Os guarás-vermelhos de Cubatão

Os guarás-vermelhos de Cubatão

Em 2017 tive a possibilidade de fotografar os ninhais dos guarás-vermelhos que tinham voltado a ocupar o estuário de Cubatão quatro anos antes, após décadas sem registros de sua ocorrência na região. Haveria também a oportunidade de navegar e fotografar uma paisagem muito contrastante, composta pela natureza dos manguezais da Baixada Santista confrontada com um complexo industrial e portuário de grandes proporções, em um cenário que tinha como pano de fundo a imponência dos paredões da Serra do Mar.

Para mim, foi uma experiência pessoal e profissional bastante interessante pois o “Caminho do Mar” sempre habitou um pouco do meu imaginário infantil. Quando minha família e eu descíamos a Serra do Mar pela Via Anchieta com destino ao litoral na década de 1980, seguiam-se muitas histórias e lendas da impenetrável Mata Atlântica no trecho de serra e das maravilhas da engenharia que venceram a natureza e tornaram possível a ligação do planalto com o Porto de Santos.

Ao final da viagem, já na chegada da baixada, ficávamos entorpecidos por alguns instantes pelas luzes amarelas e roxas das chamas dos queimadores do polo petroquímico que se apresentavam em uma dança que iluminava todo o céu sobre o Vale de Cubatão. Esta cena era acompanhada de uma atmosfera
pesada que entrava pela janela do carro, e que exalava um odor de querosene queimado e enxofre.

Na época, com apenas dez anos de idade, eu não conseguia imaginar que alguém conseguia viver sob a presença constante de uma atmosfera tão insalubre.

Naquele período, a cidade de Cubatão ficou conhecida internacionalmente como o “Vale da Morte”, devido aos altos índices de doenças pulmonares e de casos de mortalidade infantil que ocorriam em consequência de uma severa poluição atmosférica.

Os guarás-vermelhos de Cubatão

As chaminés a todo vapor do polo petroquímico de Cubatão.
Ao fundo os paredões da Serra do Mar

Felizmente, com o tempo, a região também representou um exemplo de recuperação dos padrões ambientais. Ainda que até hoje exista um legado socioambiental de difícil reparação e solução, a região de Cubatão se transformou em um importante caso de desenvolvimento de políticas ambientais regulatórias e ações de comando e controle, resultando em mudanças importantes que tornaram a cidade um modelo bem-sucedido de recuperação da qualidade ambiental, reconhecido durante a Conferência das Nações Unida para o Clima, realizada no Rio de Janeiro, a ECO-92.

A chance de ver a volta dos guarás-vermelhos ali representou de alguma forma para mim uma catarse daquele local.

Os guarás-vermelhos de Cubatão

Estruturas do terminal portuário. Abaixo, em primeiro plano, a vegetação do manguezal

Desde o final de 2013 essas aves esplêndidas de plumagem vermelha radiante, voltaram a habitar e se reproduzir nos manguezais de Cubatão. Esse novo ninhal se formou provavelmente a partir da migração de bandos que habitam áreas bem preservadas e protegidas ao sul do litoral paulista, na divisa com o Paraná. Isso mostra a importância absolutamente fundamental da criação e manutenção de santuários de preservação da biodiversidade.

Demonstra ainda que, a partir de localidades bem conservadas, estas e outras espécies podem retornar a habitar locais em certo grau de recuperação, desde que não existam barreiras geográficas intransponíveis.

Este ensaio fotográfico em 2017 acabou revelando nas imagens uma síntese da transformação que ocorre há mais de cinco séculos na natureza da Mata Atlântica. Lá testemunhei muitos contrastes, relembrei histórias e vi de perto os desafios ainda presentes, mas pude registrar os guarás-vermelhos, em meio a um enorme complexo industrial e portuário, dentro de um estuário de grande beleza natural, cercado por manguezais com grande variedade de pássaros e berçário de muitas espécies de peixes.

Esse é um pedaço da Mata Atlântica ainda bastante perturbado pela atividade portuária, industrial e pela ocupação humana desordenada, e que apesar de demonstrar uma certa resiliência da natureza, evidencia de forma bastante explícita a sua grande vulnerabilidade diante de tantas pressões antrópicas.

Guará-vermelho voando sobre os manguezais. Ao fundo as tubulações da Usina Hidroelétrica de Henry Borden cortando os paredões da Serra do Mar

Poucos lugares que fotografei concentram em um pequeno território tamanho contraste em suas paisagens, e escancaram de maneira tão visual as complexas relações entre o homem e a natureza, com implicações tão críticas para as possibilidades de coexistência da humanidade com todos os demais elementos que determinam a possibilidade da existência, ou não, da própria civilização. Um grande paradoxo que apesar do belo espetáculo proporcionado pela volta dos guarás-vermelhos e pela
resiliência da Mata Atlântica, sem dúvida nos convida a uma grande reflexão.

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Luis Palácios

Formado em Administração de Empresas pela PUC-SP, atuou por mais de 20 anos como executivo de negócios no setor de tecnologia. Em 2018 iniciou a transição para uma carreira em Fotografia e Audiovisual. Estudou Produção Executiva na Academia Internacional de Cinema e Produção de Cinema Documentário da New York Film Academy e fez pós-graduação em Gestão Estratégica da Sustentabilidade pela FIA-SP. Atualmente colabora com pesquisadores e entidades ligadas à conservação e à proteção da biodiversidade e já teve várias imagens suas ilustrando artigos de revistas internacionais. Em 2022 foi incluído na Galeria da Seleção Oficial do "One Shot Color – Nature", do International Photography Awards, da Lucie Foundation, e foi finalista do concurso Wildlife Photographer of the Year, do Museu de História Natural de Londres