Parque das Aves recebe casal de pererecas ameaçadas de extinção e inicia projeto de reprodução da espécie

Em abril, o Parque das Aves, em Foz do Iguaçu, tornou-se a primeira instituição do mundo a abrigar um casal de pererecas da espécie Pithecopus rusticus, endêmica (exclusiva) de uma pequena área de campos de altitude da Mata Atlântica

A espécie ainda não tem um nome popular, mas como é chamada pelos cientistas de perereca-rústica, vou adotar. Na foto acima, à esquerda está a fêmea e, à direita, o macho.

Elas foram transferidas do município de Água Doce, em Santa Catarina, na divisa com Paraná, onde existe a única população da espécie (pouco mais de 40 indivíduos) já muito ameaçada pela devastação provocada pela agropecuária, numa área próxima de uma estrada.

O objetivo era inaugurar o primeiro programa de reprodução da espécie no país, de forma que seus descendentes nasçam, cresçam e se desenvolvam num ambiente natural saudável para que possam, em algum momento, serem reintroduzidos na natureza de Água Doce, em SC.

“O plano é manter uma população de segurança, facilitando a reprodução dos animais em um espaço seguro para, futuramente, enviar seus descendentes ao local de origem, reforçando a população em declínio ou introduzindo um novo grupo de indivíduos no ambiente natural”, explica Paloma Bosso, diretora técnica do Parque das Aves.

Parcerias e apoios

O novo projeto conta com o apoio do Parque Nacional do Iguaçu, da Reserva Paulista(Zoológico de São Paulo) e da Universidade Federal de Santa Maria (por meio do projeto Anfíbios Ameaçados da Floresta com Araucárias e ecossistemas associados).

O casal de anfíbios saiu do aeroporto de Chapecó (SC) e foram transportadas até Foz do Iguaçu por helicóptero, com total apoio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios (RAN), do ICMBio.

O RAN é o órgão responsável por articular os planos nacionais de conservação ligados a répteis e anfíbios (herpetologia), como o Plano de Ação Nacional para Conservação de Anfíbios e Répteis Ameaçados de Extinção da Região Sul do Brasil (PAN – Herpetofauna do Sul), que iniciou suas atividades em 2012. 

O projeto de reprodução das pererecas-rústicas no Parque das Aves faz parte do planejamento de conservação desse órgão.

Equipe e cuidados especiais

Para reunir as mais detalhadas recomendações técnicas sobre os cuidados com essa espécie de anfíbios, a equipe responsável reuniu informações sobre seu ambiente natural, compartilhadas pela professora Elaine Lucas, da UFSM, que coordena as atividades de pesquisa em campo.

As pererecas-rústicas são recebidas pela equipe técnica / Foto: Parque das Aves

Também recebeu orientações detalhadas sobre reprodução e manutenção de pererecas do Zoológico de São Paulo, visto que a instituição tem larga experiência com a manutenção de anfíbios ameaçados de extinção.

Desde que chegaram ao parque, as pererecas-rústicas estão sendo mantidas numa área interna da instituição, onde ficam sob observação e recebem alimentação completa e adequada duas vezes por semana. 

“Como são animais insetívoros, oferecemos grilos, baratas, tenébrios (espécie de besouro) e outros pequenos invertebrados, oriundos de nosso biotério*. Estes insetos são suplementados com vitaminas e minerais, garantindo uma alimentação completa e balanceada”, explica o zootecnista Henrique Tavares, chefe da Divisão de Nutrição Animal do Parque das Aves.

A equipe também procura criar condições ambientais próximas do local onde elas viviam em Água Doce – temperatura, umidade, entre outras. Assim, utilizam o máximo de iluminação natural possível, além de uma lâmpada que emite raios ultravioleta B, que ajuda a manter suas funções fisiológicas.

Ben Phalan, chefe de conservação no Parque das Aves, destaca que, para a equipe, “desenvolveu um ambiente compatível com aquele que elas teriam à disposição no ambiente natural. Como as pererecas preferem se esconder dentro da vegetação durante o dia, criamos um aquaterrário com bastante vegetação para o casal. Para minimizar qualquer risco sanitário aos animais, desinfetamos todos os itens introduzidos no terrário. O bem-estar desses dois indivíduos é sempre prioridade”.

Terrário / Foto: Parque das Aves

Mesmo não preferindo o ambiente aquático, elas são muito sensíveis à qualidade da água, por isso, o pH deve ser monitorado constantemente para conferir sua acidez, como também analisar a presença de nitrato, nitrito e amônia, que desbalanceados podem ter efeito negativo nos animais. 

Após essa checagem, os técnicos ajustam a proporção de troca de água dos anfíbios, de forma a manter cada parâmetro monitorado dentro das condições ideais de bem-estar relativos à espécie.

