Pandemia adia o ‘Dia da Sobrecarga da Terra’ para 22 de agosto

Todos os anos, o Dia da Sobrecarga da Terra (Overshoot Day, em inglês) – criado pelo instituto britânico de pesquisas New Economics Foundation, organização parceira da Global Footprint Network – indica a data em que a humanidade esgota os recursos biológicos que o planeta pode renovar durante o ano.

Desde 2001, esse dia vem sendo antecipado, em média, três dias a cada ano, revelando que constantemente avançamos em nosso “orçamento”, multiplicando a dívida ecológica e “pagando juros altíssimos”. Nos últimos 20 anos, esse dia já antecipou 3 meses.

Em 2019, caiu em 29 de julho e indicava que consumíamos 75% mais do que o planeta era capaz de renovar: ou 1,75 planetas Terra. Mas, este ano, devido à pandemia, o início do déficit ecológico chegará três semanas mais tarde do que em 2019, em 22 de agosto, refletindo a redução de 9,3% na Pegada Ecológica.

Esse resultado é consequência direta do isolamento social e da desaceleração provocados pela presença do coronavírus em todo o mundo. Por isso, a “boa notícia” é relativa. Atualmente, utilizamos 60% mais do que pode ser renovado, o que equivale a dizer que utilizamos recursos de 1,6 planetas Terra. Isso revela que estamos a caminho de atingir uma demanda de recursos equivalentes a dois planetas bem antes da metade do século!

A crise sanitária causada pela Covid-19 provou que é possível, num curto espaço de tempo, alterar nossos padrões de consumo por recursos. Sim, foi muito importante isso acontecer agora, mas o ideal é que busquemos esse cenário – que pode nos levar à uma real e democrática sustentabilidade, com equilíbrio ecológico e bem-estar – por intermédio de planos de desaceleração econômica e não com base em uma catástrofe.

E é preciso levar em conta também que a desigualdade ficou ainda mais evidente durante este período, como destaca Laurel Hanscom, diretora executiva da Global Footprint Network:

“A humanidade tem estado unida pela experiência comum da pandemia e demonstrou como nossas vidas estão interligadas. Mas, ao mesmo tempo, não podemos ignorar a profunda desigualdade das nossas experiências nem as tensões sociais, econômicas e políticas exacerbadas por esta catástrofe global”. E completa: Tornar a regeneração um elemento central dos esforços de reconstrução e recuperação tem o potencial para resolver desequilíbrios tanto na sociedade humana como na nossa relação com a Terra”.

O que podemos aprender

Certamente, os próximos registros de emissões revelarão que, com a flexibilização do isolamento e o retorno a algumas atividades, os índices anteriores podem ser retomados mais cedo do que seria indicado.

Pode parecer fantasioso – ainda mais no Brasil que não tem respeitado nem as medidas básicas indicadas pela OMS – , mas é imprescindível considerar o adiamento do Dia da Sobrecarga da Terra como uma oportunidade para refletirmos sobre o futuro que desejamos.

É fato que a pandemia trouxe – e ainda trará – consequências desastrosas para a economia e, por consequência, para a vida das pessoas. Promover a “reconstrução” não pode significar voltar a fazer o mesmo que tem sido feito, em todos os âmbitos. Se as decisões dos governos forem fundamentadas na preservação dos recursos biológicos e na prosperidade para todos – levando em conta os limites do planeta, afinal, não existe 1,6 planetas! – teremos chance de construir um futuro mais promissor.

Alguns países – como a Nova Zelândia, que completou 100 dias sem transmissão local do vírus e mantém medidas restritivas – foram capazes de agir rapidamente, tanto em termos de regulamentação como de planos de enfrentamento, colocando a vida humana acima de tudo.

Isso não aconteceu no Brasil, como sabemos: o governo Bolsonaro colocou a economia no topo da preocupação e tem desqualificado a pandemia desde seu inicio, afrontando (e deturpando) as declarações da OMS. Por isso, hoje, chegamos a 101.936 mortes e 3.062.374 infectados. Um péssimo exemplo para a história da humanidade.

Apesar disso, temos visto por aqui grandes movimentos de solidariedade, independentes da esfera pública. Sim, a humanidade torna-se mais forte quando age em conjunto, e não devemos perder de vista que as decisões – em qualquer nível – têm consequências para todos.

Quando nos protegemos e a nossas famílias ou comunidade, protegemos os demais. Quando empresas pensam em seus funcionários e consumidores muito além do lucro, também. Quando governos trabalham verdadeiramente pelo povo – que o elegeu -, todos se fortalecem, enfrentam as adversidades com menos impacto negativo e prosperam.

Jacinda Ardem, primeira ministra da Nova Zelândia – entre outras governantes (sim, as mulheres têm se destacado nesse quesito!), diariamente nos dá lições de como atuar em prol da humanidade. Será que teremos tempo de aprender, no Brasil?

A metodologia utilizada pela Global Footprint Network está em constante evolução e as projeções continuarão a mudar. Entretanto, todos os modelos científicos demonstram um padrão consistente: cada vez mais, conviveremos com a escassez de alimentos, a erosão do solo, o acúmulo de CO2 na nossa atmosfera… E essa dinâmica traz custos humanos e monetários devastadores.

Com o adiamento do Dia da Sobrecarga da Terra este ano, testemunhamos o que é possível quando a humanidade se une para alcançar um resultado comum. Que resultado comum é mais importante do que reduzir nossa pegada ecológica e respeitar nosso planeta finito? Essa é a provocação da GFN todos os anos. Nos manteremos indiferentes a ela?

Foto: Creative Commons/Domínio Público

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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