animais que vivem no solo ou na água. Essas armadilhas se assemelham a pequenas vesículas que ficam tensionadas à espera das presas. Quando um animal se aproxima, a armadilha se abre através de uma pequena válvula, impulsionando uma corrente de água para dentro do utrículo que traz junto pequenos organismos”.

Agora, Utricularia ariramba e Utricularia jaramacaru estão devidamente identificadas!

Utricularia jamacaru – Foto: Daniela Zappi

Sua descoberta foi descrita no artigo Hidden biodiversity of Amazonian white-sand ecosystems: two distinctive new species of Utricularia (Lentibulariaceae) from Pará, Brazil, publicado em 4 de dezembro na revista científica internacional Phytokeys.

Assinam o artigo: Paulo Minatel Gonella (Universidade Federal de São João del-Rei, Sete Lagoas, MG); Rafael Gomes Barbosa Silva e Caroline Oliveira Andrino (Instituto Tecnológico Vale e Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém); Andreas S. Fleischmann (Coleção Estatal Botânica de Munique, Alemanha); Daniela C. Zappi (Instituto Tecnológico Vale, Belém, e Universidade de Brasília); e Paulo Cesar Baleeiro (Universidade de Queensland, Brisbane, Austrália).

Desmatamento, incêndios e turismo

Vegetação onde as novas espécies de plantas carnívoras amazônicas ocorrem
Foto: Rafael Gomes

Gomes contou que, para escolher o local da expedição, o grupo pesquisou a região por satélite. “Identificamos a área que nos pareceu ter uma vegetação interessante, mas, quando chegamos lá, verificamos que a coloração que nos chamou a atenção nas imagens de satélite, na verdade, era resultado de queimadas”.

Quando voltaram da expedição, os pesquisadores também fizeram pesquisas no sistema Prodes, do Inpe – Instituto de Pesquisas Espaciais para analisar dados recentes sobre desmatamento e entender as ameaças que as espécies descobertas sofrem e podem vir a sofrer. E o que chamou a atenção foi que elas estão potencialmente ameaçadas pelas queimadas na Amazônia.

Mas Gomes ainda destaca outra ameaça às duas espécies de plantas carnívoras, em particular: o pisoteio provocado pelos turistas.

A vegetação baixa propicia o avanço com carros e motos e o pisoteio sobre ela
Foto: Rafael Gomes

“Muito próximo do local onde encontramos as espécies, existe uma linda cachoeira, que tem o nome da região – Jaramacaru -, que é muito visitada pelas populações dos municípios próximos – Óbidos e Oriximiná – e também de Santarém, que fica um pouco mais distante. Como a vegetação da região é baixa, não existe floresta densa, os turistas acabam criando outros caminhos paralelos à estrada principal, destruindo espécies com seus carros e motos. Não há sinalização!”. 

E ele acrescenta: “As carnívoras, em especial, são plantas muito pequenas, de até 10 cm, como dá pra ver nas imagens, então, facilmente pisoteadas”.

Cachoeira Jaramacaru – Foto: Rafael Gomes

Carnívoras no Brasil

Paulo Gonella trabalha com plantas carnívoras há 14 anos, “desde que comecei a estudar Biologia”. Elas foram tema de suas pesquisas e do trabalho de conclusão de curso na graduação e teses no mestrado e no doutorado.

Nesse período, o pesquisador descreveu 14 novas espécies, a maioria no Brasil. E, entre elas, uma muito especial, não só pelo tamanho, mas também pelas condições em que foi encontrada: graças a uma foto publicada nas redes sociais.

Foto: Paulo Gonella

É a Drosera magnificanomeada assim por sua exuberância (veja o detalhe na foto abaixo) -, uma das maiores das Américas e a terceira maior do mundo. Medindo mais de 1,5 metro, a espécie foi fotografada em Governador Valadares (MG), em 2015.

Foto: Paulo Gonella

Na ocasião, Gonella declarou ao Correio Brasiliense: “Um dos pontos mais interessantes é que uma espécie desse tamanho passou despercebida por tanto tempo e só foi descoberta graças ao poder das redes sociais de aproximar pessoas de vários lugares. Imagine quantas outras espécies menores e menos chamativas estão por ser descobertas!” (saiba mais aqui). Ele tinha razão: só ver as Utricularias, tão pequeninas!