Além disso, as pererecas-rústicas têm hábitos noturnos e, para que a equipe possa monitorá-las de forma minuciosa durante esse período, foi instalada uma câmera infravermelha em seu novo ‘habitat’.

“Ao analisar as gravações noturnas, aprendemos muito sobre os hábitos comportamentais, alimentares e o padrão de atividade geral dessa espécie”, destaca Roberta Manacero, responsável pela Divisão de Bem-estar Animal do Parque das Aves, que acrescenta:

“Durante o monitoramento diurno, observamos que os animais preferem se esconder dentro de bromélias e de outras vegetações, e possuem a habilidade de alterar a coloração da pele de acordo com o local em que se encontram”. Ou seja, se camuflam.

Na lista vermelha do Ministério do Meio Ambiente

As atividades de pesquisa em campo da UFSM são coordenadas pela professora Elaine Lucas e acontecem desde 2009, ano em que a população de pererecas-rústicas foi descoberta.

Mas foi somente em 2014 que o anfíbio foi descrito pela ciência como uma nova espécie, e já está classificado como criticamente em perigo de extinção (CR) pela Portaria do Ministério do Meio Ambiente nº 148, de 07/06/2022, que atualizou a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção (veja na imagem abaixo).

“Desde a sua descoberta, poucos indivíduos têm sido registrados em apenas uma localidade, apesar das buscas pela espécie na região. Assim, sabíamos que era necessário tomar uma atitude urgente. Por isso, a parceria entre as instituições pode assegurar o futuro deste pequeno anfíbio”, explica Elaine.

A escolha do Parque das Aves 

O projeto que agora se inicia, de fato, começou a ser gestado em agosto de de 2020, durante uma oficina de avaliação das necessidades de conservação das espécies de anfíbios ameaçados do Brasil, entre elas a Pithecopus rusticus.

Foto: Parque das Aves

Esse encontro foi organizado graças a diferentes parcerias: com a organização internacional Amphibian Ark (Arca dos Anfíbios), que se dedica à conservação de anfíbios por meio da reprodução sob cuidados humanos (ex-situ), e o Grupo de Especialistas de Anfíbios do Brasil (ASG Brasil).

Este último é o núcleo brasileiro do Amphibian Specialist Group (ASG) da Comissão para Sobrevivência das Espécies (Species Survival Commission – SSC), que pertence à União Internacional para Conservação da Natureza (UICN), a mais influente organização de conservação da natureza do mundo, que reúne os mais renomados profissionais da área. 

Esse grupo de especialistas identificou que, para conservar a espécie Pithecopus rusticus, seria importante encontrar um espaço seguro, fora de seu ambiente natural, muito degradado.

Cybele Lisboa, bióloga da Reserva Paulista e presidente do ASG-Brasil, salienta que “como grupo, os anfíbios são considerados os vertebrados mais ameaçados do mundo, mas as ações de conservação para protegê-los ainda são muito escassas. Por isso, estamos muito felizes que o Parque das Aves tenha respondido ao nosso convite e se juntou aos esforços para conservar os anfíbios no Brasil”. 

A partir das diretrizes estabelecidas pelo projeto, este ano, a professora Elaine Lucas, da USFM, destinou um casal da espécie para o Parque das Aves, mediante autorização dos órgãos responsáveis.

Como contei no início deste texto o RAN, que coordena o PAN Herpetofauna do Sul, está envolvido na ação. E Tiago Vieira, coordenador do PAN e representante do ICMBio, explica:

“Os PANs são ferramentas oficiais que organizam prioridades e ações específicas para proteger esta e outras espécies de répteis e anfíbios em risco de extinção, bem como suas áreas de ocorrência. Assim, uma dessas ações inclui o desenvolvimento de um programa de conservação ex-situ, ou seja, de reprodução sob cuidados humanos”.

E Paloma acrescenta: “Até o momento, não existiam outros indivíduos de Pithecopus rusticus sob cuidados humanos. A chegada do casal ao Parque das Aves é um marco histórico para o programa de conservação integrada dessa espécie e, consequentemente, para sua sobrevivência”.

Para incrementar o ambiente de reprodução da Pithecopus rusticus, o Parque das Aves fez uma proposta de apoio financeiro para a Amphibian Ark, aprovada recentemente.

“Estamos muito satisfeitos de ver que a importância e a urgência deste projeto tenham sido reconhecidas,” declarou Bem Phalan. “Agora, temos os recursos suficientes para construir mais aquaterrários, na esperança de expandir a população e assegurar o futuro da espécie”.

A fêmea no terçariam, em foto do Parque das Aves

Fotos: Parque das Aves (divulgação)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.