Oceanos estão perdendo oxigênio como nunca antes na história

Oceanos estão perdendo oxigênio como nunca antes na história

“Vemos níveis cada vez mais baixos de oxigênio em grandes áreas dos oceanos. Talvez esse seja o alerta final do experimento descontrolado que a humanidade está desencadeando nas águas do planeta, à medida que as emissões de carbono continuam a aumentar”, afirma Dan Laffoley, conselheiro sênior de Ciência Marinha e Conservação do Programa Polar e Marítimo Global da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

O pesquisador é um dos co-editores do relatório – Ocean deoxygenation: Everyone’s problem (Desoxigenação oceânica: um problema de todos) -, lançado pela organização na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, COP25, que está sendo realizada em Madrid, na Espanha.

O termo desoxigenação oceânica é usado para descrever a redução do nível de gás oxigênio (O2) dissolvido nas águas marinhas. Pode ocorrer naturalmente, mas nas últimas décadas, os cientistas apontam que suas principais causas são provenientes da atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis (carvão, gás, diesel e gasolina) ou o descarte de fertilizantes agrícolas em rios, que acabam carregados para o mar, e propiciam a proliferação de algas*.

“O esgotamento do oxigênio ameaça ecossistemas marinhos que já estão sob estresse devido ao aquecimento e à acidificação dos oceanos. Para interromper a preocupante expansão de áreas pobres em oxigênio, precisamos reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa, bem como a poluição por nutrientes da agricultura e outras fontes”, ressalta Laffoley.

O estudo divulgado pela IUCN é o maior já elaborado, até hoje, por pesquisadores sobre causas, impactos e possíveis soluções para a desoxigenação dos oceanos.

As regiões oceânicas com baixas concentrações de oxigênio estão em expansão, destaca o relatório, com cerca de 700 locais em todo o mundo afetados, atualmente, pelo problema. Dados indicam que, na década de 60, eram apenas 45. No mesmo período, o volume de águas anóxicas no oceano – áreas completamente esgotadas de oxigênio – quadruplicou.

Se o ritmo atual das emissões de carbono na atmosfera terrestre não for reduzido, a expectativa é de que, até 2100, os oceanos tenham perdido de 3 a 4% de seu estoque global de oxigênio.

Impacto sobre a vida marinha

Os oceanos ocupam 97% do planeta Terra e por essa razão, são o habitat de milhares e milhares de espécies. A desoxigenação oceânica tem graves impactos na biodiversidade marinha e no funcionamento de seus ecossistemas.

“Com o aumento da temperatura da água dos oceanos e a consequente perda de oxigênio, o delicado equilíbrio da vida marinha é impactado”, lamenta Grethel Aguilar, diretor geral interino da IUCN.

De acordo com o relatório, a maior perda de O2 é observada a uma profundidade entre 100 e 300 metros, nas águas dos Oceanos Tropical e Pacífico Norte, Ártico, Sul e Atlântico Sul.

Entre os peixes mais ameaçados estão tubarões, atuns e o marlim-azul. Essas espécies estão começando a ir para águas mais rasas, ricas em oxigênio, tornando-se mais vulneráveis à sobrepesca.

Os especialistas da União Internacional para a Conservação da Natureza explicam que alguns dos biomas mais ricos dos oceanos – que sustentam um quinto da pesca de peixes marinhos selvagens do mundo – são formados por correntes oceânicas que transportam água rica em nutrientes, entretanto, pobre em oxigênio. Como são sistemas naturalmente com menos oxigênio, essas áreas são ainda mais frágeis a pequenas mudanças na presença de O2.

“Os possíveis e sérios impactos sobre a pesca e as comunidades costeiras significam que as decisões tomadas na COP25 são ainda mais cruciais. Para conter a perda de oxigênio nos oceanos, juntamente com outros efeitos desastrosos das mudanças climáticas, os líderes mundiais devem se comprometer com cortes imediatos e substanciais nas emissões “, destaca Aguilar.

*Não é apenas o descarte de fertilizantes agrícolas que contribui para o crescimento excessivo de algas nos oceanos. Escoamento de esgoto, resíduos animais, aquicultura e deposição de nitrogênio da queima de combustíveis fósseis também são responsáveis pela proliferação da vida vegetal – um processo conhecido como eutrofização, que afeta principalmente as áreas costeiras.

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Foto: creative commons/unsplash

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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