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Países suspendem repasse financeiro à agência da ONU dedicada aos refugiados palestinos, após denúncias de Israel

Países suspendem repasse financeiro à agência da ONU dedicada aos refugiados palestinos, após denúncias de Israel

Atualizado em 30/1/2024, em 1/2/2024
França,Japão (28/1), Suécia, Áustria, Romênia, Estônia e Islândia (1/2) aderem ao boicote. E OMS faz alerta sobre acusação de Israel: é uma “distração” (leia o texto abaixo)
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Enquanto a Corte Internacional de Justiça, em Haia (26/1), anunciava sua decisão a cerca da denúncia da África do Sul contra Israel por genocídio na Faixa de Gaza (como contamos aqui) – e ordenava que Israel evitasse um genocídio -, o governo israelense divulgava à imprensa que havia entregue à ONU evidências de que 12 funcionários da UNRWA (agência da ONU dedicada à assistência de refugiados palestinos) participaram do ataque do Hamas, em 7 de outubro de 2023.

Segundo o jornalista Jamil Chade, “o documento também diz que 190 funcionários da agência internacional atuavam como agentes duplos do Hamas”.

Não é de hoje a antipatia do país pela agência que é chamada jocosamente de “o braço civil do Hamas” pelo Ministério de Negócios Estrangeiros de Israel.

À BBC, Mark Regev, conselheiro do governo israelense, disse que “pessoas recebendo salários” da referida agência se envolveram no ataque e que professores (da agência), que trabalham em escolas, “celebraram abertamente” o fato.

Estarrecido com a acusação, Antônio Guterres, secretário-geral da ONU, pediu investigação e os funcionários acusados foram demitidos. 

Países suspendem repasse financeiro à agência da ONU dedicada aos refugiados palestinos, após denúncias de Israel
Foto: Ziad Taleb/UNRWA/ONU

Em comunicado publicado em 27/1Philippe Lazzarinicomissário-geral da UNRWA, declarou: “Para proteger a habilidade da agência de oferecer assistência humanitária, decidi rescindir imediatamente o contrato desses funcionários [são 12 de 13 mil que atuam em Gaza] e lançar uma investigação para estabelecer a verdade, sem demora”.

“Qualquer funcionário envolvido nos atos de terror responderá por isso, inclusive em processos criminais. A UNRWA reitera sua condenação, nos termos mais duros, dos repugnantes ataques de 7 de outubro e pede a libertação incondicional dos reféns israelenses (…)”, reiterou.

Suspensão do financiamento 

Logo que tomaram conhecimento das acusações de Israel, os EUA anunciaram a suspensão de repasses financeiros para a agência. O país é o maior doador com US$ 340 milhões em 2022 (cerca de 1,6 bilhão). 

E, em seguida, outros aderiram ao boicoteReino Unido, Alemanha (segundo maior doador com US$ 162 milhões ou R$ 796 milhões em 2022), Austrália, Canadá, Itália, Holanda, Suíça e Finlândia. No domingo passado (28), França e Japão se juntaram ao grupo. Em 1º de fevereiro, mais cinco: Suécia, Áustria, Romênia, Estônia e Islândia.

Para esses aliados, esta é uma forma de demonstrar compreensão e apoio a Israel, mas sem deixar de pressioná-lo para que controle a ofensiva em Gaza. Na verdade, com essa atitude, esses países tornam-se cúmplices do genocídio em Gaza.

Ponderada e mais justa, a Noruega disse que vai manter a ajuda e declarou: “É necessário distinguir o que indivíduos talvez tenham feito e o trabalho que a agência faz”. Irlanda foi pelo mesmo caminho.

Em 2/2/2024, a Bélgica se negou a interromper sua doação à UNRWA. No mesmo dia, Israel bombardeou o prédio da Agência Belga para Cooperação Desenvolvimento em Gaza. Caroline Gennez, ministra de Cooperação e Desenvolvimento do país, disse que vai convocar o embaixador de Israel para prestar esclarecimentos.

Operação humanitária em colapso

Em 30/1, em Genebra, a OMS – Organização Mundial da Saúde reuniu a imprensa para declarar (e alertar) que a crise provocada por Israel contra a ONU – com a acusação contra funcionários da UNRWA – não passa de uma forma de “distração”, para desviar o olhar dos ataques do país contra Gaza, que já matam mais de 26 mil palestinos e afeta 2,2 milhões.

Apesar da decisão dos EUA, logo que soube do boicote John Kirby, Conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, declarou que violações cometidas por alguns funcionários “não deveriam punir toda a agência, que ajudou a salvar literalmente milhares de vidas em Gaza”.

Foi o que disse Lazzarini da agência da ONU: “Seria imensamente irresponsável sancionar uma agência e toda uma comunidade que ela serve por causa de alegações de atos criminosos contra alguns indivíduos, especialmente num momento de guerra, deslocamento e crises políticas na região”. E acrescentou:

“A UNRWA partilha todos os anos a lista de todo seu pessoal com os países anfitriões, incluindo Israel. A agência nunca recebeu quaisquer sinais de preocupação sobre determinados membros”.

