O que Sebastião Salgado me ensinou sobre humildade

O que Sebastião Salgado me ensinou sobre humildade

Quando apresento minhas palestras e cursos de fotografia, ou mesmo ao avaliar sozinho a minha carreira (como às vezes gosto de fazer), frequentemente vem um questionamento sobre quem são minhas influências. A principal constatação é que não consigo enxergar claramente como determinados fotógrafos me influenciaram no fazer fotográfico em si – ou seja, poucas vezes percebo nitidamente nas minhas imagens o estilo visual de outros profissionais. Certamente eles estão lá, mas de uma forma menos evidente. Para mim, tais características são bem mais presentes na atitude que adoto ao praticar minha fotografia do que na composição, enquadramento ou técnica.

Os exemplos de vida que colhi de tantos profissionais do mundo todo, com quem trabalhei ao longo dos anos, me orientam no momento de disparar a câmera. Atitudes como a postura ética e de respeito em relação às coisas da natureza, a humildade perante os outros, a persistência e bom humor ao buscar um assunto, a criatividade para solucionar problemas tecnológicos através de improviso, a atenção aos mínimos detalhes e o fascínio de presenciar cenas espetaculares da vida selvagem são alguns deles. Hoje vou falar especificamente sobre humildade.

Alguns anos atrás, tive o inesquecível privilégio de trabalhar na região de Bonito (MS) durante quatro dias com o fotógrafo Sebastião Salgado, quando ele estava captando imagens para seu Projeto Gênesis. Foi pouco tempo, mas muitas histórias e aprendizados absorvidos de um dos maiores mestres da fotografia atual. Dentre elas, a mais marcante foi no dia em que estávamos no Aquário Natural, uma das famosas nascentes cristalinas do município.

O que Sebastião Salgado me ensinou sobre humildade

Sebastião Salgado em ação em Bonito (MS)

Sebastião estava na nascente fazendo umas imagens subaquáticas, que não são sua especialidade. Para deixá-lo fotografar mais à vontade, me afastei algumas dezenas de metros e fiquei trocando ideias com seu filho Juliano, que é cineasta e estava captando imagens para o documentário O Sal da Terra. Neste filme, com cenas sobre o Projeto Gênesis, Juliano Salgado compartilha a direção com o grande Wim Wenders.

Papo vai, papo vem, de repente ouço Sebastião me chamar à distância: “Daniel, você pode vir aqui, por favor?”. Imaginei que ele precisasse alguma ajuda com seu equipamento, talvez trocar a bateria da câmera ou o cartão de memória. Mas não era nada disso.

Ele me passou a câmera com as imagens abertas no visor traseiro e soltou a pérola: “Queria que você desse uma olhada se você gosta destas fotos, se na sua opinião estão saindo boas, se tem alguma sugestão…”.

Esperei uns segundos até cair a ficha e conseguir responder, com um misto de incredulidade, ansiedade e felicidade: “Mas, Sebastião, você tem certeza de que quer a MINHA opinião sobre as TUAS fotos?!”.

Ele calmamente devolveu: “Mas claro, rapaz! Eu estou aqui fotografando pela primeira vez, enquanto você já vem aqui há anos, trouxe vários fotógrafos do mundo todo e já viu tudo quanto é tipo de foto deste lugar”.

Nem me lembro muito bem da minha resposta, mas obviamente elogiei as fotos (que estavam excelentes, é claro) e só comentei sobre alguns possíveis ângulos diferentes para posicionar a câmera.

E assim eu acabava de adicionar mais um ensinamento na minha caixinha de aprendizados fotográficos. Por mais que você seja um excelente profissional, sempre avalie seu trabalho, questione-se e tenha ciência de que a humildade age a seu favor. Explorar temas novos, com os quais não estamos acostumados, é desafiador e exige atitudes diferenciadas – como pedir a opinião de quem tem mais experiência específica no assunto. Como fez Sebastião Salgado.

O que Sebastião Salgado me ensinou sobre humildade

Posando ao lado do mestre!

(Fiz a foto principal que ilustra este texto algum tempo depois dessa experiência memorável, inspirado pelo questionamento sobre buscar formas diferentes de fotografar temas já bastante explorados. Não sei se gosto dela mais ou menos do que de outras imagens mais “clássicas” que já fiz no mesmo local, mas esta com certeza tem um aspecto diferente e um componente adicional que fazem dela mais especial).

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Daniel De Granville

Biólogo com pós-graduação em Jornalismo Científico, começou a carreira fotográfica na década de 90, quando vivia no Pantanal e trabalhava como guia para fotógrafos renomados de várias partes do mundo, o que estimulou seu interesse pela atividade. Já apresentou exposições, palestras e cursos na Alemanha, EUA, Argentina e diversas regiões do Brasil. Em 2015 foi o vencedor do I Concurso de Fotografia de Natureza do Brasil, da AFNATURA, e em 2021 ganhou o primeiro prêmio na categoria “Paisagem” do Concurso Global da The Nature Conservancy. Vive atualmente em Florianópolis, onde tem se dedicado ao ensino de fotografia e continua operando expedições em busca de vida selvagem Brasil afora