Pantanal em chamas

Pantanal em chamas

Se você esteve neste planeta durante as últimas semanas, certamente está sabendo sobre a grave situação dos incêndios no Pantanal. É sobre isto que vou tentar fazer uma abordagem racional na postagem de hoje, com algumas informações adicionais sobre como ajudar à distância, na visão de quem vive bem ao lado deste bioma encantador.

Mas como ser totalmente racional e não ficar emocionado ao falar sobre um lugar que faz parte da minha vida há mais de 25 anos?! Onde morei durante sete anos e passei muitos outros dias a trabalho ou por lazer – incluindo alguns dos dias mais incríveis que já vivi.

No momento, meu coração insiste em me dizer para entrar no carro e dirigir algumas centenas de quilômetros para ir ajudar. Eu queria caminhar pelos campos queimados levando comida e água para os animais que sobreviveram. Mas então lembro que estamos no meio de uma pandemia, e também, que as instituições encarregadas estão pedindo às pessoas que se acalmem e aguardem antes de correr para lá sem um plano adequado.

Dito isso, seguem algumas informações sobre o que está acontecendo e como você pode ajudar. Vamos lá.

Quanto foi queimado?

É importante compreender que nem toda a planície pantaneira está em chamas (embora haja focos de incêndio espalhados por toda a área). Ano passado, aparentemente a região Sul do bioma sofreu mais com as chamas e nesta temporada foi a vez da porção Norte.

As estimativas atuais são de que algo entre 15% e 20% do Pantanal já tenham sido queimados por esses incêndios recentes (uma área equivalente à Bélgica) – ou, para usarmos um exemplo brasileiro, são mais de 1.100 vezes a área do paradisíaco arquipélago de Fernando de Noronha.

Sim, é muito! Não há como negar esse fato e ele não pode ser minimizado. Os impactos são graves em áreas cruciais para a conservação do bioma.

Paisagem na RPPN Neivo Pires (Pantanal Sul) em 9 de setembro

O Pantanal irá se recuperar completamente?

Nesta fase, é difícil afirmar “quando” ou “se” isto acontecerá. Os cientistas ainda estão tentando entender o desfecho e a resposta. Também depende de quanto mais será queimado até que os incêndios sejam controlados.

O Pantanal é um ambiente muito resistente, então provavelmente, daqui a algumas semanas a vegetação começará a ficar verde novamente. Mas há muito outros fatores envolvidos do que apenas novas plantas brotando. Muitos animais morreram queimados e tantos outros sobreviveram, mas agora começa uma árdua batalha em busca de água ou alimentos em meio às cinzas.

Como posso ajudar?

Existem várias maneiras que você pode atuar, em diferentes frentes, abaixo eu listei algumas que me ocorreram esses dias.

1) DOAÇÕES

Muitas instituições (universidades, associações de classe, centros de reabilitação de animais silvestres, ONGs) estão recebendo doações para ações emergenciais, como compra de equipamentos de combate aos incêndios em andamento, combustíveis para veículos e sopradores de ar, alimentação para os voluntários, medicamentos veterinários para animais feridos e muito mais.

Além disso, existem iniciativas de longo prazo para a formação de brigadas de incêndio permanentes, que permanecerão ativas o ano todo para trabalhar na prevenção – uma ação fundamental para evitar que esse caos volte a acontecer.

No momento, as pessoas dessas instituições estão extremamente ocupadas trabalhando para conter os incêndios em áreas remotas, onde a comunicação é precária. Portanto, eles podem não ter tido tempo para organizar ou promover adequadamente campanhas de financiamento. Se você quiser doar, aqui fazemos algumas sugestões.

2) VISITE O PANTANAL

Assim que a pandemia permitir (esperamos que daqui a alguns meses), se o Pantanal está na sua lista de desejos, este será o momento de visitá-lo. Uma das maneiras mais bem-sucedidas de explorar economicamente a região de forma sustentável é por meio do turismo.

Cada vez que os “cliques” das câmeras registram uma onça como a que abre esta postagem, por trás deles há toda uma cadeia produtiva que depende do turismo para sobreviver – guias, barqueiros, motoristas, arrumadeiras, cozinheiros, garçons, proprietários rurais, empresários. A sua visita ao local é uma forma de contribuir financeiramente e divulgar as belezas da região, que este ano teve sua economia duplamente impactada pela pandemia e pelo fogo.

Sim, você provavelmente verá muita vida selvagem durante sua visita – e evidências da destruição causada pelos incêndios também. Neste exato momento, nosso único cliente que conseguiu viajar conosco nesta temporada (mesmo depois de ter sido claramente alertado por nós da situação) está no Porto Jofre, perto da região com maior concentração de onças-pintadas do mundo.

Nos últimos três dias, ele já viu e fotografou uma onça fêmea saudável com dois filhotes, outra caçando um jacaré e mais algumas dormindo. Também relatou ter visto capivaras, ariranhas, bugios e muito mais. Parte do que ele pagou pela viagem com certeza vai acabar contribuindo para manter a cadeia produtiva que mencionei acima.

3) FAÇA PRESSÃO INTERNACIONAL

Não há como negar que a atitude do nosso governo federal em relação às áreas naturais do Brasil tem uma grande parcela de responsabilidade pelo que está acontecendo (não apenas no Pantanal, mas também em outros biomas como a Floresta Amazônica e o Cerrado).

Basta fazer algumas buscas na internet para encontrar a visão que o Presidente da República tem sobre “desenvolvimento”, “sustentabilidade”, “conservação ambiental”, “povos tradicionais” e “direitos humanos”; saber que o atual ministro do meio ambiente já foi condenado por fraude ambiental e muitas outras informações assustadoras.

Um exemplo: em abril passado, durante reunião oficial, o ministro Ricardo Salles disse que o governo deveria aproveitar o fato de toda a cobertura da mídia estar voltada à pandemia para “passar a boiada” (aprovar rapidamente desregulamentações ambientais controversas). Outro: antes de assumir a presidência (mas já deputado), Jair Bolsonaro foi flagrado pescando ilegalmente dentro de uma reserva ambiental. Ele nunca pagou a multa e, três meses depois de se tornar presidente, o agente ambiental responsável pela autuação foi exonerado do cargo.

Portanto, se você quiser atuar em nível político, a pressão internacional pode nos ajudar. Ela já está acontecendo, seja por meio das Nações Unidas ou através de grandes empresas que começam a boicotar os produtos brasileiros pela nossa incapacidade em proteger nosso patrimônio natural. Campanhas online também estão pipocando a todo momento.

Se você tem amigos ou conhecidos fora do Brasil que não compreendem nosso idioma, ajude a conscientizá-los sobre a grave situação e explique como eles também podem de tão longe ajudar nosso Pantanal.

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Fotos: Daniel De Granville

Daniel De Granville

Biólogo com pós-graduação em jornalismo científico e diretor da empresa Photo in Natur. Trabalha como fotógrafo da natureza na região do Pantanal e Bonito (MS), onde ministra workshops de fotografia e atua como guia para públicos de interesses especiais.

Um comentário em “Pantanal em chamas

  • 29 de setembro de 2020 em 10:04 PM
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    Parabéns Daniel, mas por mais racional que vc tenha sido, ainda assim, chorei.

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