Pantanal: o que podemos esperar após os incêndios?

Pantanal: o que podemos esperar após os incêndios?

Dizem os mais antigos do município de Poconé que, logo após uma chuva forte, alguns moradores saíam às ruas de terra da cidade varrendo os sedimentos trazidos pela enxurrada, na esperança de achar alguma pepita de ouro. A mineração existe até hoje, em menor escala do que no seu início há mais de 200 anos. Mas, para mim, a maior preciosidade que Poconé oferece é a riqueza natural do Pantanal com o tom dourado de suas onças.

Nossa experiência começou no famoso portal de entrada da MT-060, a Rodovia Transpantaneira, alguns quilômetros adiante da área urbana. Dali faltavam quase 150 km de terra, com mais de 120 pontes – algumas em estado bastante precário – até chegarmos ao Porto Jofre, às margens do Rio Cuiabá, na divisa entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Lá faríamos nossas atividades para conferir pessoalmente o que estava acontecendo no Pantanal com os trágicos incêndios.

Saindo de casa

O convite de última hora para ir ao Pantanal Norte, feito por uma amiga que tinha poucos dias disponíveis, soava absurdo. Afinal, estamos acostumados a planejar expedições para nossos clientes com meses de antecedência.  Porém, devido à pandemia, nossos roteiros desta temporada haviam sido cancelados e esta seria a primeira vez, em mais de 25 anos, que eu passaria um ano inteiro sem pisar na planície pantaneira. Então, Naíra e eu decidimos cair na estrada com a amiga Joana e dirigir 2.500 km para passar dois dias na região, colhendo impressões e documentando o que vimos. Após meses de isolamento e distanciamento social, era hora de relembrar a sensação de viajar.

Durante as muitas horas de viagem, passando por paisagens homogêneas monótonas de lavouras intercaladas por poucos remanescentes de Cerrado – vários dos quais queimados – fomos tomados por um turbilhão de sensações. Após uma eternidade remoendo estes devaneios, veio a primeira pergunta da atendente do hotel em Poconé: “vocês vieram para ajudar com os bichos?”.

Pensamentos ambíguos, ansiedade e até um certo sentimento de culpa por estarmos indo “passear” enquanto tanta gente se dedicava voluntariamente a apagar os incêndios, resgatar e levar alimentos para os animais, dentre tantas outras ações.

Debatendo a questão enquanto jantávamos na pizzaria ao lado do hotel, concluímos que esta nossa visita também era uma das formas de ajudar a região, afinal estávamos pagando normalmente pelos serviços que contratamos, fomentando a atividade turística e ajudando a manter ativa a economia local, já tão debilitada. Não estávamos solicitando cortesias por sermos profissionais de turismo, sugerindo permutas e nem pedindo apoios ou patrocínios. O momento não era adequado para tal. Acreditamos ainda que a divulgação das nossas vivências com as imagens que íamos produzir poderiam sensibilizar as pessoas sobre a causa do Pantanal.

Pantanal: relato de uma breve viagem

Portal da Rodovia Transpantaneira

O Pantanal é aqui

Chegando no portal da Transpantaneira, situado ao lado de uma base da Polícia Ambiental, levei um primeiro choque de realidade: acostumado a vê-lo desabitado e reunir nossos clientes fotógrafos na pista para fazer a tradicional foto de grupo, foi um baque ver aquele movimento intenso de caminhões-pipa dos bombeiros e do exército, acampamentos de campanha, carros da Força Nacional, viaturas policiais e caminhonetes de ONGs com as caçambas cheias de alimentos para os bichos que sobreviveram. Paramos rapidamente, fizemos algumas fotos da ação e logo seguimos viagem.

Pantanal: relato de uma breve viagem

Jacaré morto em consequência das secas intensas este ano no Pantanal

Para minha surpresa, os primeiros quilômetros revelaram uma paisagem que era de fato muito árida, ainda que próxima de uma certa normalidade, sob a ótica de quem já andou pelo Pantanal no auge da estação seca. Eu imaginava encontrar absolutamente tudo queimado, desde o início da estrada.

Porém, vimos vários animais em plena atividade, como capivaras, cervos, catetos e até uma lontra. Nossa próxima parada, já “oficialmente” dentro do Pantanal, foi na ponte do Rio Bento Gomes, onde sempre acontece um espetáculo de jacarés e aves em meio à água coberta por uma fina camada verde de pequenas plantas aquáticas.

Talvez este meu aparente otimismo inicial fosse consequência de eu não ter me envolvido nas linhas de frente do combate aos incêndios, como fizeram diversos amigos e colegas Pantanal afora, que relatam cenas de horror difíceis de imaginar e suportar.

