Pesquisadores fazem registros inéditos em Minas Gerais do ouriço-preto, espécie brasileira muito rara e ameaçada

Pesquisadores fazem registros inéditos em Minas Gerais do ouriço-preto, espécie brasileira muito rara e ameaçada

No passado, o ouriço-preto (Chaetomys subspinosus), uma espécie endêmica do Brasil, ou seja, só é encontrada em nosso país e em nenhum outro lugar do mundo, era observado em abundância em regiões de Mata Atlântica que iam do norte do Rio de Janeiro ao sul do estado de Sergipe, passando por trechos da Bahia e Espírito Santo. Apesar de ter “preto” no nome, esse mamífero roedor, que pesa cerca de 1,6 kg, possui uma coloração marrom-acinzentada.

Infelizmente, assim como centenas de outras espécies da fauna brasileira, o ouriço-preto começou a desaparecer de nossas florestas, devido à alteração e redução de seu habit natural. Hoje ele está na categoria “Vulnerável” na Lista da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção e na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

Todavia, recentemente houve uma boa notícia para o ouriço-preto.

“Trinta e cinco anos depois da épica expedição de William Oliver e Ilmar Santos pela Mata Atlântica, atrás de primatas preguiças e ouriços endêmicos e ameaçados de extinção, cujos dados foram publicados em 1991, finalmente pudemos confirmar que o simpático e pouco conhecido ouriço-preto (que de preto não tem nada!) também habita terras mineiras”, revelou o biólogo Adriano Chiarello, que é um dos co-autores de um artigo divulgado há poucos dias numa publicação científica internacional.

A descoberta de que o Chaetomys subspinosus também pode ser encontrado em áreas de Minas Gerais se deu através de três registros ao longo das últimas duas décadas.

De acordo com Chiarello, durante a expedição no começo dos anos 90, Oliver e Santos obtiveram um único relato da possível presença da espécie em Minas, na região de Bandeira, no extremo nordeste do estado. Mas entre 2003 e 2004 e há pouco mais de um ano, pesquisadores de diversas instituições do país conseguiram confirmar as demais ocorrências: no município de Jordânia e também, em Monte Formoso. “Este último registro amplia consideravelmente a distribuição geográfica do ouriço, à oeste”.

“É um registro bem interessante. A mata fica nas águas vertentes do Vale do Jequitinhonha. É uma Mata Atlântica típica do interior, não é aquela do litoral, na qual geralmente encontramos o ouriço-preto”, explica Fabiano Melo, outro autor do artigo. “Então além de ser um registro bem para o interior do Brasil, em relação à distribuição original da espécie, é uma tipologia florestal que não estávamos acostumados a achar esse animal”.

Os pesquisadores desconfiam que o ouriço-preto possa viver em outras áreas do Vale do Jequitinhonha também.

Pesquisadores fazem registros inéditos em Minas Gerais do ouriço-preto, espécie brasileira muito rara e ameaçada

O flagrante de um ouriço-preto no município de Bandeira

Com focinho proeminente, o ouriço-preto tem espinhos curtos e cauda sem espinhos. De hábitos noturnos e solitários, alimenta-se de folhas e frutos, como o cacau. Durante o dia fica sob o dossel das árvores ou no topo de palmeiras. Quando no chão, anda lentamente e é dócil, o que o torna mais vulnerável a predadores e outras ameaças.

*Com informações adicionais do ICMBio

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*Texto alterado em 13/01/22 para corrigir a autoria de uma das citações da reportagem, que trazia incorretamente o nome do biólogo Daniel Ferraz no lugar de Adriano Chiarello

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Fotos: Helbert Sansão (abertura) e Adriano G. Chiarello (última)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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