“A arte tem o poder de mexer com o sentimento das pessoas, um novo olhar que às vezes números não sensibilizam”, diz o artivista Mundano, curador da exposição Reciclos – Criando Novas Perspectivas, em cartaz até 16 de outubro na Unibes Cultural, em São Paulo.
Mundano é um dos grandes nomes que fazem da arte palanque para proteger a natureza. Com fôlego de atleta, convoca os amigos para entrar em campo. A nova mostra é resultado desse exercício.
Cada um dos nove artistas convidados toparam um desafio: usar um resíduo específico e transformá-lo em arte. A maior parte do material foi retirada do lixo de São Paulo e do Rio de Janeiro.
São eles: Odé Frasão, Rodrigo Machado, Felipe Iskor, André Inea (foto acima), Kelly Reis, Everaldo Costa (Ever Costa), Bruna Serifa, Luna Bastos e Subtu.
O isopor virou poesia; fios elétricos, um ninho
Na peça Eterno, de Bruna Serifa (abaixo) um bloco de isopor leve e colorido salpicado de palavras indica: “a humanidade pode até acabar, mas nós aqui permaneceremos, se nada mudar eu serei o futuro”.
Apesar de 100% reciclável, o isopor enfrenta o desafio logístico de ser muito leve e ocupar muito espaço. Acaba sem passar por qualquer reprocessamento.
Muito poucas vezes, fios e componentes eletrônicos têm o destino correto ambientalmente. Mas, aqui, o artista André Inea deu uma de João-de-barro: criou um ninho – e pássaros – com o que encontrou (na abertura deste post e abaixo).
E assim segue a mostra: com chuva feita de madeira, animação gravada a partir de recortes de personagens de papelão e outras invenções .

De todos os resíduos, só as latinhas de alumínio são novas. Afinal, 99% delas são recolhidas e recicladas. Há valor financeiro que garante esse ciclo.
As duas mil latinhas coloridas fazem as vezes de pixels, como em fotos. É a técnica chamada de pixelata. Cada uma é a menor parte de uma imagem. No conjunto, forma-se uma figura. “É uma homenagem, o retrato da Roselaine”, conta o artista Felipe Iskor (foto abaixo).
Retratos de catadores
Roselaine Mendes Ferreira é uma das lideranças de catadores de Curitiba. Aqui, representa tantos brasileiros que, apesar da invisibilidade injusta da profissão, defendem o meio ambiente de forma silenciosa.
A reciclagem no Brasil ocorre, principalmente, pelas mãos deles. Existem 1850 cooperativas registradas no país que levam quase um milhão de toneladas de resíduos por ano para reciclar. O tratamento adequado faz o país reduzir em mais de 400 mil tonelada a emissão de gás carbônico na atmosfera.
É por isso, que uma galeria inteira com retratos de catadores é exposta como arte!
Depois de São Paulo, a segunda edição da mostra Reciclos (a primeira foi em 2016) segue para Salvador, Recife, São José dos Campos e Pindamonhangaba.
SERVIÇO:
Reciclos – Criando Novas Perspectivas
Onde: Unibes Cultural – Rua Oscar Freire, 2500, Sumaré, São Paulo, SP
Quando: até 16 de outubro de 2022
Entrada gratuita
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