Papagaios-de-peito-roxo, nascidos em zoológico de Curitiba, ajudam a repovoar área em Santa Catarina, onde espécie foi extinta

Papagaios-de-peito-roxo, nascidos em zoológico de Curitiba, ajudam a repovoar área em Santa Catarina, onde espécie foi extinta

Ao longo das últimas décadas houve muitas mudanças na maneira como zoológicos do mundo inteiro funcionam. De um modelo ultrapassado, em que esses eram lugares onde animais exóticos ficavam expostos para serem vistos pelos seres humanos, os zoos modernos se tornaram centros de estudo, pesquisa e também, de reprodução em cativeiro de diversas espécies, algumas ameaçadas de extinção, e com isso, são aliados importantíssimos para a conservação da biodiversidade.

Um exemplo bem-sucedido do novo papel dessas institutições vem de Curitiba. Lá, o Zoológico do Alto Boqueirão tem uma parceria com o Instituto Espaço Silvestre, de Santa Catarina, que trabalha com a reintrodução do papagaios-de-peito-roxo (Amazona vinacea) numa região onde a espécie havia sido declarada extinta, no Parque Nacional das Araucárias.

Já faz oito anos que as duas organizações uniram esforços para fazer o repovoamento dessas aves naquela área. Em 2014, foi a primeira vez que seis papagaios-de-peito-roxo, nascidos em cativeiro, na capital paranaense, foram soltos no estado vizinho.

Três anos depois, outros três indivíduos foram levados para Santa Catarina. E agora, bem recentemente, duas fêmeas, provenientes do zoológico de Curitiba, se juntam ao grupo no Parque Nacional das Araucárias.

“Essa parceria trata-se de um exemplo de sucesso de conservação integrada, contemplando a importância de grupos animais manejados em zoológico, com o sucesso reprodutivo de papagaios vítimas do tráfico impossibilitados de retorno à natureza, e permitindo a conexão com projeto de conservação na natureza que promove o repovoamento de papagaios-de-peito-roxo”, diz Edson Evaristo, diretor do Departamento de Pesquisa e Conservação da Fauna da cidade de Curitiba.

Todos esses filhotes nascidos no zoológico só são enviados para o programa de reintrodução quando se tornam mais velhos, quando têm cerca de 1,5 a 2 anos de idade. Antes da viagem, diversos exames são realizados e as aves passam por um período de quarentena, isoladas dos demais psitacídeos do zoológico, um cuidado fundamental para não se introduzir patógenos (doenças) em vida livre.

Ao chegar em Santa Catarina, antes da soltura, os papagaios também ficam durante um período de adaptação num viveiro. “Eles vão para o recinto de aclimatação, inserido na mata. Depois ocorre a liberação gradativa dos mesmos”, explica Evaristo.

Papagaios-de-peito-roxo, nascidos em zoológico de Curitiba, ajudam a repovoar área em Santa Catarina, onde espécie foi extinta

As fêmeas, nascidas em cativeiro, que já estão em Santa Catarina para serem soltas em breve

A expectativa é que no ano que vem outros quatro filhotes do zoológico paranaense ajudem na repovoação da floresta das araucárias.

Todas as aves recebem microchips e algumas um radiocolar ou uma placa de identificação, com um número, para poderem ser monitoradas.

“Os zoológicos têm se destacado cada vez mais pela importância para a conservação da fauna. Além de acolher animais vítimas do tráfico e manter populações de reserva sob cuidados humanos, possuem conhecimento técnico e condições estruturais passíveis de aplicação em estratégias de conservação, inclusive promovendo adequado manejo reprodutivo visando à reintrodução de espécies na natureza e desenvolvendo atividades de educação ambiental”, ressalta ele.

Além do papagaio-de-peito-roxo, o programa de reprodução de psitacídeos do Zoológico do Alto Boqueirão trabalha com outras espécies ameaçadas de extinção, como o papagaio-charão, o papagaio-de-cara-roxa, a ararajuba e a arara-azul.

Papagaios-de-peito-roxo, nascidos em zoológico de Curitiba, ajudam a repovoar área em Santa Catarina, onde espécie foi extinta

O viveiro no meio da mata do Instituto Espaço Silvestre,
onde as aves ficam antes de serem finalmente soltas na floresta

Ave brasileira

O papagaio-de-peito-roxo é endêmico da Mata Atlântica, ou seja, ocorre somente neste bioma. Ele é encontrado do sul da Bahia ao Rio Grande do Sul, mas também vive no sudeste do Paraguai e em Misiones, na Argentina. Geralmente está associado à Mata de Araucárias.

Com cerca de 35 cm de comprimento, a espécie é identificada pelas penas de coloração roxa no peito. Já na cabeça, dorso e cauda, elas são verdes e na nuca, há uma “gola” azul. Pode-se observar uma coloração vermelha nos extremos das asas e base do bico. Estima-se que este papagaio possa viver por até 30 anos.

O período de reprodução inicia-se em agosto e vai até janeiro. Os ninhos são construídos em ocos de árvores e os ovos são incubados por cerca de 25 dias. Normalmente, a postura é de dois a quatro ovos, chocados principalmente pela fêmea, que durante esse período é alimentada pelo macho. Os filhotes abandonam o ninho geralmente após dois meses e somente se separam dos pais quando começa um novo período de acasalamento, após seis ou oito meses.

A espécie possui dieta variada, alimentando-se de sementes, frutas, flores e folhas.

Papagaios-de-peito-roxo, nascidos em zoológico de Curitiba, ajudam a repovoar área em Santa Catarina, onde espécie foi extinta

Um dos papagaios-de-peito-roxo do Parque Nacional das Araucárias,
com a placa de identificação

Fonte: Instituto Espaço Silvestre

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Fotos: Nemora Prestes (abertura), Cesar Brustolin/SMCS (aves ainda no zoológico) e demais divulgação Instituto Espaço Silvestre

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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