O comissário-geral ainda destacou a urgência da assistência vital oferecida pela ONU, da qual dependem 2 milhões de habitantes de Gaza, que pode estar prestes a terminar com tal sanção.

“Nossa operação humanitária […] está em colapso. Estou chocado que tais decisões sejam tomadas com base no alegado comportamento de alguns indivíduos. À medida que a guerra continua, as necessidades aumentam e a fome se aproxima. Os palestinianos em Gaza não precisavam desta punição colectiva adicional. Isso mancha a todos nós”.

E Lazzarini finalizou: “Exorto os países que suspenderam seu financiamento a reconsiderarem suas decisões antes que a UNRWA seja forçada a suspender sua resposta humanitária. A vida das pessoas em Gaza depende deste apoio e a estabilidade regional também”.

Em comunicado divulgado hoje (29), a agência UNRWA declarou que, se o boicote não for suspenso em breve, suas atividades certamente serão encerradas antes do mês de fevereiro terminar. E os refugiados ficarão à própria sorte.

Em artigo publicado em 30/1, o jornalista Jamil Chade fala da crise financeira que abala a ONU, como um todo, e já se manifesta em serviços na sede em Genebra.

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Campo de refugiados ao sul de Gaza / Foto: OMS/divulgação

Vale lembrar que, em 2018, o então presidente Donald Trumpimportante aliado de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel – interrompeu o apoio financeiro à UNRWA, alegando que o órgão era “irremediavelmente falho”.

Ataques à UNRWA

A agência da ONU para refugiados palestinos é um dos poucos organismos de ajuda internacional que ainda conseguem atuar na Faixa de Gaza, pois têm a permissão de Israel.

O órgão cuida do acolhimento de desabrigados em meio aos ataques de Israel, que já matou 26.422 palestinos, entre eles, mais de 11 mil crianças (fontes: Ministério da Saúde Palestino, Sociedade Palestina Crescente Vermelho e Israeli Medical Services).

Fundada em 1949, a UNRWA também atua na CisjordâniaSíria, Jordânia e no Líbano, atendendo cerca de 700 mil palestinos que se viram forçados a fugir de suas casas com a criação do Estado de Israel, em maio de 1948.

Só em Gaza, a agência emprega 13 mil pessoas, fornecendo infraestrutura e ferramentas, administração de instalações médicas e educacionais, que incluem centros de formação de professores e quase 300 escolas primárias.

Também produz livros didáticos para a formação de jovens palestinos, mas esse material sempre foi alvo de críticas do governo de Israel devido a seu conteúdo.  

Na verdade, a agência como um todo tem sido atacada ao longo de sua existência, que também é criticada por esse governo devido ao fato de espalharem “posições anti-Israel” em manuais e outras formas de ensinamento. 

Além disso, o governo reclama que a agência reconhece o status dos palestinos como refugiados, o que pode levá-los a pensar que têm direito de regressar à terra de onde foram expulsos em 1948. O que Israel refuta terminantemente. 

De acordo com o órgão de vigilância israelense IMPACT-se, por exemplo, em 2022, por meio de material educacional, a UNRWA ensinou aos jovens palestinos que Israel quer “apagar a identidade palestina, roubar e falsificar a herança palestina e apagar a herança cultural de Jerusalém”.

Israel também alega que a agência da ONU promove “o antissemitismo, ódio, intolerância e falta de neutralidade“. Segundo a BBC, a Comissão Europeia identificou “material antissemita” nos livros escolares, “incluindo até incitação à violência” e que o Parlamento Europeu chegou a apelar – várias vezes – para que o financiamento da UE à Autoridade Palestina “fosse condicionado à remoção desses conteúdos”. 

A UNRWA refuta tais acusações, dizendo que relatórios sobre seu material educativo são “imprecisos e enganosos”. Além disso, a maior parte dos livros questionados não são utilizados nas escolas.

Genocídio

Esta guerra dura 76 anos! Não começou em 7 de outubro de 2023 e a ofensiva atual não trata apenas de eliminar o grupo terrorista Hamas, como sempre declara o primeiro-ministro de Israel.

Ontem (28), ministros (entre eles, Itamar Ben-Gvir, da Segurança Nacional, um dos mais radicais contra os palestinos), políticos e colonos israelenses – todos sionistas e de extrema-direita -, se reuniram em convenção para apresentar projetos urbanísticos para colonos em Gaza, que serão construídos em regiões destroçadas pelos soldados israelenses ou ainda habitadas por refugiados.

Resta alguma dúvida sobre as verdadeiras intenções de Netanyahu e do governo de Israel? Quem vai parar este genocídio, ao qual assistimos todos os dias?

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Fontes: Agência Brasil, BBC, The Guardian

Foto: divulgação/UNRWA

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