
Seja você um fã ou não de Stranger Things, já deve ter ouvido falar alguma vez ou visto uma imagem da série da Netflix – ela é tão popular que quando foi lançada a última temporada há poucos dias o serviço de streaming apresentou problemas em países como os Estados Unidos e a Índia por causa do enorme número de acessos no mundo inteiro.
A história gira em torno de um grupo de adolescentes que vive em uma cidade fictícia dos Estados Unidos, Hawkins, onde um menino desaparece. Com a ajuda de uma garota com poderes paranormais, eles tentarão desvendar esse mistério que envolve um Mundo Invertido. Em muitas das cenas e do material de publicidade, há sempre uma poderosa luz vermelha ao fundo.
E a equipe do Projeto Chelonia mydas decidiu aproveitar a popularidade da série e essa comoção global em volta dos novos episódios para falar sobre uma outra luz vermelha: aquela utilizada durante o estudo e monitoramento das desovas da tartarugas-marinhas!
Em 2024, por exemplo, nesta outra reportagem – e foto abaixo – nós mostramos um desses registros, na praia de Regência, em Linhares, no litoral norte do Espírito Santo, da desova de uma gigantesca tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea).
Mas por que a luz vermelha?
“Ao contrário dos raios ameaçadores de Stranger Things, a luz vermelha é o recurso ideal para não assustar as fêmeas que chegam à praia para desovar. A escolha da cor não é estética, é ciência pura”, diz a bióloga Camila Miguel, coordenadora do Projeto Chelonia mydas.
A especialista explica que as tartarugas são extremamente sensíveis à luz branca e podem desistir da desova se forem surpreendidas por lanternas, celulares ou postes de luz muito fortes. “Já o tom vermelho é o que elas enxergam com menor nitidez, permitindo o monitoramento sem interferir no comportamento natural das espécies”, esclarece.

Não, não é o Mind Flayer se aproximando!
Recentemente os pesquisadores do Projeto Chelonia mydas também fizeram um vídeo inusitado (assista mais abaixo), que lembrou ainda mais as cenas de Stranger Things. Na mesma praia de Regência, filmaram a desova de outra tartaruga-de-couro, com a tradicional luz vermelha, e ao fundo, relâmpagos no horizonte.
“É o jeito dos pesquisadores “espiarem” a magia da vida acontecendo, sem serem uma ameaça como o Demogorgon!”, brinca Camila. “O vídeo mostra exatamente isso: pesquisadores acompanhando o momento da postura dos ovos enquanto, ao fundo, relâmpagos iluminam o céu. Não, não é o Mind Flayer se aproximando. É só a natureza dando seu próprio show lembrando que, mesmo com a tempestade no horizonte, a vida marinha segue seu ritmo.”
Embora a tartaruga-de-couro seja classificada como ‘vulnerável à extinção’ na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), no Brasil ela é classificada como ‘criticamente ameaçada de extinção‘.
Existem poucas fêmeas que desovam no país, e entre os principais problemas enfrentados pela maior dentre todas as espécies de tartarugas-marinhas do planeta – sua carapaça pode atingir até quase 2 metros de comprimento – está justamente o impacto da iluminação artificial. Fêmeas e filhotes se orientam pela luminosidade natural para chegar ao mar e luzes artificiais podem desorientá-los.
Então, fã ou não de Stranger Things, aqui estão algumas dicas para assegurar a tranquilidade da desova desses seres lindos de nossos oceanos.
– Sempre que avistar uma fêmea desovando mantenha distância: pare, fique agachado e não se aproxime;
– Não use lanternas de luz branca ou flash do celular. Se precisar de iluminação, use luz vermelha ou cubra a fonte de luz;
– Ligue imediatamente para o órgão ambiental responsável na sua região.
“No fim das contas, a vida real se mostra tão ou até mais fascinante que a ficção. E, para proteger esse espetáculo natural, basta um pouco de cuidado, silêncio e escuridão. Afinal, nessas horas, cada um de nós pode ser o herói que mantém longe qualquer ameaça, seja um predador, seja um Demogorgon imaginário”, diz a bióloga.
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