O que o direito à cidade tem a ver com a experiência digital das crianças?

Foi numa reunião de trabalho, dois ou três anos atrás, que uma jovem colega chamou minha atenção para o que lhe parecia óbvio: não há vida digital ou vida offline. Há a vida.

Para muitos jovens, especialmente aqueles que usufruem de conexão e acesso a dispositivos digitais, online e offline são dimensões cada vez mais misturadas, especialmente agora, durante a pandemia.

Exatamente por isso há muitos debates e iniciativas voltadas para caminhos que contribuam para tornar as experiências digitais de crianças e adolescentes mais seguras, saudáveis e construtivas.

Um aspecto parece estar claro: não cabe apenas ao indivíduo mudar hábitos ou se responsabilizar por um uso benéfico da internet para si e para o mundo.

Esse é um desafio que requer uma abordagem sistêmica em cujo cerne está o conceito da responsabilidade compartilhada: famílias, escolas, organizações da sociedade civil, governo e empresas precisam atuar em conjunto priorizando o bem-estar e o desenvolvimento das crianças e adolescentes.

A mediação das famílias

O caminho mais discutido e publicizado é o que cabe às famílias. Pais e mães são muito cobrados e lembrados de que é preciso controlar o tempo que seus filhos passam em frente às telas e a importância de cuidar do conteúdo a que meninos e meninas têm acesso.

Certamente a mediação parental é fundamental e há muito que pode ser feito no âmbito familiar, para além do controle do tempo e do conteúdo. Gosto da metáfora relacionada à alimentação: uma boa dieta digital e alimentar pressupõe uma mediação contínua que começa muito cedo e se estende até a adolescência.

Envolve conhecimento, diálogo, persistência e recursos, mas também está sujeita a fatores que extrapolam o ambiente familiar. A cultura, as condições socioeconômicas, as políticas públicas e os ambientes exercem grande influência na forma como nos relacionamos com a alimentação e também com as telas. 

Escola, indústria e governo

O segundo caminho mais lembrado quando pensamos sobre a relação das crianças com a tecnologia é a escola. A cidadania digital deve fazer parte do currículo escolar e contribuir para que as crianças reflitam e adquiram conhecimento sobre suas ações ao usar a internet, telefones celulares ou outras mídias digitais.

Há ainda um amplo espectro de possibilidades ligadas ao design e ao funcionamento de produtos e plataformas digitais, que compete à indústria da tecnologia, e à regulação dessa indústria, que compete ao governo.

Ambos são fundamentais para que tenhamos um ambiente digital no qual as experiências das crianças e jovens sejam seguras, saudáveis e seus direitos estejam assegurados.

Online e offline: tudo junto e misturado

Mas será que apenas o ambiente digital diz respeito às experiências das crianças com a tecnologia? Se para elas não há mais online e offline, apenas a vida, será que os ambientes offline também não interferem nas experiências que elas têm online?

Acredito que, de fato, as experiências online e offline são fundamentalmente ligadas e interdependentes. E que é preciso trazer para o debate a importância das experiências offline para que as crianças e jovens desenvolvam uma relação saudável com a tecnologia.

Novamente pensando nessa relação como uma dieta, é imprescindível que meninos e meninas tenham acesso a uma ampla diversidade de experiências que proporcionem conexões, convívio, articulação, participação, acesso à informação, forma de expressão e produção de cultura.

O ambiente digital oferece todas essas possibilidades, mas ele não deve ser a única porta para que as crianças as encontrem. Garantir momentos de desconexão que abram espaço para outras experiências, especialmente aquelas ligadas à dimensão do corpo, ao fazer com as mãos e ao uso de diferentes sentidos é fundamental.

Fazer um uso positivo da tecnologia é, entre muitos outros fatores, conseguir transferir conhecimentos e habilidades adquiridas em experiências offline para o ambiente digital e vice-versa.

É valorizar e cuidar do corpo e dos sentidos para que a mente esteja alerta e criativa. É acessar as tecnologias para agir e transformar o mundo num lugar melhor para todos.

Tecnologia e natureza em equilíbrio

Richard Louv, autor do livro A Última Criança na Natureza, chama essa capacidade de mente híbrida, outra forma de expressar a capacidade de auto-regulação.

Os indivíduos com uma mente híbrida ou auto-regulada são capazes de alternar facilmente entre o mundo digital e o mundo físico. São capazes de interagir habilmente tanto com a tecnologia como com o mundo natural.

Ao ser humano foram dados múltiplos sentidos, mas a nossa capacidade de utilizá-los baseia-se na experiência. Podemos desenvolver estes sentidos em sua máxima potência, ou eles podem enfraquecer-se e empobrecer nossa existência. 

Mas será que os ambientes offline que as crianças têm disponíveis possibilitam essas experiências? Será que elas têm acesso a ruas e bairros onde podem encontrar com seus pares e brincar ao ar livre, socializar, se desafiar, criar e se expressar

Como será que a perda de acesso ao espaço público, ao ir e vir autônomo pelas ruas do bairro afeta as experiências digitais das crianças e jovens? Será que, com isso, elas passam a usar as telas como refúgio, como uma alternativa à falta do encontro físico, da presença, da autonomia de movimento? Será que, com isso, há perda de intencionalidade no uso dos dispositivos?

Pois há diferença quando eu intencionalmente procuro um tutorial para aprender a tocar um instrumento musical ou quando passo horas consumindo vídeos aleatoriamente porque não é possível ir para a rua para brincar, caminhar sozinho à casa de amigos, andar de bicicleta, sentir o sol na pele, subir numa árvore, construir um mundo e me vincular a ele.

Experiências online e offline fazem parte da mesma dimensão para muitas crianças e jovens. Nós também, individualmente, somos mente, mas também somos corpo.

Precisamos prezar pela qualidade dos ambientes online – que sejam seguros, saudáveis e benéficos -, assim como devemos lutar por cidades seguras, mais verdes, bem cuidadas, ricas em oportunidades para encontros, interações, brincadeiras, movimentos e vínculos.

Ambientes capazes de sustentar uma vida rica em saúde, bem-estar e significado para todas as crianças e jovens

Foto: Rinaldo Martinucci

Maria Isabel Amando de Barros

Engenheira Florestal e mestre em Conservação de Ecossistemas pela ESALQ/USP, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. É cofundadora da OutwardBound Brasil e atuou na gestão e manejo de unidades de conservação na Fundação Florestal do Estado de São Paulo. Depois do nascimento da Raquel e do Beni passou a estudar a relação entre a infância e a natureza no mundo contemporâneo. Desde 2015, trabalha como pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

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