Paquistão contrata cidadãos desempregados, devido a pandemia, para plantar árvores contra as mudanças climáticas

Quando foi decretada a quarentena no Paquistão, em 23 de março, devido à pandemia da COVID-19, milhares de pessoas ficaram sem trabalho e sem renda para alimentar suas famílias. Mas o governo agiu rapidamente e optou por uma saída que, ao mesmo tempo, é uma poderosa ferramenta contra as mudanças climáticas: plantar árvores.

Na verdade, cerca de 10 mil pessoas foram contratadas para integrar o programa de plantio de mudas chamado Billion Tree Tsunami (divulgamos aqui no site), lançado em 2018 pelo primeiro-ministro Imran Khan, com a intenção de reflorestar a província de Khyber Pakhtunkhaw, no noroeste do país, no vale da montanha Hindu Kush. O programa inclui instalação de viveiros, o plantio de mudas e a manutenção de guardas florestais ou de bombeiros.

Seu objetivo era recuperar as florestas devastadas nas últimas décadas para recuperar áreas devastadas por tsunamis, combatendo os efeitos do aquecimento global. Khan também sempre acreditou na promoção da conscientização ambiental em seu país empobrecido e atormentado pela seca, onde tanto a ganância quanto a necessidade deixaram as florestas arrasadas. Quando o projeto foi iniciado, apenas 2% de todas as terras eram cobertas por vegetação, de acordo com o Banco Mundial.

Mas parece que o conceito implantado por Khan atraiu uma nova geração de paquistaneses com uma educação melhor e também despertou entusiasmo nas mídias sociais (o programa tem uma página no Facebook). “Essa é uma das coisas raras em nossa sociedade”, disse Malik Amin Aslam, ministro das mudanças climáticas ao site The Washington Post, que liderou a campanha original em Khyber-Pakhtunkhwa.

O plantio ajuda a movimentar a economia

Tudo ia muito bem – e até a meta já havia sido redefinida para 10 bilhões de árvores -, mas o plantio teve que ser interrompido devido a pandemia. O isolamento social se tornou obrigatório no país como parte do plano de evitar a propagação do vírus, que já afetou cerca de 19 mil pessoas e matou 430.

Os trabalhadores recebem entre 500 rúpias a 800 rúpias paquistanesas (cerca de US$ 3 ou US$ 10,54 aproximadamente R$ 15 ou R$ 57,49) por dia, quantia suficiente para alimentar suas famílias e contribuir para movimentar a economia durante a pandemia.

“Devido ao coronavírus, todas as cidades fecharam e não há mais trabalho. A maioria de nós diariamente não ganhava a vida”, disse Rahman, morador do distrito de Rawalpindi, na província de Punjab, à Thomson Reuters Foundation. “Agora, todos nós temos uma maneira de ganhar salários diários novamente para alimentar nossas famílias”.

No final de abril, o primeiro-ministro concedeu autorização para que a agência florestal reiniciasse o programa e criasse mais 63 mil empregos. Para que isso fosse possível, definiu protocolo de restrições, que garante medidas de higiene (todos devem usar máscaras e não podem tocar no rosto enquanto não puderem lavar as mãos) e distanciamento adequado (2 metros), enquanto trabalham.

Neste momento, grande parte do plantio está sendo realizado numa área de 15 mil acres (6 mil hectares) próxima à capital, Islamabad, além de outras terras florestais estatais espalhadas por todo o país.

Pandemia, uma oportunidade

Ministério do Meio Ambiente do país já anunciou que pretende contratar mais trabalhadores para ir além: atingir a meta de plantar 20 milhões de mudas até o final deste ano. Mesmo com a pandemia, ou melhor, talvez devido a ela.

Malik Amin Aslam, consultor de mudança climática do governo paquistanês, disse à Thomson Reuters Foundation que sua intenção é continuar aproveitando este momento de pandemia para acelerar os esforços contra as mudanças climáticas. “Essa trágica crise proporcionou uma oportunidade e decidimos agarrá-la. Nutrir a natureza está permitindo o resgate econômico de milhares de pessoas”, acrescentou.

Nossa, quanta diferença, não? Enquanto, no Brasil, o ministro do meio ambiente Ricardo Salles propôs, durante reunião ministerial, que ele e todos os ministros presentes, aproveitem a pandemia – “quando a imprensa está distraída com a COVID” – para flexibilizar leis e normas de proteção ambiental, o consultor de mudanças climáticas do Paquistão vê nesse período uma oportunidade também, mas para proteger seu país dos efeitos das mudanças climáticas.

E mais: tais esforços de “estímulo verde” se traduzem em exemplos de como fundos mantidos pelo governo para as famílias e manter a economia girando durante paralisações como esta, também podem contribuir para que os países se preparem para enfrentar a próxima grande ameaça do planeta: o clima. Um exemplo para o nosso país, sem dúvida.

E pensar que o Brasil já foi protagonista em debates internacionais sobre biodiversidade e mudanças climáticas e teve uma das legislações ambientais mais invejáveis do mundo. Que vergonha!

Abaixo, assista ao vídeo produzido para o Fórum Econômico Mundial sobre o projeto Billion Tree Tsunami:

Fotos: Divulgação e Facebook Tree Billion Tsunami

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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