“O verão também é nosso” é slogan de campanha na Espanha que prega o respeito à diversidade corporal das mulheres

"O verão também é nosso" é slogan de campanha na Espanha que prega o respeito à diversidade corporal das mulheres

*Texto atualizado em 30/07/22
Após a repercussão internacional da campanha do governo da Espanha, descobriu-se que a ilustradora responsável pela imagem utilizou-se indevidamente de um trabalho do artista Brush Willis. Além disso, a modelo britânica Nyome Nicholas-Williams, que aparece de biquíni amarelo, com a cabeça virada pra trás, afirmou que não deu permissão para que sua imagem fosse utilizada.

A agência que foi paga pelo Ministério da Igualdade, a Arte Mapache, pediu desculpas em suas redes sociais e afirmou que se utilizou do trabalho alheio “por acreditar que ele tinha o uso permitido como creative commons”. Lamentável, não? Disse ainda que indenizará Willis.

Segue abaixo o texto original da reportagem.

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Mulheres mais gordinhas, com celulite, estrias. Ou magras demais, sem seios fartos. De cabelos coloridos, bem altas ou bem baixas. Seja lá como for o corpo de qualquer uma delas, em qualquer lugar que estiverem, elas deves se sentir respeitadas e à vontade. Sem vergonha, sem achar que poderiam ou deveriam ser diferentes. Chega de estereótipos! É com esse objetivo e ainda mais agora, durante o verão no Hemisfério Norte, que o governo da Espanha lançou a campanha “El verano tambíén és nuestro”, em português, “O verão também é nosso“.

Na imagem que ilustra a campanha aparecem diversas mulheres na areia, em frente ao mar, vestindo maiôs e biquínis, e com sorrisos no rosto. Uma delas é uma senhora, de cabelo branco, e mastectomizada, ou seja, que precisou retirar total ou parcialmente uma das mamas após um tratamento contra o câncer.

A iniciativa da campanha é do Ministério da Igualdade, em parceria com o Instituto de las Mujeres. “É uma resposta à gordofobia, ódio e ao questionamento sobre os corpos considerados “atípicos”, particularmente os das mulheres, que nos períodos de verão, ocorre de forma mais acentuada. No verão, a discriminação corporal e a violência estética aumentam, como evidenciam as centenas de mensagens recebidas após o lançamento da campanha ou as dezenas de reclamações cidadãs recebidas pelo Observatório da Imagem da Mulher, mostrando quantas marcas continuam a usar modelos que atendem aos cânones de beleza baseados sobre estereótipos de gênero em suas campanhas publicitárias de verão”, diz o comunicado do governo.

“Quando dizem às mulheres que se você não é magra, jovem, se tem estrias, celulite ou cicatrizes, seu corpo é inválido, nossa autoestima é destruída e isso impacta diretamente na nossa saúde, qualidade de vida e na possibilidade de ser e exercer todos os nossos direitos. Falar de discriminação corporal é falar da violação de direitos que as mulheres sofrem quando não têm corpos dentro do que se estabeleceu chamar de ‘padrão’”, ressalta Antonia Morillas, diretora do Instituto de las Mujeres.

Em 2016, a prefeitura de Londres, também teve uma iniciativa parecida para combater a propagação dessa violência estética contra as mulheres: proibiu-se anúncios que estimulavam padrões de beleza irreais nos espaços publicitários do transporte público da capital inglesa.

“Como pai de duas adolescentes, fico extremamente preocupado com este tipo de propaganda, que pode humilhar pessoas, especialmente mulheres e fazê-las se sentir envergonhadas do próprio corpo”, afirmou na época o prefeito Sadiq Khan. “Ninguém pode ser obrigado, enquanto está viajando de trem ou ônibus, a ter expectativas irreais sobre seu corpo”, completou.

Em maio também escrevi sobre a campanha de uma companhia internacional de cruzeiros, que quer mudar a cara do marketing turístico: levar para a publicidade pessoas reais – turistas com deficiência, de diferentes raças, tamanhos e gêneros (leia mais aqui).

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Imagem: divulgação Ministério da Igualdade da Espanha

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.