Os Yanomami pedem socorro! Há uma semana garimpeiros atacam comunidade a tiros; duas crianças foram mortas

Os Yanomami pedem socorro! Há uma semana garimpeiros atacam comunidade a tiros; duas crianças foram mortas

Desde 10 de maio, a comunidade Palimiu, da etnia Yanomami, não tem sossego. Localizada no município de Alto Alegre, no norte de Roraima, ela fica às margens do rio Uraricoera (foto), que é utilizado por garimpeiros para chegar até os acampamentos de mineração instalados na floresta.

Desde então, todos os dias barcos se aproximam da aldeia e os invasores atiraram. No primeiro ataque, os Yanomami – que estavam tranquilos à beira do rio – correram assustados para se refugiar na mata. A maioria foi localizada com vida, exceto duas crianças de 1 e 5 anos, que foram encontradas mortas, boiando no rio, dois dias depois. 

De acordo com a Associação Yanomami Hutukara, no dia seguinte ao ataque, a Polícia Federal de Roraima esteve no local e foi recebida a tiros.

Em 12/5, o Exército também foi até o território e, segundo os indígenas, “ficou cerca de duas horas”. Nesse mesmo dia, por volta das 23h, outros 40 barcos de garimpeiros atacaram novamente, contou Dário Kopenawa Yanomami, vice-presidente da Associação Yanomami Hutukara.

Dário Kopenawa Yanomami em foto de André Villas-Boas

Eles temem que novas investidas dos garimpeiros resultem em conflitos mais violentos e mortes. Por isso, exigem que os órgãos públicos solicitados respondam rapidamente de forma a garantir a segurança dos indígenas. 

Em 15/5, lideranças da comunidade se deslocaram para Boa Vista, capital de Roraima, para denunciar os invasores e pedir ajuda, o que deixou todos na aldeia apreensivos, porque os garimpeiros atacaram de novo.

Ontem à noite, domingo, 16/5, novo ataque! Cerca de 15 barcos se aproximaram da comunidade e, além de tiros, dispararam bombas de gás lacrimogêneo contra os indígenas Yanomami.

No mesmo momento, às 21h40, lideranças ligaram para Dário Kopenawa, por rádio, para pedir socorro: 

“Eles estavam muito aflitos e gritavam de preocupação ao telefone. Ao fundo, era possível escutar o som dos tiros”, declarou Dário em carta que enviou à Funai, à Superintendência da Polícia Federal em Roraima e à 1ª Brigada de Infantaria da Selva do Exército.

“Disseram que, além dos tiros, havia muita fumaça e que seus olhos estavam ardendo, indicando o disparo de bombas de gás lacrimogêneo contra eles”. E completou: 

“Reiteramos o pedido aos órgãos que atuem com urgência dentro de seu dever legal para impedir a continuidade da espiral de violência no local e garantir a segurança para a comunidade Yanomami de Palimiu, antes que conflitos de mais grave natureza ocorram”.

Para garantir e manter a segurança no local e no rio Uraricoera, a associação solicita a instalação de um posto avançado emergencial na comunidade de Palimiú. Também pedem que o Exército atue em regime de urgência, dando apoio logístico para os demais órgãos públicos.

A origem do conflito

Indígenas da comunidade Palimiu / Foto: CondisiY

No final do mês de abril, a Funai, o Ministério Público Federal e a PF de Roraima já haviam sido contatados pela Associação Yanomami devido a um conflito ocorrido no dia 27, como conta na referida carta.

Quando cinco garimpeiros subiam o rio em uma embarcação carregada com 900 litros de combustível para abastecer um helicóptero e um avião, um grupo de indígenas os interceptou e apreendeu a carga, expulsando os invasores.

“Assistindo o ocorrido, outros sete garimpeiros, que desciam o rio em direção a Boa Vista, reagiram disparando três tiros contra os indígenas, acima do posto de saúde local, a que os Yanomami responderam com mais tiros. Felizmente, não houve feridos”.

O relato destaca que as lideranças indígenas da comunidade estão indignadas com a frequente invasão em suas terras e também com violências e ameaças. 

Justiça Federal aperta União, Funai e PF

De acordo com a Apib (Articulação dos Povos Indígenas Brasileiros), a Justiça Federal determinou que a União deve manter efetivo armado, de forma permanente, na comunidade Yanomami Palimiú.

E que a Funai deve auxiliar as forças de segurança no contato com indígenas e gerenciar tais encontros.  

A Justiça deu 24 horas para que a União informasse e comprovasse o envio de tropas à referida comunidade, declarando que o descumprimento poderia acarretar multa. 

Trata-se, aqui, de ordem baseada no resultado de Ação Civil Públicaajuizada em 2020 pelo MPF, que determina a total retirada de garimpeiros da Terra Indígena Yanomami.

A PF confirmou que uma equipe de policiais está no local desde o dia em que foi expedida a decisão da Justiça, junto a integrantes do Ibama e do Exército. 

No entanto, de acordo com o Estadão, até sexta, 14/5, somente a Funai havia se pronunciado, mesmo assim, de forma evasiva.

O órgão disse que “acompanha, junto às autoridades policiais, a apuração de “suposto conflito” ocorrido recentemente na Terra Indígena Yanomami, em Roraima”.  

Também disse que “presta apoio às forças de segurança no local para evitar conflitos e mantém diálogo permanente com a comunidade”, mantendo equipes “de forma ininterrupta dentro da Terra Indígena, por meio de suas Bases de Proteção Etnoambiental (BAPEs)”.

E aproveitou para esclarecer que “não compactua com qualquer conduta ilícita, bem como com juízos açodados, emitidos antes que seja concluída a rigorosa apuração dos fatos pelos órgãos competentes”, acrescentando que “não comenta decisões judiciais”.

A julgar pelo cenário de urgência da aldeia dos Yanomami, a Funai está sendo irresponsável. Duas crianças já foram mortas! E todos os integrantes da comunidade Palimiú correm perigo. 

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Fontes: Apib, carta Associação Yanomami Hutukara, Estadão

Foto: Divulgação (garimpo no Rio Uraricoera)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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