Parcerias, campanhas e financiamentos apoiam negócios que conservam a Amazônia durante a pandemia

Negócios que geram impacto social ou ambiental positivo para a Amazônia fomentam uma economia da floresta que valoriza a biodiversidade e as populações do território, contribuindo assim para a conservação da floresta.

Esses negócios, em grande parte, encontram-se em estágios iniciais e, muitas vezes, precisam de apoio para se estruturar nos mais diversos aspectos, ganhar musculatura e escala e ampliar cada vez mais esse impacto positivo que geram.

São portadores de futuro porque estruturam, hoje, as bases para um desenvolvimento mais virtuoso para a Amazônia, capaz de gerar renda e qualidade de vida para as populações por meio de atividades sustentáveis como extrativismo e beneficiamento de frutos e folhas, agricultura familiar em sistemas agroflorestais, dentre outras possibilidades, e por isso merecem um olhar mais cuidadoso.

Conheço e acompanho algumas dezenas deles. Em especial aqueles que integram o Programa de Aceleração e Investimento de Impacto da Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA). Com a COVID-19, muitos desses negócios perderam ou zeraram vendas de produtos e serviços, interromperam contato presencial com comunidades que integram suas cadeias produtivas e ficaram com poucas alternativas para manter suas atividades.

Diante desse quadro, o Programa está desenvolvendo e implementando um plano de emergência para dar apoio a esses empreendedores e empreendedoras, com foco em alguns pontos:

  • Aumento de vendas e receitas, por meio de parcerias que potencializem comércio online, compras institucionais e campanhas;
  • Programa de mentorias e rede de apoio, buscando qualificar os negócios em áreas como estratégia comercial, gerenciamento de crise, estruturação de negócios e desenvolvimento pessoal;
  • Revisão de investimento, com flexibilização do cronograma de pagamentos de empréstimos revisão do plano de uso de recursos e remodelagem financeira para os próximos meses;
  • Apoio à logística, com oferecimento de soluções de distribuição, parcerias com empresas de transporte e frete coletivo; e
  • Fundo emergencial de capital de giro, com aportes de R$ 10 mil a R$ 20 mil, como doação ou empréstimo a juro zero.

“Com o isolamento ocasionado pela pandemia, o Programa se reorganizou e tem nesses meses como principal norte ajudar os negócios a se fortalecer e serem resilientes, seja intermediando a flexibilização de pagamentos e empréstimos, oferecendo soluções logísticas que facilitem a venda à distância, com parcerias que ampliem o alcance de seus produtos e mesmo ofertando capital para se manterem em funcionamento. As atividades previstas para o ciclo de aceleração de 2020 continuam, mas adaptadas a essa situação”, diz Mariano Cenamo, coordenador do Programa de Aceleração e Investimento de Impacto da PPA.

Parceria com o Mercado Livre

O Mercado Livre, maior plataforma de e-commerce da América Latina, pela qual vários de nós já compramos alguma coisa, se juntou ao Programa de Aceleração para ajudar a promover a venda online de produtos desses negócios, tornando-os acessíveis a um público maior.

Tem tucupi, geleias e doces amazônicos, tem acessórios incríveis feitos com látex, arte e artesanato indígena de diversas etnias, chocolates à base de cacau nativo da Amazônia, mel de abelhas nativas sem ferrão, castanhas, biscoitos de castanha, café agroflorestal e acessórios para casa.

“Entendemos que o comércio eletrônico pode ser uma alternativa para os desafios de comercialização e logística na região, e que o incentivo a esses empreendedores contribui para a geração de renda e para a conservação florestal no território, além de apoiá-los neste delicado momento de pandemia”, afirma Laura Motta, Gerente de Sustentabilidade do Mercado Livre.

A parceria também ajuda vários desses negócios, que têm pouca ou nenhuma experiência com o comércio online, a experimentar a modalidade e se familiarizar com ela, uma tendência que parece ter vindo pra ficar com o isolamento social.

A previsão é de que, até o final do ano, pelo menos 20 empreendimentos façam parte da iniciativa e de que mais de mil famílias, de 60 comunidades locais, sejam beneficiadas com a ação.

Mais prazos em empréstimo coletivo

Cinco desses negócios acelerados pelo Programa participaram de uma iniciativa da SITAWI, em março deste ano, que promoveu uma rodada de investimento por meio de sua plataforma de empréstimo coletivo. Escrevi sobre isso aqui, no Conexão Planeta.

A plataforma ofereceu oportunidade para pessoas interessadas em investir em iniciativas que geram impacto na floresta amazônica e precisam de recursos para alavancar sua atuação e ampliar ainda mais esse impacto. Em menos de 24 horas, a plataforma conseguiu engajar os investidores necessários para apoiar os negócios.

Agora, com o apoio dos parceiros Instituto Humanize e USAID, a SITAWI, fez novo empréstimo de longo prazo para esses negócios que participaram da rodada e os apoiou, aconselhando em negociações e decisões estratégicas durante a pandemia. Os investidores da plataforma de empréstimo coletivo foram informados sobre os impactos do momento para os negócios e da atuação para apoia-los.

“Cada investidor e parceiro da PPA teve que olhar para os recursos que tinha à mão e dar o melhor de si para apoiar os negócios de impacto, para que eles pudessem continuar firmes na sua missão. A nossa preocupação sempre foi apoiar esses negócios, fortalecê-los e criar um instrumento financeiro com credibilidade para o mercado e para as pessoas que acreditaram nos negócios de impacto da Amazônia”, diz Andrea Resende, gerente de investimento de impacto da SITAWI.

Negócios também se movem

A promoção de campanhas de financiamento coletivo também tem sido adotada por alguns desses negócios como modo de manter suas atividades e atravessar esse período com resiliência.

É o caso, por exemplo, da Taberna da Amazônia, sobre a qual escrevi aqui, no Conexão Planeta, que tem como missão conectar a Amazônia com quem vive no sudeste do país por meio dos sabores da floresta, comercializando itens produzidos por agricultores familiares e extrativistas principalmente em feiras e eventos. A Taberna conseguiu bater a meta da campanha, lançada logo no início do isolamento social desencadeado pela pandemia.

Estão com campanhas abertas nesse momento dois outros negócios:

  • A Da Tribu, empreendimento acelerado pelo Programa em 2019 que trabalha com acessórios sustentáveis em parceria com famílias na Amazônia Paraense, que viu suas vendas cessarem no mercado nacional e busca garantir a entrega de recursos para as famílias que integram sua cadeia produtiva em Cotijuba pelos próximos meses;
  • A Na’Kau, que processa e comercializa chocolates genuinamente amazônicos de diversos sabores, gerando renda e mais qualidade de vida para famílias ribeirinhas localizadas nos rios Madeira e Amazonas.

A Tucum Brasil, que comercializa produtos e artesanato da cultura indígena de várias etnias e busca valorizar e promover a arte dos povos da floresta por meio de relações comerciais pautadas pela legalidade e equilíbrio financeiro, trabalha com e-commerce há algum tempo e promove descontos progressivos para incentivar o consumo.

Conservar e preservar a Amazônia passa também, além das ações fundamentais de fiscalização e controle, por incentivar essa economia da floresta. Investindo nesses empreendedores e empreendedoras hoje semeamos um outro futuro econômico para a Amazônia. Mais sustentável e virtuoso, que valoriza a biodiversidade, a cultura e gera renda para suas populações.

Foto: Nareeta Martin/Unsplash

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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