Paraisópolis contrata profissionais de saúde e capacita moradores como brigadistas para enfrentar coronavírus

Com 135 mil casos confirmados da COVID-19 no Brasil, até este momento, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde, e mais de 9 mil mortes, especialistas apontam que nosso país será o novo epicentro global da pandemia do novo coronavírus. A previsão foi feita por dois estudos diferentes, envolvendo pesquisadores brasileiros e do exterior – das Universidades de Oxford, na Inglaterra, e da Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos (leia mais aqui).

São Paulo continua sendo o estado com o maior número de casos e óbitos no Brasil. De acordo com o Boletim Diário COVID-19, de 6/5, já são mais de 34 mil pessoas contaminadas pelo vírus e 2,8 mil perderam a vida. A capital paulista concentra a maioria desses números: 23,8 mil doentes e 1,9 mil óbitos.

Em Paraisópolis, a segunda maior favela da cidade de São Paulo, os casos suspeitos de coronavírus têm aumentado (ainda não há números oficiais e há demora no resultado dos exames).

Paraisópolis contrata profissionais de saúde e capacita moradores como brigadistas para enfrentar coronavírus

Vista aérea de Paraisópolis: segunda maior favela de São Paulo

Com seus 100 mil moradores, a comunidade na zona sul da capital tem a maior densidade populacional do Brasil. Em suas vielas, famílias numerosas dividem a mesma casa, o que torna praticamente impossível a realização de isolamento social ou pior ainda, de quarentena, quando alguma pessoa testa positivo para a COVID-19.

Mas para se proteger da doença, os habitantes de Paraisópolis se uniram, já que não contam com ajuda do poder público. “Em Paraisópolis, o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) dificilmente chega. A situação ficou pior depois que a base que atendia a região fechou”, diz Gilson Rodrigues, líder comunitário local e coordenador nacional do movimento G10 das Favelas.

O primeiro passo para se preparar para o enfrentamento do coronavírus foi a compra de ambulâncias e a contratação de médicos e enfermeiras pela União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis.

Já para receber os moradores que testaram positivo para a COVID-19 foram criadas duas Casas de Acolhimento, instaladas em escolas municipais da favela, atualmente fechadas. No total, será possível atender 500 pessoas, que poderão ficar ali durante os 15 dias de quarentena, recomendados por médicos, e dessa maneira, não contaminar mais membros da família.

O dinheiro para a adaptação das escolas e a manutenção das casas foi conseguido através de um financiamento coletivo. A estimativa é que serão necessários R$ 4 milhões ao longo de três meses. Serão 41 funcionários apenas na cozinha, dois enfermeiros e uma ambulância.

Para poder ficar na Casa de Acolhimento, é necessário que o encaminhamento dos doentes seja feito pela Unidade Básica de Saúde e pela Assistência Médica Ambulatorial de Paraisópolis.

Doação de alimentos e capacitação de moradores

Outra ação da comunidade tem sido a entrega de marmitas para casas com doentes crônicos, idosos ou pessoas em quarentena. No começo de abril, já tinham sido distribuídas 8 mil refeições.

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Entrega de refeições a moradores

A iniciativa mais recente da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, em parceria como o Grupo Bombeiro Caetano (GBC) e a Associação Bombeiro Mirim Juvenil Voluntário (BMJV), foi a capacitação de 240 socorristas, que farão parte da Brigada de Emergência de Primeiros Socorros da comunidade. 

Os socorristas serão divididos em dez equipes, formando 60 bases em seis microrregiões de Paraisópolis: Centro, Grotão, Grotinho, Brejo, Prédios e Antonico. 

Todos contarão com equipamentos como pranchas longas, kits de primeiros socorros e equipamentos de proteção individual (EPIs). “Além disso, a comunidade contratará 12 bombeiros civis que auxiliarão os moradores nas bases”, revelou a associação em sua página no Facebook.

Apesar de todo esforço feito pela associação de Paraisópolis, moradores relatam que ainda há muita gente nas ruas e pouco respeito à recomendação de distanciamento social.

“Aqui não existe quarentena. As pessoas continuam frequentando bares e as lojas estão todas abertas. Tem gente nas ruas sem máscaras e ninguém respeita o distanciamento nas filas”, conta Lane Santana, que vive na comunidade há anos e é mãe de um bebê de 11 meses. “Estamos em casa, trancadas”.

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Foto: Josi Martins/arquivo pessoal (abertura) e reprodução Facebook União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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