Pantanal: relato de uma breve viagem

Jacarés cobertos por plantas aquáticas às margens da Rodovia Transpantaneira

Pantanal: relato de uma breve viagem

Caminhão-pipa do Exército despeja água no leito do Rio Bento Gomes

Após alguns minutos chegou um caminhão-pipa do Exército, parou em cima da ponte e começou a acrescentar mais água no leito do rio. O militar encarregado, com um sotaque carioca, se aproximou e disse “mandaram a gente jogar água nos lugares onde tiver bichos”. Assim que a ponte foi liberada, seguimos até o Rio Pixaim, que fica mais ou menos no meio do caminho até nosso destino. No percurso, paisagens secas, movimento constante de veículos de trabalho e presença de animais onde quer que houvesse um pouco de água. A partir de lá, o cenário se transformou em algo parecido com uma distopia de filme futurista apocalíptico.

Pantanal: relato de uma breve viagem

Várias pontes de madeira na Transpantaneira também sucumbiram aos incêndios

O terreno foi convertido pelo fogo em uma camada espessa de cinzas espetada por troncos de árvores chamuscadas, e os galhos retorcidos dos arbustos mais baixos haviam virado carvão. De vez em quando, víamos pequenos focos de incêndio brotando repentinamente do chão, e no horizonte ainda era possível notar grandes nuvens de fumaça vindo nos lembrar que o fogo continuava avançando sobre a planície.

Por vezes, um redemoinho de cinza e pó se formava e saia rodopiando pelo caminho. Seria o Saci do nosso folclore tentando entender o que tinha acontecido? Era a única ação nos arredores.

O restante se revelava assustadoramente estático – ou quase, pois debaixo de algumas pontes víamos animais tirando proveito da comida e água deixados pelos voluntários. Ao ver uma destas cenas, nossa amiga Joana concluiu: estes mesmos animais que foram brutalmente desalojados e feridos pela ação humana, sem a opção da escolha, agora dependiam justamente desta nossa esmola para terem alguma chance de sobreviver.

É bem triste ver aqueles bichos fortes e imponentes tornando-se resignados e absolutamente submissos às nossas atitudes.

Pantanal: relato de uma breve viagem

O contraste entre a terra arrasada e algumas manchas verdes que ajudam a manter as esperanças

A sensação de terra arrasada só foi se amenizar quando já estávamos próximos do Rio Cuiabá, onde o fogo aparentava não ter chegado com tanta intensidade e a visão da água corrente, bem como a presença de aves coloridas como araras e tucanos, aliviava um pouco nossa agonia. Fiquei pensando em alguma analogia para esta alternância de sensações entre os diferentes trechos do nosso percurso.

A fome apertava com a aproximação do horário do almoço, então me veio à mente a ideia de um sanduíche feito de pão fresquinho, apetitoso, mas com um recheio todo apodrecido e amargo. Com a diferença que, nesse sanduíche da vida real, não dá pra substituir o recheio por outro melhor ou jogá-lo fora e comer apenas o pão.  Está tudo no mesmo pacote.

Pantanal: relato de uma breve viagem

Anta e quatis consumindo água e alimentos deixados sob as pontes da Transpantaneira por voluntários

À procura das onças

Nos últimos anos, a região do Porto Jofre tornou-se mundialmente famosa por ser o melhor lugar do planeta para se observar e fotografar onças-pintadas na natureza, especialmente no complexo de matas, rios, lagoas e canais (“corixos”) que compõem o Parque Estadual Encontro das Águas – queimado quase que em sua totalidade nos incêndios mais recentes.

Este parque atrai anualmente centenas de turistas do mundo todo em busca destes felinos fascinantes, além de muitas outras espécies de animais. Um eficiente sistema de comunicação por rádio entre os barcos aumenta as chances de encontrar as onças, pois existe um acordo entre os barqueiros e os guias locais para que seja emitido um aviso sempre que localizam o bicho. Se por um lado isto é uma vantagem, alguns se incomodam com o fato de ter que “disputar” a onça com uma dúzia de outros barcos durante a alta temporada turística.

Pantanal: relato de uma breve viagem

Turistas observam onça-pintada atravessando um rio no Parque Estadual Encontro das Águas na temporada de 2018

Tenho visitado a região anualmente desde 2006 e nunca saí de lá sem encontrar várias onças. Porém, desta vez, eu estava apreensivo. Algo me dizia que esta tradição corria risco de ser quebrada. Fisher, nosso guia, havia sido bem recomendado pela sua experiência e habilidade, mas na natureza as coisas dependem de vários outros fatores alheios à nossa capacidade.