O especialista destaca que muita gente não sabe que existem plantas carnívoras na Amazônia, “nem sequer quantas ocorrem no Brasil”. Mas o país é o segundo no mundo em quantidade de espécies – “são 136 descritas” -, perdendo apenas para a Austrália, “onde ocorrem cerca de 230 espécies”. 

“O Brasil é extremamente rico em gêneros e espécies de plantas carnívoras, e isso se reflete também na diversidade morfológica, de formas e de armadilhas diferentes que possuem”, explica.

Minas Gerais é o estado com mais espécies registradas (68) e as regiões Norte e Sudeste são as mais ricas, com 78 e 77 espécies, respectivamente”.

Gonella conta que, no mundo, são conhecidas mais de 860 espécies de plantas carnívoras. “Esse dado está em outro recente trabalho publicado, com o qual colaborei, que indica que 1/4 dessas espécies está ameaçada de extinção“, acrescenta.

“As Utricularias têm armadilhas subterrâneas ou subaquáticas, como já contei, mas existem também outros tipos que ocorrem na Amazônia como as Droseras, que têm armadilhas colantes: são gotículas de mucilagem que ficam distribuídas na superfície das folhas e capturam pequenos insetos voadores”. 

E o pesquisador ainda descreve um outro tipo que também é natural da Amazônia, “mais associado às montanhas em forma de mesa no norte do bioma, na divisa do Brasil com a Venezuela e a Guiana – como o Monte Roraima“: é a Heliânfora, que possui armadilhas em forma de jarro, que acumula água. “Os insetos são atraídos pelo cheiro de néctar que ela exala e acabam caindo ali, morrem afogados e são digeridos nesse líquido.

Heliânfora – Foto: Andreas Ellis/Wikimedia Commons

Importante ressaltar que, na floresta amazônica, não existem plantas carnívoras porque elas precisam de ambientes abertos como savanas, que são solos pobres em nutrientes. Mas existem áreas desse tipo na Amazônia, também mais abertas como a campinarana, formada por árvores de menor porte e de caules mais finos, que cria o ambiente aberto, com bastante luz e água constante que a espécie precisa.

Elas estão presentes nos campos ruprestes, com vegetação típica das montanhas de Minas Gerais, Bahia e Goiás, com ambientes mais abertos e mais expostos, de solo bastante pobre. Em áreas úmidas, as plantas carnívoras também exibem grande diversidade.

E Gonella conclui: “A gente tem uma diversidade biológica muito grande no Brasil, não só de plantas carnívoras. O que a gente mostra com este trabalho é que essas plantinhas pequenas, que passariam despercebidas pra muita gente e, inclusive, para muitos botânicos, são parte da biodiversidade que está escondida e que corre grande risco de desaparecer graças ao avanço de desmatamento, dos incêndios, das leis ambientais que não são cumpridas…”.

“O grande destaque deste trabalho que desenvolvemos é mostrar que estamos descobrindo muitas espécies novas, que o Brasil é o país onde mais se descobre espécies novas de plantas no mundo. E que estamos correndo o risco de perder muito dessa biodiversidade sem que possamos conhecê-la graças a essas ameaças”. 

Um novo cacto

Entre as espécies coletadas pelos pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale e do Museu Emílio Goeldi, está também um cacto que nunca foi registrado no estado do Pará.

“A coleta mais próxima do Pseudorhipsalis amazonica, na Amazônia, foi registrada há mais de mil quilômetros da região onde trabalhamos. Como os registros das Utricularias, isso prova como é urgente focar e investir em estudos botânicos para que possamos conhecer melhor a flora deste bioma. Revela o quanto a Amazônia é pouco conhecida e pouco coletada. Precisamos de mais estudos, de mais botânicos, de mais taxonomistas, que são os cientistas que descrevem, estudam e classificam as espécies”, salienta Rafael Gomes. 

E esta será a espécie à qual o grupo se dedicará assim que o museu, que fechou com a pandemia, voltar às atividades. “Agora, desenvolvemos o estudo e publicamos um artigo científico sobre as Utricularias. No ano que vem, certamente publicaremos sobre este cacto”.

Fotos: Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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