Pesquisadores analisam impacto dos incêndios e da crise climática sobre a água e os peixes do Pantanal

Pesquisadores analisam impacto dos incêndios e da crise climática sobre a água e os peixes do Pantanal

Desde 2005 uma equipe de pesquisadores da Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat) faz um monitoramento frequente sobre as condições da água no Pantanal e os peixes da região. Eles analisam, por exemplo, o nível de oxigênio, o pH e a transparência dos rios. O levantamento é feito durante as diferentes períodos sazonais do bioma: cheia, vazante, estiagem e enchente.

Todavia, mais recentemente, os cientistas também se preocupam com um novo agravante: o impacto dos queimadas sobre a água e a vida que nela habita. Setembro foi o mês com o maior número de incêndios no Pantanal nos últimos 15 anos, um recorde histórico. Nesses nove meses de 2020, já foram destruídos quase 3,5 milhões de hectares de vegetação, mais de 20% do bioma.

O rio Paraguai, um dos maiores da América do Sul e que abastece grande parte do Pantanal, nunca antes apresentou um nível tão baixo. Este é o maior período de estiagem dos últimos 47 anos.

“Os peixes já perderam seus alimentos, as sementes e frutos das árvores. Estão também com o ambiente reduzido por causa da seca”, revela Ernandes Sobreira Oliveira Júnior, doutor em Ecologia Aquática.

Infelizmente, o problema é ainda mais grave. “Com as queimadas, há presença de cinzas na água. Lá elas atuam rapidamente na proliferação de bactérias, que vão consumir o carbono que está nas cinzas. Esse carbono é fino e de fácil utilização por bactérias. Com o oxigênio da água bastante reduzido, em contrapartida, o gás carbônico sofre um aumento significativo, uma bomba de CO2, que é, parte retido na água, e parte liberado para a atmosfera”, explica o biólogo.

“Na água, essa “bomba” pode causar a mortandade de peixes. Na atmosfera aumenta os gases de efeito estufa, e consequentemente, o aquecimento global“, diz.

De acordo com os pesquisadores envolvidos na análise, a falta de alimentos pode levar ainda há um estresse entre os peixes, que acabará afetando seu processo de reprodução.

Os cientistas acreditam que outros animais aquáticos, não apenas os peixes, sofrem com as mudanças provocadas na água pelos incêndios. “Temos outros organismos aquáticos, como anfíbios, mamíferos, posso citar as lontras, por exemplo, entre outras espécies, que provavelmente devem sentir o impacto dessas alterações”, diz Claumir César Muniz, doutor em Ecologia e Recursos Naturais e pós-doutor em Ecologia Aquática e Biologia Animal.

Pesquisadores analisam impacto dos incêndios e da crise climática sobre a água e os peixes do Pantanal

O papel da crise climática sobre a estiagem histórica no Pantanal

Em junho, em um artigo científico, Oliveira Júnior e Muniz, ao lado de outros pesquisadores da Universidade do Estado do Mato Grosso, relataram como a crise climática também tem influnciado o regime das águas da maior planície alagável de água doce do mundo, o Pantanal.

“A dinâmica do Pantanal é totalmente influenciada pelo pulso de inundação, o qual é, em parte, uma consequência do regime de chuvas da Amazônia na direção das cabeceiras e planícies onde a água é retida e a planície formada. Os impactos das mudanças climáticas, embora consensualmente aceitos, ainda não foram medidos no Pantanal do Norte (Pantanal de Cáceres)”, explicam.

Os cientistas analisaram então dados de precipitação, hidrologia e imagens de satélite para determinar possíveis padrões de precipitação, retenção de água e nível do rio Paraguai nas últimas décadas.

“Embora um pulso de inundação bem definido seja encontrado no Pantanal Norte, ao longo de uma série histórica de 42 anos, o número de dias sem precipitação aumentou muito, assim como a perda de massa de água
na última década, especificamente durante a estação de seca. No geral, hoje em dia o Pantanal Norte tem 13% a mais dias sem chuva do que na década de 60 e a massa de água é 16% menor durante a estação seca, em relação aos últimos dez anos”, alertam.

Com menos água, os pesquisadores ressaltam que pode haver perda de biodiversidade, assim como de serviços ecossistêmicos, intrinsecamente ligados ao pulso de inundação. Um exemplo é a função ecológica de dispersão de sementes realizada pelos peixes, enquanto se alimentam das mesmas. Mas se por causa dos incêndios as sementes são queimadas, inicia-se aí todo um ciclo de desequilíbrio na natureza local.

“Dado que essas perdas foram agravadas por pressões antropogênicas, como desmatamento, erosão, usinas hidrelétricas, a elaboração de planos estratégicos para salvaguardar a vida selvagem e as populações humanas, assim como a agricultura, a pecuária, a pesca e a preservação do estilo de vida das pessoas do Pantanal, devem ser implementados com urgência”, destacam.

Infelizmente, no último mês o que mais se viu foi a falta de planejamento do governo. Com o bioma em chamas, houve, em primeiro lugar, ausência completa de fiscalização para evitar que, as queimadas ilegais fossem praticadas, falta de brigadistas e infraestrutura para combater o fogo e por último, nenhum plano de emergência delineado para resgatar os animais feridos e encurralados em meio às chamas.

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Fotos: Instituto SOS Pantanal/Julio Cesar Lima (abertura) e Gustavo Figueiroa (jacaré morto)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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