Apesar de seu barco possuir o tal rádio, ele não teria utilidade – afinal, praticamente todas as pousadas e barcos-hotel outrora lotados estavam vazios. A exceção eram alguns poucos pescadores que ainda tentavam sua sorte na “metade sul-mato-grossense” do rio, já que em Mato Grosso o período de proibição da pesca havia iniciado na véspera, enquanto no estado vizinho ela continuava permitida.

Estaríamos no rio por conta própria e contando apenas com nossos olhos para procurar os bichos.  Este ano, o turismo no Pantanal foi duramente afetado por dois baques em sequência: primeiro a pandemia, logo depois as devastadoras queimadas de origem humana. Na pousada em que ficamos, além de nós três (os únicos “turistas”), estavam alojados 50 brigadistas de incêndio mantidos às custas dos proprietários do local.

E aqui cabe uma menção especial a estes trabalhadores, heróis nesta história junto com os profissionais e voluntários da área socioambiental, constantemente se expondo aos perigos do fogo e rompendo as recomendações de isolamento na pandemia para salvar o Pantanal. Não dá tempo de esperar a vacina.

A densa nuvem de fumaça dificultava a visão e a respiração no Rio Cuiabá

Nossa primeira saída de barco confirmou, ao menos em parte, minhas preocupações. Encontramos outros animais, totalizando dez espécies de mamíferos e incontáveis aves no primeiro dia – mas nada da onça. Isto nos deu ao menos um certo alívio de que o Pantanal resistia.

A paisagem era intercalada por áreas verdes, que pareciam não ter sofrido com os incêndios, e locais onde os efeitos das chamas eram evidentes, com árvores de grande porte queimadas até suas copas. Apesar de triste e chocante, este mosaico não deixava de ter certo apelo estético, dada a diversidade de cores que se complementavam. No Pantanal, a gente acaba vendo beleza em tudo.

O verde da vegetação aquática se misturando com as plantas queimadas no terreno mais alto

Cupinzeiro queimado às margens do Rio Cuiabá

Conforme avançávamos em direção ao parque, entramos com o barco em uma nuvem densa de fumaça que comprometeu a visibilidade e a nossa respiração. E então, repentinamente, tivemos o privilégio de vivenciar uma das mágicas do Pantanal.

As primeiras gotas que sentimos na pele pareciam vir da proa do barco ao atingir as ondas do rio. Mas logo percebemos que a água vinha do alto: começava a cair a tão desejada chuva! Ela veio serena, durou pouco, mas foi o suficiente para ensopar nossas roupas e hidratar nossas esperanças. No início do passeio, Fisher havia comentado comigo que uma chuva seria excelente para estimular os bichos a saírem no dia seguinte. Dito e feito.

Não demorou muito na próxima manhã para finalmente vermos nossa primeira onça – ou melhor, onças! Uma mãe cruzava o Rio Cuiabá a nado com seus dois filhotes. Ela saiu da água e entrou no mato rapidamente, seguida de perto por um deles. O segundo, menos arisco, ainda parou um pouco na margem, nos encarou por alguns segundos e depois escalou o barranco, finalizando com um salto que levantou uma pequena nuvem de cinzas. Foi um encontro relativamente rápido, que rendeu poucas imagens, mas com uma forte carga de emoção e simbologia de renovação para todos nós.

Durante os próximos passeios, encontramos em duas ocasiões outra fêmea com um filhote e mais outros indivíduos sozinhos, totalizando onze visualizações de onças-pintadas em dois dias – incluindo uma briga entre machos que nós apenas escutamos, já que estavam no meio da mata, longe do alcance dos nossos olhos e câmeras. Uma experiência auditiva de arrepiar. Fascinante!

Onça-pintada caminhando às margens de um corixo logo após brigar com outro macho

Além delas, encontramos e fotografamos macacos, ariranhas, tucanos, araras, tuiuiús, jacarés e tantas outras dezenas de espécies. Em mais de uma ocasião, várias ações aconteciam ao mesmo tempo, nos deixando sem saber para que lado olhar e apontar as câmeras.

Como na vez em que estávamos curtindo uma onça muito tranquila quando, da outra margem do corixo, escutamos a aproximação de um bando de ariranhas espalhafatosas nadando em direção ao barco. Momentos assim são o que fazem do Pantanal um lugar tão especial.

Ariranha descansa sobre um tronco caído no Corixo Negro

Pantanal… O que vem agora?

Aqui temos que considerar dois aspectos distintos com relação ao que podemos esperar para o Pantanal. Pelas experiências que vivenciei nesta viagem e o conhecimento acumulado que tenho da região, imagino que, ao chegarem as primeiras chuvas, a vegetação vai ficar verde novamente em poucas semanas. Por outro lado, há uma grande preocupação por parte dos especialistas de que estas chuvas carregarão um grande volume de cinzas para os cursos d’água, o que deve afetar seriamente os organismos aquáticos, como os peixes, dos quais tantas espécies dependem.

