O que é essencial para as crianças e para o mundo: reflexões sobre consumo e natureza para um ‘novo agora’

O momento de pandemia tem sido de muitas reflexões, seja na perspectiva individual, na família, nas relações sociais, na economia, na cultura, na educação, na saúde ou na política. Tais olhares também estão postos na experiência de infância vivida pelas crianças. Muitas delas lidando com o excesso de brinquedos, atividades e tecnologias, em detrimento da possibilidade de brincar lá fora, enquanto tantas outras vivenciam a escassez de direitos básicos como água potável, saneamento e contato com a escola – ainda que virtual.

Nessa dicotomia entre excesso e escassez, o que é realmente essencial para as crianças? Como queremos viver essa experiência com elas dentro de casa? Para onde queremos levá-las assim que pudermos pisar lá fora? Qual a visão de mundo que essa pandemia pode ensinar para elas e para nós?

Estas são reflexões que temos feito no âmbito dos programas Criança e Natureza e Criança e Consumo, do Instituto Alana, em resposta à crise da COVID-19

Mais justo, mais saudável e menos consumista

O essencial, neste momento de distanciamento social, passa pelo direito ao acesso seguro e de qualidade ao ambiente digital. É preciso ir além da discussão sobre tempo de uso de telas e priorizar as boas experiências – conexões significativas, aprendizados com sentido, diversão saudável – nas quais tanto a privacidade quanto a capacidade de desconectar sejam respeitadas. E garantir que nenhuma criança seja explorada comercialmente pelas plataformas e mídias, em especial por meio de publicidade dirigida a ela.

É fundamental assegurar uma relação na qual a tecnologia esteja a serviço dos direitos e do melhor interesse da criança.

É imprescindível contar com cidades pautadas pela diversidade, pelo encontro e pela qualidade de vida, em detrimento das lógicas de segregação, consumo e privatização. Uma cidade repleta de espaços abertos e natureza, onde crianças e famílias se sintam seguras para movimentar-se e encontrar-se com autonomia e liberdade, que fazem tanta falta neste período de distanciamento.   

É urgente criar/ter/definir uma proposta de educação voltada para o desenvolvimento integral das crianças, ancorada na interdependência entre ser humano e natureza, e comprometida com um mundo melhor para as pessoas e para o planeta. Tais caminhos, se levados a sério como políticas públicas, serão fundamentais para minimizar os custos sociais que virão após este período de confinamento.

Durante os últimos três meses, com as restrições impostas pelo distanciamento, as reflexões que pairam sobre todos nós, em especial sobre as crianças, dificilmente nos remetem a idealizar bens de consumo ou visitas ao shopping center quando pisarmos novamente lá fora.

É da essência humana querer conexão, bem-estar social, qualidade ambiental e natureza – o que realmente importa, o que é fundamental. Para isso, construímos uma agenda comum dos programas Criança e Natureza e Criança e Consumo frente à pandemia, para sonharmos e trabalharmos por um mundo mais justo, mais saudável e menos consumista.

Mas esta é uma agenda que precisa de apoio e envolvimento de toda a sociedade, afinal a responsabilidade pelo bem estar e pelo desenvolvimento das crianças é de todos nós. Vamos juntos?

Foto: Rinaldo Martucci

Edição: Mônica Nunes

JP Amaral e Maria Isabel de Barros

JP AMARAL é mobilizador do Instituto Alana. Cofundador da rede Bike Anjo e bacharel em Gestão Ambiental pela Universidade de São Paulo, faz parte da rede de futuros líderes da Fundação Alexander von Humboldt. MARIA ISABEL DE BARROS é pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana. Engenheira Florestal e mestre em Conservação de Ecossistemas pela ESALQ/USP, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. Com o nascimento da Raquel e do Beni, passou a estudar a relação entre infância e natureza no mundo contemporâneo.

Um comentário em “O que é essencial para as crianças e para o mundo: reflexões sobre consumo e natureza para um ‘novo agora’

  • 6 de junho de 2020 em 1:58 PM
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    Uma criança não precisa de tudo o que deseja e sonha mas do necessário que, nem sempre, sabe reivindicar. Adultos também. As preces das pessoas estão atulhadas do peso morto da inutilidade que elas erroneamente consideram imprescindíveis mas que o tempo se encarrega de provar-lhes que não é. Pais responsáveis, guardadas a relatividade ds comparação, sabem dizer SIM e NÃO ainda que seus bebês esperneiem contrariados. Deus também. Por isso achamos que Ele não ouviu nossas preces quando recusou atende-las. Ele as ouviu sim.

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