Pajé Mapulu Kamayurá recebe Prêmio Direitos Humanos 2018 por proteger a saúde dos povos indígenas, especialmente das mulheres

Não faz nem um mês que a ONU anunciou que a primeira mulher indígena eleita deputada federal em Roraima, Joenia Batista de Carvalho – Joenia Wapichana, como é mais conhecida graças à sua etnia -, estava entre os vencedores do prêmio criado, há 52 anos, pela entidade para reconhecer pessoas e organizações que lutam pelos direitos humanos no mundo, e já temos outra boa notícia para dar, também sobre o reconhecimento da atuação de uma mulher indígena.

Trata-se da pajé Mapulu Kamayurá que recebeu, ontem, 21/11, o Prêmio de Direitos Humanos 2018 por seu trabalho voltado à saúde nas aldeias do Alto Xingu, onde mora, especialmente com as mulheres. Ela foi indicada por Andrezza Colatto da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres,ligada ao Ministério dos Direitos Humanos (MDH).

Em entrevista ao site do ministério, ela disse que o prêmio “vem para fortalecer as ações internas da comunidade e para divulgar esse trabalho importante para outros povos por meio do diálogo e do intercâmbio de saberes.  Dando visibilidade, conquistando espaço e respeito à causa indígena ao jeito tradicional de viver e se organizar”.

E a secretária Andressa Colatto contou sobre a escolha na cerimônia de entrega: “A pajé Mapulu é uma líder feminina do Xingu muito respeitada. Conheci sua história e, pra mim, não haveria outra pessoa mais indicada para esta honraria. O trabalho dela espalha-se por todo o Xingu, ultrapassa as fronteiras de sua aldeia”. E acrescentou: “Estamos levando inclusão tecnológica para o Xingu, levando um laboratório de informática para as mulheres de lá que precisam especialmente de autonomia econômica. Queremos que os indígenas, especialmente as mulheres, possam colher os frutos do seu trabalho”.

Pajelança e medicina, juntas?

Muito do que sabe, Mapulu aprendeu com seu pai, o cacique Tacumã Kamayurá, que morreu em 2014. Mas um de seus principais ensinamentos, que pauta sua vida, é a preservação da cultura e dos costumes de seu povo, seja na obtenção do alimento, a forma de cozinhar, de se relacionar, sua língua, seus rituais… E, com o passar dos anos, ela também aprendeu a importância do intercâmbio de saberes com outros povos que vivem no Alto Xingu, onde está sua aldeia. Nela vivem 600 pessoas; no Xingu, são mais de 7 mil indígenas.

Mapulu é guardiã da ancestralidade do povo Kamayurá e se tornou pajé. Cuida da saúde de seu povo e tem um trabalho lindo dedicado às mulheres indígenas. O contato com os brancos e os agentes de saúde enviados pelos governos a fez compreender que não há sabedoria em refutar o conhecimento destes, mas, sim, em somar habilidades para salvar vidas e melhorar as condições de saúde dos indígenas.

Por ter esse entendimento, ela e o cacique Kotok – os dois integram a Associação Indígena Hiulaya – querem realizar, em dezembro, um encontro dos Pajemen (pajés, rezadores, raizeiros e parteiras) com agentes de saúde que atuam no Alto Xingu. Querem explicar como é o trabalho dos pajés e porque é importante – e muito possível – aprenderem a trabalhar juntos. Assim, com respeito, poderão identificar as doenças que devem ser tratadas pelos médicos e enfermeiros e as que devem ser tratadas por pajelança, ou, ainda, por todos, em harmonia. “É importante que todos compreendam quando um parto pode ser realizado pelas parteiras e quando é necessário um médico”.

Respeitando os ensinamentos de Tacumã pela preservação de seus costumes e das tradições da pajelança, Mapulu ressalta que o ideal é que o pajé possa atuar primeiro porque seu tratamento é um ritual espiritual de cura que pode envolver o raizeiro. “Eu faço cura de dor de cabeça, coluna, dores, aquele que usa drogas, eu curo. Já o raizeiro cura pneumonia, pressão alta, diabetes, câncer do útero. Eu já curei coisas muito graves”.

Caso o indígena não melhore, entra o conhecimento dos médicos. “Se não consigo, a enfermeira atende e encaminha para a cidade. Por isso, queremos fazer esse encontro”.

A intenção de Mapulu é fortalecer o papel social, político e cultural dos pajés. Para Mapulu, essa parceria é essencial para dar continuidade à saúde e ao equilíbrio das comunidades e dos povos do Xingu. Muita sabedoria!

Representantes do STF, Anac e Unicef, entre os agraciados

A julgar pelos outros premiados – pessoas físicas e instituições -, Mapulu destoa da maioria: magistrados, instituições e governos municipais. Eis alguns nomes: Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF); Raquel Dodge, Procuradora-Geral da República; Raúl Jungmann, ministro da Segurança Pública; Cármen Lúcia Rocha e Luís Roberto Barroso, ministros do STF; o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF); o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA); a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e a prefeitura do Balneário de Camboriú.

Empresas pelos Direitos Humanos

Na noite de entrega do Prêmio Direitos Humanos 2018, foi assinada a Carta Aberta Empresas pelos Direitos Humanos, que, segundo o site do MDH, é um compromisso firmado pelo Estado brasileiro e empresas em favor da proteção dos direitos humanos.

Inspirado pelos Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos aprovados pelo Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2011, o documento defende parâmetros que devem ser respeitados pelo Estado e pelas empresas para garantir os direitos humanos, em qualquer instância: “proteger, respeitar e reparar”.

Assim, os signatários se comprometem a:
1. Adotar política/programa de Direitos Humanos e integrá-los em todas as áreas da empresa;
2. Implementar atividades educativas em Direitos Humanos para sua força de trabalho e colaboradores;
3. Promover ações de valorização do trabalho de afrodescendentes, de pessoas com deficiência física ou sensorial, de mulheres, de pessoas idosas, de defensores de Direitos Humanos, ambientalistas e comunicadores sociais;
4. Adotar política de comunicação, fiscalização e sanção direcionada a seus colaboradores para a preservação dos Direitos Humanos e a prevenção de práticas reprovadas;
5. Promover ampla divulgação, tanto corporativa quanto na área de atuação, de canais públicos de denúncias de ofensas a Direitos Humanos (Disque 100, Ligue 180);
6. Realizar periodicamente auditorias (due diligence) em matéria de Direitos Humanos, aferindo o impacto real e potencial de suas atividades, prestando contas sobre tais impactos por meio, inclusive, de publicação de relatórios.

No final do texto, o documento ressalta que “em razão do aspecto universalizante dos Direitos Humanos, as demais empresas públicas ou privadas são francamente encorajadas a se juntarem a esse compromisso”.

Tomara que outras adiram e que as intenções não fiquem somente no papel.

Fotos: Luiz Alves, Ministério dos Direitos Humanos

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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