“Os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática, por isso devem estar no centro das decisões, aqui”, declara a jovem Txai Suruí em forte discurso na COP26

Observação: logo após este discurso, Txai Suruí foi intimidada por um funcionário do ministério do meio ambiente e, nos corredores da COP26, mulheres indigenas foram ameaçadas por um deputado governista que compõem a delegação brasileira. As dois ataques renderam o prêmio Fóssil do Dia para o Brasil (link no final deste post) ________________

Mais de 40 indígenas brasileiros estão em Glasgow, na Escócia – e lá ficarão até 12 de novembro – para ‘ocupar’ a Conferência sobre Mudanças Climáticas da ONU, a COP26, e alertar o mundo sobre a importância de se demarcar as terras indígenas como uma das principais soluções para a crise climática pela qual passa a humanidade.

Esta é a a maior delegação de lideranças indígenas brasileiras da história desta conferência e foi organizada pela APIB – Articulação de Povos Indígenas do Brasil – junto com suas organizações de base, e ainda conta com movimentos de jovens e mulheres e o apoio de entidades ambientais, socioambientais e climáticas como o WWF-Brasil, o Greenpeace e o Observatório do Clima.

Walelasoetxeige Suruí Txai Bandeira Suruí ou, como é mais conhecida, Txai Suruí – tem 24 anos, é indígena do povo Paiter Suruí e está participando da conferência. Mas esta não é sua primeira vez numa COP de clima: em 2019, representou seu povo na COP25, em Madri.

Hoje, Txai foi a primeira indígena e única representante do Brasil a discursar nesta edição, na Cúpula de Líderes, nas presenças de Antonio Gutérres, o secretário-geral da ONU, de Boris Johnson, primeiro-ministro do Reino Unido, e Joe Biden, presidente dos EUA.

Com sua fala firme e carregada de amor à natureza, não tenho dúvida de que mexeu com o coração de todos. No final, foi muito aplaudida.

“Tenho 24 anos, meu povo vive há pelo menos 6 mil anos na floresta amazônica. Meu pai, o grande chefe Almir Suruí, me ensinou que devemos ouvir as estrelas, a lua, o vento, os animais e as árvores. Hoje, o clima está esquentando e os animais desaparecendo, os rios estão morrendo e nossas plantações não florescem como antes. A Terra está falando, ela nos diz que não temos mais tempo”. 

E completou: “Precisamos tomar outro caminho com mudanças corajosas e globais. Não é 2030 ou 2050, é agora!”.

Em um dos trechos de seu pronunciamento, ela lembrou de um amigo morto por invasores em abril do ano passado, como contamos aqui. “Enquanto vocês estão fechando os olhos para a realidade, o guardião da floresta Ari Uru-Eu-Wau-Wau, meu amigo de infância, foi assassinado por proteger a natureza”. 

Leia a íntegra de sua fala e assista ao vídeo, publicado em seu Instagram e reproduzido no final deste post.

Pai cacique e mãe indigenista, ambos ameaçados de morte e perseguidos

"Os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática, por isso devemos estar no centro das decisões, aqui", diz a jovem Txai Suruí, na COP26
Foto: Gabriel Ushida (reprodução do Instagram)

Txai Suruí tornou-se ativista ainda muito pequena, certamente inspirada pelos pais: o cacique Almir Suruí e a indigenista Ivaneide Bandeira Cardozo, conhecida como Neidinha Suruí (publicamos uma entrevista muito bacana com ela, em outubro de 2019). Há décadas, os dois são ameaçados e perseguidos por criminosos.

Almir luta contra invasões de garimpeiros e madeireiros nas terras do povo Suruí – também contra o aliciamento de jovens de sua etnia por esses bandidos – e, durante anos, teve sua proteção garantida pelo governo federal. Quando Temer assumiu a presidência, perdeu esse suporte, mas não esmoreceu.

Este ano, o cacique foi perseguido pelo presidente da Funai, Marcelo Xavier, que nitidamente trabalha em favor dos ruralistas. Acusou o líder indígena de crime de difamação em campanha na internet, mas o inquérito aberto a seu pedido, foi arquivado pela Polícia Federal de Rondônia, logo após ouvir Almir.

Não é à toa que Txai não sossega e, apesar de muito jovem, já tem uma trajetória de realizações marcantes.

Fundou o Movimento da Juventude Indígena em seu estado, estuda Direito e trabalha no departamento jurídico da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, uma das entidades de referência em temas relacionados à causa indígena na região.

Atuou no movimento estudantil, tendo sido a primeira reitora indígena do Centro Acadêmico de Direito da Universidade Federal de Rondônia.

Ela faz parte dos Guardiões da Floresta, aliança de comunidades que protege as florestas tropicais ao redor do mundo, da qual fazia parte seu amigo Ari e também Paulo Paulino Guajajara, assassinado em novembro de 2019 – como contamos aqui – e cuja morte ganhou grande repercussão no mundo.

Txai ainda é conselheira da Aliança Global ‘Amplificando Vozes para Ação Climática Justa‘ e atua, como voluntária, da organização Engajamundo, integrada por jovens ativistas climáticos, que participa de todas as COPs de clima e teve destaque em 2015, com Raquel Rosenberg, quando foi fechado o Acordo de Paris (sua participação foi emocionante, vale rever, aqui).

Em abril deste ano, ela fez parte do grupo de seis jovens ativistas climáticos que entraram com pedido na Justiça Federal de São Paulo, para anular a meta brasileira no Acordo de Paris, apresentada pelo governo no final do ano passado, durante a Conferência do Clima da ONU. Contamos aqui.

Hoje, Txai Suruí também faz parte do Conselho Deliberativo do WWF-Brasil. A seguir, leia seu discurso na íntegra e acompanhe a fala da jovem indígena no vídeo.

Não é 2030 ou 2050, é agora!

Foto: Reprodução vídeo

“Tenho 24 anos, meu povo vive há pelo menos seis mil anos na Floresta Amazônica. Meu pai, o grande chefe Almir Suruí, me ensinou que devemos ouvir as estrelas, a lua, o vento, os animais e as árvores. 

Hoje, o clima está esquentando e os animais desaparecendo, os rios estão morrendo e nossas plantações não florescem como antes. A Terra está falando, ela nos diz que não temos mais tempo. 

Uma companheira disse: ‘vamos continuar pensando que com pomadas e analgésicos os golpes de hoje se resolvem, embora saibamos que amanhã a ferida será maior e mais profunda?”.

Precisamos tomar outro caminho com mudanças corajosas e globais. Não é 2030 ou 2050, é agora! 

Enquanto vocês estão fechando os olhos para a realidade, o guardião da floresta Ari Uru-Eu-Wau-Wau, meu amigo de infância, foi assassinado por proteger a natureza. 

Os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática, por isso devemos estar no centro das decisões que acontecem aqui. Nós temos ideias para adiar o fim do mundo. 

Vamos frear as emissões de promessas mentirosas e irresponsáveis: vamos acabar com a poluição das palavras vazias e vamos lutar por um futuro e um presente habitáveis. 

É necessário sempre acreditar que o sonho é possível. Que a nossa utopia humana seja um futuro na terra”.

Discurso lindo e potente. Assista:

Leia também:
Brasil recebe o prêmio Fóssil do Dia por ‘tratamento tenebroso e inaceitável aos indígenas’a COP26

Com informações da Apib, Mídia Índia e do WWF-Brasil

Foto: Reprodução do vídeo

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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