O Pantanal é um ambiente muito resiliente. Um exemplo veio do trecho mais afetado pelo fogo, na segunda parte da Transpantaneira. Percebemos que algumas plantas rasteiras já começaram a rebrotar, mesmo com partes do solo ainda fumegando em brasas e sem nenhuma chuva ter caído por lá recentemente.

Primeiros sinais de vegetação rebrotando ao longo da Transpantaneira

Então, a experiência visual das pessoas que forem a partir de agora em busca das grandes belezas pantaneiras – os bichos, as paisagens e seus habitantes humanos – será próxima do normal. Os turistas conseguirão observar e fotografar espécies e situações semelhantes ao que outros visitantes vivenciaram nos anos passados. Ou seja, sob o olhar de um leigo que está em busca exclusivamente dos atrativos famosos do Pantanal, a visita deverá ser um sucesso.

Faço esta afirmação até como forma de apelo, pois a retomada do turismo é fundamental para a recuperação da região. Seja pela questão financeira, seja pela sensibilização das pessoas, que sentirão em primeira mão a força, o potencial e o valor que o Pantanal tem. Isto é muito importante para que comecemos a exigir mais seriedade e respeito das autoridades na lida com este santuário natural. Deixar de ir ao Pantanal pelo temor de que a natureza sucumbiu é um raciocínio errado e prejudicial.

É importante compreender que, por trás de cada “clique” de uma câmera fotográfica registrando estes animais todos sobre os quais falei, há toda uma cadeia produtiva do turismo – guias, barqueiros, motoristas, arrumadeiras, cozinheiros, garçons, proprietários rurais, empresários. Ou seja, é uma forma de exploração sustentável dos recursos naturais do Pantanal que rende anualmente algo em torno de US$ 7 milhões, segundo um estudo realizado em 2015 pela UFMT. Isto, ainda de acordo com a pesquisa, representa 56 vezes mais do que os eventuais prejuízos financeiros causados à pecuária pantaneira pelas onças que vez ou outra predam bovinos – o principal motivo pelo qual estes felinos são caçados na região.

Fêmea de macaco-bugio com seu filhote no
Parque Estadual Encontro das Águas

O outro aspecto de extrema importância, que provavelmente passará despercebido ao olhar leigo de quem não é profissional da área, são os intrincados processos biológicos e as espécies menos vistosas que foram severamente afetados pelo fogo. É tentador encantar-se com as belezas naturais do Pantanal que resistiram ao fogo e afirmar que “está tudo bem”.

Não está, longe disso. Talvez aqui caiba novamente minha analogia do sanduíche: é preciso analisar todo o conjunto e não se deixar iludir apenas por um pão visualmente delicioso, mas cujo recheio está deteriorado.

Passados os incêndios, os animais que sobreviveram precisarão enfrentar uma árdua batalha em busca de alimentos e água necessários para seguirem seus ciclos de vida. A anta da foto, por exemplo, talvez consiga sobreviver emergencialmente com o que lhe é ofertado pelos voluntários, mas isto não vai durar para sempre.

Especialistas acreditam que algumas espécies foram dizimadas e localmente extintas sem sequer terem sido estudadas. Sua ausência pode, a médio e longo prazos, comprometer todo o equilíbrio da cadeia alimentar dentro dos ecossistemas da região, afetando duramente o bioma e a economia local. Esta questão deve ficar a cargo dos meus colegas biólogos, veterinários e profissionais afins, que a partir de agora necessitarão desenvolver estudos complexos em busca de uma real compreensão dos impactos.

Novamente, reforço: se você gostaria de ajudar e não sabe como, visitar esse bioma e divulgar suas belezas é uma das maneiras, fortalecendo a economia local. Cobrar das autoridades a conservação das nossas áreas naturais, aliado a investimentos em ciência e pesquisa, também é importante para tentar reverter, ao menos em parte, os danos deste ano absolutamente triste para quem – como eu – ama o Pantanal.

Onça-pintada lambe seu filhote molhado
no Parque Estadual Encontro das Águas

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Fotos: Daniel De Granville

Daniel De Granville

Biólogo com pós-graduação em jornalismo científico e diretor da empresa Photo in Natur. Trabalha como fotógrafo da natureza na região do Pantanal e Bonito (MS), onde ministra workshops de fotografia e atua como guia para públicos de interesses especiais.

Um comentário em “Pantanal: o que podemos esperar após os incêndios?

  • 19 de outubro de 2020 em 6:09 AM
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    Sentimento de desânimo com o cenário caótico oriundo das queimadas.

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