Orquídeas: para cuidar é preciso conhecer

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Na semana passada, comecei a falar sobre as orquídeas. Naquele primeiro post, escrevi sobre as epífitas (aquelas que crescem em troncos de árvores) e ensinei como elas devem ser cuidadas. Todavia, algumas  orquídeas brasileiras deram origem à um novo grupo de epífitas, chamado de rupícolas.

As rupícolas são orquídeas que viviam em troncos das árvores, mas como passar do tempo – milhares deles -, se adaptaram aos deslizamentos naturais da mata, comum em países tropicais e chuvosos, como o nosso. Estas orquídeas passaram então a se desenvolver sobre pedras, fixando-se em uma mistura de cascalho e serrapilheira (camada formada pela deposição e acúmulo de matéria orgânica morta em diferentes estágios de decomposição), musgos e líquens, sobrevivendo ao sol escaldante durante o dia e madrugadas frias, com formação de orvalho e neblina. As rupícolas fixam-se sobre rochedos e penhascos. São orquídeas nativas das regiões de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia.

Para cuidar bem de uma orquídea desta espécie, é preciso reproduzir seu ambiente natural da mellhor maneira possível, como já mencionei anteriormente. É necessário entender a diferença entre plantas de lugares montanhosos (altitude), por exemplo, onde há uma grande diferença entre as temperaturas diurnas e noturas, o que é conhecido como amplitude térmica. Às vezes também, detalhes como a salinidade no ar, presente em cidades costeiras, podem impedir o bom desenvolvimento de algumas orquídeas e favorecer outras.

Por esta razão, há tantas divergências entre os cuidados com este tipo de planta. Apesar de serem todas da mesma família – Orchidaceae, podem precisar de cuidados muito distintos. Ao cultivar orquídeas é muito  importante saber diferenciar o grupo ao qual elas pertencem porquê ele explicará qual é a forma de crescimento da planta, e consequentemente, você descobrirá qual o melhor tipo de vaso para a hora do transplante e ainda entenderá alguns outros detalhes sobre o método de cultivo.

Pela forma das folhas, raízes e caules, é possível saber se as orquídeas pertencem ao grupo monopodial ou sinopodial. Apesar dos nomes complicados, é fácil distinguir entre os dois grupos. As plantas monopodiais são aquelas que possuem caules eretos – em pé -, folhas embainhadas (que abraçam o caule) e sem pecíolos (hastes entre folhas e raízes). Estas orquídeas crescem na direção oposta às raízes, alternando as folhas de um lado para o outro, em torno de um único eixo, formado pelo caule. Um exemplo de orquídea monopodial é a Phalaenopsis. 

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Orquídeas monopodiais têm o caule em pé e precisam de suporte para o caule

Em geral, quando crescem bastante, as orquídeas monopodiais produzem raízes esbranquiçadas, além daquelas que se fixam no substrato do vaso. Suas flores podem surgir em hastes florais ou individuais. Necessitam de apoio e orientação. Caso esteja fixada numa árvore, o pendão floral poderá ficar pendente, caso esteja num vaso, o uso de arame encapado com plástico pode ser usado para segurá-lo e orientá-lo.

A profundidade do vaso para cultivar a orquídea monopodial, dependerá do tamanho do caule, do número de folhas, e do tamanho da raiz. Caso a planta possua mais de dez folhas grandes, recomenda-se usar um vaso largo e chato de cerâmica, próprio para orquídeas.  Faça uso do substrato inerte de casca de árvores para permitir excelente drenagem da água e de terra vegetal preparada à base de cascas e folhas trituradas, cinzas  e nutrientes para orquídeas.

Já as orquídeas sinopodiais são aquelas em que as folhas nascem agrupadas paralelamente e divididas em duas partes: a de cima com uma folha verde escura, grossa e dura, com uma nervura central e a outra, gorda e rugosa na base da folha, chamada de pseudo-bulbo. Esta parte é uma folha modificada e serve como reserva de nutrientes até que a planta esteja pronta para florescer ou gerar novos brotos.

As  folhas das orquídeas deste grupo, crescem rodeando o bulbo inicial, tal como as bananeiras, e criam a cada ano, novas folhas, fazendo com que o vaso vá se tornando cada vez mais apertado, por isso, a importância em saber à que grupo pertence sua orquídea. Na hora de transplantar uma orquídea sinopodial  para um novo vaso, existe a necessidade de separar os bulbos (mantendo no mínimo, grupos de quatro) e que devem ser separadas pelas raízes com lâminas higienizadas para evitar a contaminação da planta com vírus e fungos.

Outro cuidado importante ao plantá-la, deve ser a forma de fixar as raízes ao novo vaso,uma vez que ainda estarão soltas, e não se devem comprimir, procure usar um pedaço de madeira, melhor ainda se tiver a forma de um “Y”entre as raízes e o substrato para fixar a parte da sua planta, criando um ponto de apoio junto às paredes do vaso.

As hastes florais das sinopodiais podem ser múltiplas ou únicas, como desta majestosa laelia abaixo!

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E como cuidar das rupícolas? Pesquise bastante e pergunte na loja onde você comprá-la. Mas seguem algumas dicas básicas: durante o inverno, nos dias quentes, pode-se colocar uma pedrinha de gelo no substrato durante a noite, tomando o cuidado de evitar o contato do gelo com as folhas, ramos e raízes. Isto poderá imitar a amplitude térmica, que mencionei no começo do texto, das regiões montanhosas.

Lembre-se que por ser uma rupícola, a resistência das folhas ao sol é maior, portanto se as folhas começarem a ficar muito escuras pode ser sinal da falta de luz. Não esqueça de adubá-la com adubo especial para orquídeas com maior teor de cinzas.

Observar a diferenças de uma região para outra pode ajudar. Em regiões de  clima seco e  altitude, como em Goiás, durante o inverno, o período da estiagem pode durar longos meses, levando plantas ao estado de dormência. Quando as chuvas chegam, elas despertarão do longo período de descanso. Porém, durante este período de chuvas, a incidência de luz diminui muito, por causa da nebulosidade. Se a sua orquídea não florescer, não desista!  Talvez seja preciso colocá-la num lugar mais iluminado.

E não se esqueça! Retirar plantas nativas de ambientes protegidos pela lei, é crime inafiançável! Deixe para os profissionais e colecionadores a tarefa de reproduzir as nativas. Nunca retire uma nativa de seu lugar de origem. E ao comprá-la, peça nota fiscal, para garantir a prova da origem.

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Fotos: domínio público/pixabay

 

Liliana Allodi

Geógrafa, paisagista, educadora ambiental e ilustradora científica. Começou a carreira em São Paulo como consultora paisagística. Durante 10 anos viveu no exterior (Austrália, Israel e USA) e neste último país, firmou suas habilidades para trabalhar com crianças. Atualmente dá aulas de horticultura para alunos do Ensino Fundamental, em Brasília. Também desenvolve projetos junto à Cia da Horta para centros de ensino, clubes e empresas.

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